O professor José Hidasi morreu na manhã desta segunda-feira (19), em decorrência de uma parada cardiorespiratória. Ele estava internado desde o dia 15 deste mês no Hospital Monte Sinai, em Goiânia. Não haverá velório, conforme informou a família.José Hidasi nasceu em 1926 em Makó, no sul da Hungria. Formado na Escola Superior de História Natural e Geografia, ele lutou na Segunda Guerra Mundial pelo exército húngaro como segundo-tenente. Após o conflito, morou na Alemanha e na França, onde se formou em Ciências Naturais. Hidasi chegou ao Brasil em 1950, morou primeiro no Rio de Janeiro, onde trabalhou no Museu de História Natural. A chegada a Goiás ocorreu em 1952, quando veio trabalhar em Aragarças na Fundação Brasil Central, que integrava o projeto de ocupação da Amazônia, com a missão de catalogar os animais que pudesse encontrar.Um documentário sobre sua vida, chamado Cegonha Dourada, dirigido por Verônica Aldé, mostra que seu trabalho foi se consolidando aos poucos, e de formas imprevistas. Uma delas foi Hidasi desenvolver a própria técnica de taxidermia para preservar os animais coletados, classificando-os para estudos posteriores. Método que ele levou, por meio de cursos, à Austrália e a países da Europa e da África. Isso também possibilitou que José Hidasi fundasse o Museu de Ornitologia de Goiânia, que criou em sua própria casa, no Bairro de Campinas, em 1968.“Meu avô sempre viajou muito, em grandes expedições, e fez questão, em toda a sua vida, de incutir esse amor pela natureza nos filhos, nos netos, na família inteira”, testemunha Hillari Wanderley Hidasi, neta do pesquisador e que hoje atua como veterinária no Zoológico de Guarulhos, em São Paulo. “Tenho certeza de que fui por este caminho por influência dele. Meu avô nos fazia falar os nomes científicos dos animais, comprava aquele chocolate Surpresa, que vinham com imagens de bichos, para despertar essa relação afetiva”, afirma.Ao todo, Hidasi ajudou a criar ou organizar 14 museus em todo o Brasil, incluindo o Museu Goeldi, em Belém do Pará, referência mundial em estudos de aves. Ele também participou da criação do Parque Ecológico Educativo de Goiânia, onde depois seria instalado o zoológico da cidade. “Ele sempre nos levava lá, nos colocava em contato com os animais”, relembra a neta Hillari. Seus vínculos com o lugar nunca foram desfeitos. Dentro do zoológico, Hidasi criou um museu para expor os animais taxidermizados e que se tornou uma das atrações mais populares do lugar.“As pessoas precisam conhecer os animais para que possa defendê-los”, argumenta o cientista no documentário em sua homenagem. A ideia do Museu de Ornitologia de Goiânia observa essa lógica. É por isso que por décadas impressionou gerações de visitantes, principalmente alunos de escolas. O público tinha acesso a um acervo com 100 mil exemplares de aves, mamíferos, répteis, peixes, artrópodes e moluscos, coletados em todas as partes do mundo. Uma coleção que inclui animais raros ou mesmo já extintos, como a ave-do-paraíso, a cegonha bico-de-sapato, o quetzal e o kiwi.“Para cada uma eu faço uma etiqueta com o nome científico, o sexo, a procedência. São seus passaportes para a eternidade”, compara. Certa vez, Hidasi espalhou a lenda de que o tatu-canastra, espécie ameaçada de extinção, causava hanseníase. “Foi uma maneira de defender o animal”, justifica. O cientista teve 5 filhos, alguns deles seguindo carreiras ligadas à do pai. Depois de ficar viúvo, ele foi morar em uma casa de repouso. Parte de seu acervo foi doado à PUC Goiás, mas a outra continua no museu, hoje fechado. Um patrimônio inigualável que merece ser preservado.