Ao mesmo tempo em que prefeituras do interior começam a tomar decisões mais duras para combater o avanço do novo coronavírus, autoridades municipais de saúde pública reclamam por mais orientações do governo estadual sobre como devem agir. Conforme o POPULAR apurou, as principais reclamações giram em torno de um plano de contingência que abranja diferentes cenários de epidemia, com recomendações distintas para cada realidade abordada e ampliação da discussão técnica por parte do Comitê de Operações de Emergências (COE) da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) criado para tratar da doença.

Há cobrança para que as medidas adotadas pelo Estado sejam previamente alinhadas com as autoridades municipais antes de serem anunciadas publicamente. Isso porque algumas delas são vistas como “exageradas” por municípios menores. Há também preocupação quando as decisões do executivo municipal entram em conflito com o estadual.

Um exemplo recente de decisões divergentes é o caso das feiras livres, que havia sido liberadas por meio de decreto na tarde desta terça-feira pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB) e vetadas por decreto do governador Ronaldo Caiado (DEM) horas depois. “Isso só deixa a situação mais confusa, porque o cidadão fica sem saber quem é que tem razão e questiona a decisão que fica valendo”, comentou o secretário de saúde de uma cidade com casos suspeitos e nenhum confirmado.

Decisões

A superintendente de Vigilância de Saúde da SES-GO e membro do COE, Flúvia Amorim, explica que as secretarias municipais de saúde e prefeituras têm autonomia para tomarem as decisões que acharem necessárias para lidar com o coronavírus em suas respectivas cidades, respeitando os decretos estaduais com determinações que precisam ser seguidas. Já as recomendações feitas pelo COE e pela SES não são obrigatórias. “Os decretos são para o Estado inteiro, mas as recomendações cabem a cada município adotar ou não. Eles têm autonomia, dos 246 municípios, 243 têm gestão plena”, explica.

Fluvia explica que a forma como o coronavírus avança é muito dinâmica e exige que as autoridades públicas tomem decisões todos os dias, tendo muitas vezes que mudar algo que foi adotado anteriormente. Ela lembra o caso da epidemia de H1N1 no final da década passada, que também exigiu muito do poder público e dos cidadãos, mas diz que o caso atual é ainda mais grave. “Estamos em um processo de aprendizado.”

Decretos municipais

Pelo menos duas prefeituras decretaram nesta semana situação de emergência mesmo sem ter nenhum caso confirmado ou suspeito de coronavírus: Itumbiara e Joviânia. De acordo com as secretarias municipais de saúde, foram “medidas preventivas”, pois a previsão é que a doença chegue em breve nestas cidades. O discurso é semelhante ao do governador, que justifica a adoção de medidas consideradas mais drásticas o quanto antes como forma de evitar o alastramento da doença.

“É uma medida de precaução, antes que o mal cresça”, comentou a titular da saúde em Itumbiara, Maricel Abdala. Ela diz que a Prefeitura segue protocolo do Ministério da Saúde e tem tido um diálogo com a SES. O decreto municipal publicado nesta terça-feira proíbe realização de eventos, suspende as aulas na cidade e restringe o horário de funcionário dos órgãos municipais.

O documento é similar ao adotado pela prefeitura de Rio Verde, onde já foram confirmados três casos do coronavírus. O secretário municipal de saúde, Eduardo Ribeiro, diz que a população tem colaborado com as medidas adotadas pelo poder público e que o monitoramento de todos os casos suspeitos que apareceram estão sendo bem sucedidos. “Existe uma participação muito bacana. As pessoas estão entendendo”, disse.

 

Hospitais irão adotar nota técnica da SES

Grande parte dos hospitais estaduais de Goiás confirmam que seguirão a recomendação da nota técnica emitida nesta terça-feira (17) pela Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) que determina que seja reprogramado em até 50% os procedimentos cirúrgicos eletivos, com exceção daqueles relacionados à oncologia, cardiologia e neurocirurgia, e a realização imediata das cirurgias em todos os pacientes com indicação cirúrgica, conforme a programação do hospital. O intuito é otimizar o uso de insumos e disponibilizar leitos para possíveis pacientes com o novo coronavírus (Covid-19).
 
A única unidade que disse que não suspenderá procedimentos cirúrgicos, eletivos ou não, foi o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). De acordo com a assessoria do hospital, “todos continuam com suas rotinas inalteradas. Estamos monitorando a situação diariamente e se em algum momento vejamos a necessidade serão suspensas as eletivas”. O Hugo informou que “as cirurgias dos pacientes internados estão sendo programadas de acordo com a condição clínica de cada paciente, avaliado por nossos especialistas”.

O Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) disse que “devido ao seu perfil de urgência e emergência, média e alta complexidade, os procedimentos cirúrgicos são realizados de forma contínua”.

O Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG) informou que nesta terça-feira tinha 35 pacientes aguardando procedimento cirúrgico eletivo e 18 do componente de urgência e que cumprindo a determinação da nota técnica “irá priorizar o atendimento desses pacientes já internados” e que a previsão é que os procedimentos sejam feitos até quinta-feira (19) ou assim que os pacientes possuírem condições clínicas.

No Hospital Estadual De Jaraguá Sandino de Amorim (Heja) e Hospital Estadual Ernestina Lopes Jaime (HEELJ), em Pirenópolis, que são geridos pela mesma organização social (OS), estão sendo programadas “a realização de todas as cirurgias dos pacientes internados para no máximo as próximas 48 horas”.

O Hospital Estadual de Urgências de Anápolis,Dr. Henrique Santillo (Huana) informou que “está atendendo e se adequando as notas técnicas” da SES. O Hospital Estadual de Urgências de Trindade (Hutrin) informou que não tem pacientes aguardando cirurgias na unidade de saúde.

A reportagem entrou em contato com o Hospital de Doenças de Tropicais (HDT), Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia (Huapa) e Hospital de Urgência da Região Sudoeste (Hurso), porém até o fechamento desta reportagem eles não haviam informado se irão adotar a nota técnica. (Mariana Carneiro)