Os goianos são os que mais atendem às orientações de isolamento social e restrição de mobilidade desde que os casos do novo coronavírus chegaram ao Brasil. Levantamento feito pelo POPULAR a partir dos dados de mapeamento por tecnologia de geolocalização fornecidos pela empresa In Loco mostra que o Estado está sempre entre os primeiros nos índices divulgados, com percentuais sempre superiores a 50%.

O respeito pela população às restrições determinadas pelo governo estadual e a adoção destas medidas logo no começo da epidemia são apontados como os principais fatores que levaram Goiás a ter um número de casos confirmados e de mortes abaixo de outros Estados. Para profissionais de saúde, o distanciamento social e as restrições de mobilidade são, atualmente, as únicas soluções para conter o avanço da contaminação da Covid-19.

Em Goiás, conforme aponta o In Loco, a taxa de isolamento girava em torno de 32,3% até o dia 12 de março, quando foram registrados os primeiros casos de Covid-19 no Estado. Depois, até o dia 20, esse índice ficou em 43% na média. Foi a partir do dia 21, um sábado, que o percentual nunca mais ficou abaixo de 50% e, dos 26 dias que se seguiram, em 11 o índice chegou a ficar acima de 60%.

Gradativamente, o índice de isolamento em Goiás tem caído. Na primeira semana completa após o decreto do governo estadual restringindo atividades de comércio e de serviço, a média ficou em 64%. Depois passou para 58,3% e 57,9% nas duas semanas seguintes. Na atual semana, com números até quarta-feira (15), a média está em 56,1%.

A semana que se encerra registrou dois dos três piores índices de isolamento em Goiás, sendo o pior na segunda-feira (13), com 50,2%. Na quarta-feira (15), a taxa ficou em 52,7%.

Mesmo assim, os goianos seguem como os que mais respeitam as medidas de restrição, considerando os números dos outros Estados. Na quarta, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima e Tocantins ficaram abaixo de 40%.

A taxa de isolamento é calculada pela In Loco diariamente a partir do monitoramento de dados captados de forma criptografada de mais de 60 milhões de dispositivos móveis. Estas informações têm sido usadas por pesquisadores para analisar a relação entre a restrição de mobilidade da população nas ruas e o avanço da contaminação pelo novo coronavírus.

Porcentual “utópico”

O governo estadual não fala em um percentual “ideal”, mas em São Paulo o governo de lá trabalha com uma meta de 70%, índice que foi alcançado apenas em um único dia (domingo, 22 de março) e apenas por oito Estados, incluindo Goiás. Entretanto, profissionais ouvidos pelo POPULAR dizem que esse índice é “utópico” e longe da realidade brasileira.

A médica infectologista Luciana Barreto diz que o percentual de 70% foi usado na China e na Itália e foi “importado”, mas acha que seu uso aqui é incorreto para apontar quanto da população precisa se isolar para que o vírus não circule a ponto de sobrecarregar o sistema de saúde. “Nós somos outra realidade, não existe um número nosso ainda”, comentou.

Para ela, os índices atuais conseguidos no Estado têm sido fundamentais no combate à Covid-19 e com a possível queda desta taxa após o relaxamento das restrições sinalizadas pelo governo estadual seria preciso um grande monitoramento para impedir que a situação saia do controle. “Baixando essa régua vai ter de ter um monitoramento muito bom”, explicou.

Luciana diz que esse acompanhamento poderia ser feito tanto por meio de recursos tecnológicos como por testagens amplas. Entretanto, tanto ela como outros profissionais ouvidos, ressaltam que testes em grandes quantdiades não estão entre as políticas adotadas pelos governos no Brasil, o que dificulta esse monitoramento.

Luciana destaca que a complexidade da situação dificulta também o acompanhamento da forma como a contaminação se espalha pelo Estado. “Nunca precisamos fazer isso antes.” Nem na época da epidemia do H1N1, que tinha uma taxa de letalidade mais baixa e outras estratégias que poderiam ser adotadas, como o uso do medicamento Tamiflu, por exemplo.

Infectologista e professora da Universidade Federald e Goiás (UFG), Mariana Turchi diz que é difícil medir o porcentual ideal de isolamento porque existem pressupostos importantes que ainda são desconhecidos e mutáveis.

Ela cita como um fator importante para se medir a taxa ideal a realização de mais testes do que estão sendo feitos e reforça a necessidade de mais pesquisas neste sentido para entender como o vírus se espalha e com qual velocidade. A professora, inclusive, busca recursos para ampliar um estudo que faz com cerca de 400 grávidas envolvendo o zika vírus para abordar a contaminação do Covid-19.

Estudo

Um estudo em desenvolvimento por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Butantã, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Brasília (UnB) deve apresentar na próxima semana qual seria o índice mínimo de isolamento para se enfrentar o novo coronavírus. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o infectologista Júlio Croda, que integra a pesquisa, aponta um mínimo de 40% de isolamento, mas diz que a curva tem sido achatada pelo fato de no Brasil termos conseguido manter o índice em 55%.