-Imagem (Image_1.1954199)João Teixeira de Faria, o chamado João de Deus, costumava contar em entrevistas para a imprensa que a sua primeira manifestação de paranormalidade teria ocorrido aos 8 anos, no início dos anos 1950, quando estava com a mãe entre Itapaci e Nova Ponte em uma carroça. Ele teria tido uma premonição de uma tempestade, que mais tarde destruiu dezenas de casas do povoado onde moravam.Além disso, antes de ser preso, João dizia que realizava premonições ainda criança, como adivinhar a morte de alguém. No livro “João de Deus - O médium de cura brasileiro que transformou a vida de milhões”, das autoras Heather Cumming e Karen Leffler, que eram seguidoras do médium, ele diz que ganhava trocados para fazer premonições e gastava esse dinheiro jogando sinuca.Pessoas ouvidas pela reportagem que conviveram com João criança e adolescente dizem não se recordar das premonições da criança. A pessoa com suposta paranormalidade na família, que chamava atenção dos moradores, era, na verdade, sua mãe.Francisca, que era conhecida como “Dona Iuca”, era cartomante, parteira, benzedeira e curandeira. Vários moradores antigos de Itapaci testemunharam seus feitos e realizaram consultas com ela. Alguns, até hoje, garantem que a mulher realmente tinha poderes sobrenaturais.Morador mais antigo e vivo de Ponte Nova, onde João cresceu, o trabalhador rural aposentado Domingos Boaventura Gomes lembra da cartomante, que adivinhou o paradeiro de seu cavalo roubado. Apesar dos 80 anos de idade, Domingos ainda aparenta disposição e gosta de conversar do passado.Ele foi encontrado pela reportagem durante uma manhã sentado debaixo de uma árvore, em frente uma casa antiga aos pedaços, de portas e janelas grandes de madeira, onde ele morou e funcionou seu antigo bar. “Só vou contar o que eu lembro. Não vou mentir”, garantiu.Nos anos de 1970, Domingos teve um cavalo furtado. Ele conta que chegou a avistar o bicho na beira de um rio em Ceres, mas o dono da terra mentiu para ele que se tratava de outro animal. “Cheguei em casa, a mulher deu ideia: ‘Porque você não vai lá na Iuca? Aí eu fui. Ela contou certinho: ‘Você viu o cavalo seu, por que não pegou ele? Agora não adianta mais porque encarretaram (sic) ele’”, relata.Prefeito de Itapaci nos anos 1980 e 1990, Adedi José de Santana, de 79 anos, também se lembra de ter usado os serviços de Dona Iuca. Ele conta que ela já previu que ele ganharia a eleição para prefeito, o que se concretizou. “Foi um gás a adivinhação dela”. A cartomante também teria adivinhado que um inimigo de Adedi estava tramando contra ele.Juca doidoO ex-prefeito manteve amizade com João Teixeira tanto na juventude como até os dias de hoje. O médium seria grato a ele por ter cuidado de seu pai, o alfaiate José Nunes de Faria, conhecido como o “Juca doido”.Professora em Nova Ponte nos anos 1950, Francisca Gomes Brandão, a Dona Lilá, de 87 anos, se lembra bem de Juca: “Ele era expedicionário, lutou na Itália, não era muito normal, andava sempre de terno, gravata e guarda-chuva ou bengala”, conta.Outro morador antigo, o atual secretário de Meio Ambiente de Itapaci, Vilmar José dos Santos, conta que Juca andava sempre usando um paletó branco. “Uma vez veio um avião das forças armadas em Itapaci e fez um pouso de emergência no aeroporto, que era precário. Quando ficou sabendo, o pai dele foi lá e quando desceu a tropa, que estava dentro do avião, ele chegou e deu voz de comando.”Com o tempo, Juca se tornou uma figura pitoresca da cidade, que todos conheciam pelo comportamento estranho. Além disso, ele e Iuca se divorciaram.Adedi, o ex-prefeito, conta que cuidou de Juca quando ele começou a definhar nos anos de 1980. Para Adedi, ele foi vítima de maus-tratos em um hospício onde ficou internado. “Quando dava crise, o pai do João ficava falando demais, lembrando do passado. Uns parentes levaram ele para internar, nessas idas mataram ele, deram choque bravo nele”, recorda o ex-prefeito.Negócios alavancados por ditaduraOs detalhes sobre ascensão de João Teixeira de Faria, de como ele deixou de ser uma pessoa comum de um povoado pobre para se tornar um empresário e religioso de reconhecimento internacional, ainda não são muitos claros. No livro “João de Deus - o médium de cura brasileiro que transformou a vida de milhões”, das autoras Heather Cumming e Karen Leffler, seguidoras do médium, há uma passagem que dá uma pista sobre essa