Na madrugada do dia 9 de setembro de 2017, a vida do marceneiro Wallacy Maciel de Farias, então com 24 anos, foi interrompida durante uma abordagem policial em uma rua pouco iluminada no Residencial Canadá, Região Oeste de Goiânia. Junto com isso, nos dois últimos anos, a vida, a saúde, os planos e as convicções da mãe do jovem mudaram radicalmente.

Desde a morte de Wallacy, a dona de casa Adriana Teodoro de Farias, de 44 anos, dedica seu tempo na luta para preservar a memória do filho e pela punição do policial responsável pelo tiro que o matou. O terceiro sargento Lucimar Correia da Silva foi indiciado, denunciado e sentenciado a júri pela morte do marceneiro, mas também foi promovido duas vezes desde a morte do jovem (veja quadro).

Adriana chegou a tomar remédio controlado por causa de uma depressão que teve depois da perda. Hoje considera que convive melhor com a dor. A espera pela primeira neta, filha de outro filho, trouxe esperança para a família. Ainda assim, ela continua na luta por justiça. Em maio deste ano, participou de um protesto de rua na capital, junta a outras mães que perderam os filhos em ações policiais.

“Eu falo para todas as mães: ‘não sejam covardes, não tenham medo.’ Muita gente tentou me frear, falou que eu não devia mexer com polícia, que era perigoso. Eu falo para elas, se elas pelo menos têm uma pista, vão atrás”, defende Adriana.

A morte de Wallacy fez com que Adriana mudasse as convicções sobre as abordagens policiais com morte, que vêm aumentando no Estado. Entre 2017 e 2018 as mortes por intervenção policial passaram de 270 para 424, um aumento de 57%.

“Quando eu ouvia falar em troca de tiro, que bandido reagiu, eu até acreditava, mas depois que acontece dentro da casa da gente, a gente começa a ver com outros olhos. Fico pensando, quantos Wallacy (sic) já foram mortos e o policial registra uma ocorrência falando que foi troca de tiros? O Wallacy ainda teve a filmagem que pode limpar a honra dele”, defende Adriana.

Uma câmera de monitoramento flagrou o momento que Wallacy foi morto e o que ocorreu depois. Policiais mexeram no corpo do jovem e no veículo. No inquérito, o delegado afirma que há indícios fortes de que não havia arma com a vítima no momento em que foi morta.

Quatro anos antes de atirar em Wallacy, o então soldado Lucimar Correia, alvejou a mão de outro PM, que teve de amputar um dedo. Um ano depois, ele foi preso 8 dias como punição. O caso revoltou ainda mais Adriana. “O policial ficou preso uma semana porque atirou no dedo mindinho de outro PM. Ele matou meu filho com um tiro no peito e não ficou preso uma hora.”

Policial militar foi sentenciado a júri popular

O juiz Antônio Fernandes de Oliveira sentenciou o sargento Lucimar Correia da Silva a julgamento pelo Tribunal do Júri pelo homicídio de Wallacy Maciel.

Apesar de considerar que o caso deve passar por um colegiado de jurados, Fernandes de Oliveira considerada que a justificativa do policial para a morte do jovem tem “relativa plausibilidade”, mas “carece de robustez suficiente para alicerçar a pretensão absolutória sumária”. O juiz retirou agravantes indicados pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, de que a vítima não tinha meios para se defender e que foi morta por motivo torpe, por justiçamento. 

Antes de ser morto, Wallacy rondava de carro a casa da namorada e foi considerado suspeito por um vizinho. Ele chegou a ser abordado horas antes e logo depois liberado, não estava armado segundo o policial que o abordou. Mais tarde, ele teria fugido de uma nova abordagem. Os policiais dessa outra viatura narram uma perseguição com tiros. Um pneu furado fez os policiais desta viatura cessarem a suposta perseguição. 
Mais tarde, o veículo de Wallacy se aproximou da viatura parada e estacionou. Quando ele descia do carro, foi morto com um tiro pelo então soldado Lucimar. O PM diz que atirou porque o jovem tirava uma arma da cintura. 

Ricardo Naves, advogado do sargento, recorreu à sentença e quer que seu cliente seja absolvido sem precisar passar por um júri. Ele defende que os policiais não alteraram a cena do crime, mas fizeram uma averiguação em busca de armas ou pessoas.