DIÁRIO DE UMA QUARENTENA 

Michele Franco

Doutora em sociologia (em período sabático)

De Milão

A consciência de que vivemos um momento que pode ser um divisor de águas na história por um lado nos exige coragem, conforme exigida em outras crises mundiais: gripe espanhola, grandes guerras e depressões econômicas, que afetaram gerações de pessoas que não tiveram a oportunidade de demandar atenção a seus dilemas individuais. Por outro lado, nos dá um medo solitário, o encontro com a finitude. Os argumentos de que a taxa de letalidade do novo coronavírus é inferior à de outras viroses e que ela afeta um determinado grupo, de uma faixa etária e com doenças preexistentes, sustentam-se até o momento em que você está recolhido na fantasiosa bolha individualista, como se fôssemos uma criação única, conforme os discursos meritocráticos, motivacionais e os coaches querem nos fazer crer.
 
Basta se atentar ao grupo de WhatsApp da família para perceber que, por mais bem-sucedidos na epopeia individual, temos os nossos frágeis, sem os quais nos tornamos frágeis e sem os quais a nossa vida perde o sentido. A consciência de que estamos diante de um desafio histórico deve nos convencer de que não existem respostas simples para problemas complexos. Quais escolhas deverão ser feitas a fim de viabilizarmos nosso projeto (insustentável) de humanidade ou, como disse meu amigo e xará Michele, nosso antropocentrismo narcisista?
 
O crescimento econômico descolado do desenvolvimento social, humano e da preservação ambiental, em que a competitividade de empresas depende do corte de empregos e que muitos dos empregos jamais voltarão a existir (basta olhar para seu banco, caso você ainda o frequente ou a portaria do seu prédio) requer respostas mais complexas do que bravatas. Tornamo-nos viáveis como espécie, a despeito das fragilidades físicas, justamente por causa da nossa capacidade de solidariedade e, ainda que tenhamos tecnologia suficiente para que nossa fragilidade física deixe de nos ameaçar, em momentos de crise temos de nos orientar no sentido de proteger os vulneráveis (física ou socialmente) pois problemas coletivos e sociais só poderão ser enfrentados coletiva e socialmente. Estas escolhas só poderão ser feitas no âmbito da Justiça, da política, do projeto de sociedade. Por mais eficiente que seja o mercado, não está em seu escopo a preservação da justiça social e da proteção dos vulneráveis. Seria fantástico se tivéssemos líderes aptos e dispostos a enfrentar dilemas tão complexos. Seria... 

PS* Gostaria de dedicar esta reflexão à memória de Don Giuseppe Berardelli (padre de Bergamo), que mesmo gostando muito da vida a perdeu por doar seu respirador a um paciente mais jovem.