ascensão.Segundo o livro, em 1964, ano do golpe militar no Brasil, João foi para Brasília onde teria se tornado protegido de autoridades durante nove anos, após supostamente curar o joelho de um médico. Nesse período, ele teria viajado todo o País acompanhado do exército. Foram nessas viagens, de acordo com o livro, que ele teria ficado inspirado a “grande desejo de ser um bem-sucedido homem de negócios.”A versão espiritual de sua ascensão, contada por dois de seus amigos em Itapaci e por ele mesmo em entrevistas antigas, diz que João teve um desmaio em um centro espírita de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Ele teria parado na cidade tentando ganhar a vida como alfaiate. Quando acordou do suposto milagre, teria sido avisado que fez cirurgias espirituais. BabáNa época de bebê em Itapaci, João Teixeira era cuidado por Sebastiana Alves, quando a mãe estava trabalhando. A babá de João de Deus, que hoje tem 88 anos, nutre bastante carinho por ele e tem lembranças maternais do homem que mais tarde estaria no centro do maior escândalo de abuso sexual do Brasil. Ela chora quando vê ele preso na televisão. “Ele é como se fosse um filho para mim”, diz. Ela se lembra dos cabelos brancos do bebê, de dormir junto dele e de seu outro filho, recém-nascido. Lembra também da música que a Dona Iuca, mãe de João, cantava quando ia buscá-lo no final do dia. Também se lembra que Iuca e o marido, Juca, discutiam muito, o que teria levado ao divórcio. Cabarés eram diversão no povoadoAlém do futebol e do rio, outra diversão dos moradores do povoado de Ponte Nova e da cidade de Itapaci, locais onde João Teixeira morou, eram as chamadas zonas de meretrício, onde ficavam os cabarés. Amigo de infância de João, o ex-prefeito de Itapaci, Adedi José de Santana, de 79 anos, lembra bem dos “puteiros”. Ambientes frequentados até pelos adolescentes, que tinham que fugir de vez em quando das batidas policiais, já que não seria permitido menores de 18 anos. “Lá era o ponto que toda a turma ia”, inclusive João, conta Adedi com naturalidade. O ex-prefeito é uma figura caricata de Itapaci e um amigo leal de João, chegou a compor uma música em sua homenagem. Tem os cabelos batendo nos ombros, pintados de castanho e um dente de ouro na arcada inferior.É dessa época dos cabarés onde começa a fama de mulherengo de João, que se perpetuou até o início das denúncias de abuso sexual e é confirmado por familiares do médium. Ele tem nove filhos, cada um de uma mulher diferente. Em entrevista para o POPULAR em fevereiro de 2017, João disparou: “Gosto de Carnaval, gosto de dançar. Gosto até de ver uma mulher bonita”. Sobre as mais de 300 denúncias de abuso sexual, Adedi defende uma versão que outros amigos do médium dizem: “Santo ele não é, homem nenhum é santo, mas tanta mulher assim não tem condições”, avalia o ex-prefeito.Adedi manteve amizade com João depois que o médium foi embora da cidade. No início dos anos 1980, o médium teria inclusive apoiado o amigo na eleição para prefeito, ajudando financeiramente com a compra de camisetas de campanha. Tratamento vip para itapacinosMesmo tendo saído de Itapaci ainda nos anos de 1950, João Teixeira de Faria manteve vínculos com a cidade, seja familiares, amigos, imóveis e uma consideração a mais pelos habitantes da cidade. É o que conta o atual secretário de Meio Ambiente de Itapaci, Vilmar José dos Santos.“Quando alguém ia em Abadiânia e falava que era de Itapaci, o João não cobrava nada da pessoa”, conta Vilmar. Das vezes que ia em Itapaci, o médium era procurado por moradores, mas na maioria das vezes diria para irem até Abadiânia nos dias em que estava lá.É de conhecimento público na cidade que ele possui pelos menos 4 casas na área urbana, sendo que uma era de sua mãe, que já morreu. Outra chegou a ser ocupada por um de seus irmãos, que também faleceu. Vilmar conta que são mais casas e que ele cuida muito bem delas. A reportagem falou com dois funcionários que são zeladores de algumas das casas do médium, que segundo eles estão vazias. “O dinheiro está caindo todo dia primeiro na conta”, relata um dos funcionários que prefere não se identificar e trabalha com João há três anos. Reportagem do POPULAR de dezembro do ano passado mostrou que João e sua esposa têm 91 lotes e imóveis urbanos e rurais em Anápolis, Goiânia e Abadiânia. -Imagem (Image_1.1954200)-Imagem (Image_1.1954201)-Imagem (Image_1.1954198)