A primeira morte por Covid-19 no Centro-Oeste do Brasil foi registrada na manhã desta quinta-feira (26), em Goiânia, mas diz respeito a uma moradora de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal (DF). A vítima foi diagnosticada para a doença na última quarta-feira (25). O caso, que foi a primeira confirmação da doença no município, se trata de uma idosa, de 66 anos. Ela tinha diabetes e hipertensão e enfrentou dengue recentemente.

Inicialmente, a paciente foi atendida em um hospital particular da cidade, onde recebeu o diagnóstico de pneumonia e iniciou um tratamento. O pedido, entretanto, foi para que a mesma procurasse a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jardim Ingá, porque uma tomografia do tórax indicou a possibilidade do novo coronavírus.

Na noite da última segunda-feira (23), a mulher deu entrada na UPA com tosse, febre e dificuldade respiratória. Na ocasião, ela afirmou que havia ido ao Distrito Federal antes do início dos sintomas, que já duravam 10 dias.

Uma nova radiografia foi solicitada com quadro sugestivo para pneumonia viral. A família também a submeteu a uma tomografia do tórax e o laudo apresentou alterações de provável natureza inflamatória ou infecciosa. O documento pedia que fosse considerada a hipótese de Covid-19. Conforme relatório médico expedido pela UPA do Jardim Ingá na madrugada do dia 24 de março, a Vigilância Epidemiológica excluiu a paciente da coleta de exames para o novo coronavírus.

A justificativa para que o exame não fosse feito foi de que a contaminação estaria fora do período de transmissão comunitária declarado pelo governo federal. Inicialmente, os exames para a Covid-19 só eram feitos em situações de viagens ao exterior ou ainda em contato direto com outro caso já confirmado para a doença. Na última sexta-feira (20), entretanto, o Ministério da Saúde declarou que o País já contava com contaminação comunitária. Isso acontece quando ocorre a incapacidade de relacionar casos confirmados por meio de cadeias de transmissão. Como os sintomas dela começaram antes do dia 20, teriam negado o pedido de exame.

Depois da negativa, a chefia da unidade entrou novamente em contato com a vigilância e o pedido foi de que a mulher fosse mantida em isolamento. A coleta seria feita “assim que possível”. A prefeita da cidade, Edna Aparecida, afirma que às 3h da última terça-feira (24), o material foi coletado e encaminhado ao Laboratório de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen Goiás). De acordo com o secretário municipal de Saúde de Luziânia, José Walter Marques, outros quatro exames haviam sido feitos na cidade para a doença, mas que apenas este apresentou resultado positivo.

Secretário de Estado de Saúde de Goiás, Ismael Alexandrino afirmou que a negativa do exame não chegou à instância estadual. “Casos que não estão na capital devem ser informados ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) de Goiás porque, se naquela região não tiver kit (para exame), ele tem a capacidade de ofertar. Qualquer unidade do Estado, seja pública ou privada, que comunique ao nosso centro estadual que funciona 24 horas por dia. Se a informação não chega, nós não temos condições de dar o apoio ao município”, pontuou.

Logo após a morte, o secretário José Walter gravou um vídeo no qual se solidariza com a família. Na gravação, ele também afirma que afastou “todos aqueles que inadvertidamente tiveram contatos com a paciente” e que a prefeitura está recolhendo informações adicionais sobre outros ‘procedimentos e contatos para que seja feito bloqueio epidemiológico. Questionada sobre a quantidade de pessoas que faria parte desta lista, a prefeita disse não saber informar.

Internado

Na tarde desta quinta-feira (26), a prefeitura de Luziânia afirmou que um senhor de 74 anos, marido da mulher que morreu com Covid-19, estava internado na mesma UPA com sintomas de Covid-19. Por meio da regulação, Luziânia teria solicitado a transferência dele para o Hospital de Campanha (HCamp), inaugurado nesta quinta-feira.

Relatório diz que equipe não tinha EPIs

Um relatório médico emitido na madrugada da última terça-feira (24) pela Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jardim Ingá, em Luziânia, afirma que “toda a equipe de limpeza, técnicos de enfermagem, enfermagem, radiologia e médica foram expostos, sem nenhum Equipamento de Proteção Individual (EPI) necessário para gravidade do quadro”. O local foi responsável pelo atendimento a uma mulher de 66 anos, confirmada para a Covid-19, que teve morte declarada na manhã desta quinta-feira (26). O caso foi a primeira morte do Centro-Oeste do País.

Procurado, o secretário de saúde da cidade, José Walter Marques afirmou que o relatório supostamente teria sido feito por uma médica que não consta no atendimento inicial da paciente. Disse ainda que, se houve falha, será apurado internamente. “A paciente foi encaminhada à UPA com um quadro de pneumonia e em início de tratamento para a doença. Qualquer paciente que chega com quadro de complicações respiratórias no hospital, deve ser mantido em isolamento e colocado EPI no paciente e nos profissionais”, explica.

O titular da pasta disse que conversou com a diretora da unidade e que ela afirmou ter deixado disponíveis todos os EPIs quando solicitado pelo médico. “Os médicos não ficam paramentados o tempo todo, mas em casos como este o protocolo deve ser obedecido. Se internamente eles não obedeceram aos protocolos, a situação será averiguada. A direção nos garantiu que disponibilizou assim que foram solicitados”, completou.

Ele disse ainda que o documento está rasurado e que precisa verificar se o mesmo faz parte do prontuário da paciente. “Se alguém roubou parte do prontuário, isso pode virar um caso mais complicado. Este documento é interno do hospital. Vamos ouvir as partes envolvidas e esclarecer melhor”
A prefeita da cidade, Edna Aparecida explica que a UPA do Jardim Ingá tinha máscara, avental e luva. “O que não tinha eram equipamentos mais específicos para o caso de coronavírus. Aprovamos um decreto municipal e já solicitamos a compra de mais Equipamentos de Proteção Individual e também de testes rápidos”, pontuou. O problema dos testes rápidos, segundo o governador Ronaldo Caiado, é que eles só testam positivo em caso de contaminação há muitos dias. Ainda assim, Edna afirma que poderão ser usados, por exemplo, para os familiares da paciente que tiveram contato há mais de 10 dias.

Secretário de Estado de Saúde de Goiás, Ismael Alexandrino garante que a falta de EPIs não é exclusividade de um município ou outro, ou só em Goiás, mas que é realidade no País. “Isso é no Brasil todo, até pela falta de produção. Não havia chegado esta informação ainda em relação à unidade municipal de Luziânia, nem em relação ao kit, nem EPI. Estamos produzindo no Lacen, kits na nossa capacidade operacional máxima. Estamos treinando mais pessoas para aumentar esta capacidade operacional e fazendo parcerias com outras instituições. O Estado tem emanado todos os esforços necessários, tanto do ponto de vista de insumos, quanto do ponto de vista de diagnóstico e assistência”, finalizou.