O início do outono, no final de março traz, anualmente, uma preocupação a mais para bebês e crianças. É nesta época que começa a circular, no Centro-Oeste do Brasil, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), que tem como uma das principais consequências a bronquiolite, uma infecção dos bronquíolos, ramificação dos brônquios, responsáveis por levar oxigênio aos pulmões. A doença, que é uma das principais causas de re-hospitalizações frequentes é mais perigosa para bebês prematuros ou nascidos com cardiopatias congênitas, podendo levar, inclusive à morte.

Apenas em 2018, último levantamento atualizado pelo Ministério da Saúde (MS), mais de 10 mil prematuros nasceram em Goiás. Destes, mais de 500 antes de a gestação completar 28 semanas. Estes são os mais suscetíveis e os principais sintomas são tosse, cansaço, dificuldade para amamentar e também para respirar.

O contágio do VSR é pelo ar ou por objetos e superfícies que possam estar contaminadas como de brinquedos ou maçanetas de portas. Os problemas respiratórios causados pelo vírus podem durar longos períodos, até 10 ou 12 anos de idade. Diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri explica que a bronquiolite é a mais comum, mas o vírus também pode causar pneumonia, otite e outros quadros respiratórios. Em médio e longo prazo, esses bebês que foram infectados podem, inclusive, se tornarem asmáticos. Ressalta, entretanto, que a asma está associada a múltiplos fatores.

Apesar de não haver uma vacina para prevenir a contaminação, nem um tratamento específico, existe um tipo de imunização passiva ofertada, gratuitamente, para as crianças do grupo de risco. A Palivizumabe é garantida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e planos privados de seguro-saúde para crianças com menos de 1 ano de idade e que nasceram com idade gestacional menor ou igual a 28 semanas e 6 dias, ou até os 2 anos com doença pulmonar crônica da prematuridade ou doença cardíaca congênita. “O anticorpo é artificial, dura um período e é eliminado do corpo, deixando a criança novamente suscetível. Por este motivo, é aplicada nos períodos de circulação do vírus”, explica Kfouri.

Professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Fernanda Peixoto afirma que 100% das crianças vão se infectar pelo vírus nos primeiros dois anos de idade. No geral, entre 40% e 50%, o vírus vai descer para pulmão, fazendo a infecção que a gente chama de bronquiolite. O temor, segundo ela, é uma coinfecção de VSR e do novo coronavírus. “Imagina uma criança com o VSR que se contamina com o novo coronavírus. Se esta criança tem outros fatores de risco, isso vai levá-la a um risco de complicação ainda maior. Precisamos entender que as outras doenças não vão parar para a Covid-19 acontecer”, completa Fernanda.

Amamentação

A pediatra explica que para bebês prematuros que ficaram na UTI, o ideal é que não receber visitas. Diz ainda que, mesmo para as mães que testaram positivo para a Covid-19, a indicação é manter a amamentação, tomando cuidados de higiene e utilizando máscara. “O aleitamento materno também é fundamental para a proteção desta criança porque a mãe gera anticorpos o tempo todo. Vacinação, higienização, estimulação do aleitamento, boa alimentação, isso não pode mudar. Quando eu cuido da criança e evito doenças que podem levar crianças pra UTIs, eu também colaboro com o alívio do sistema de saúde. E repito: a melhor forma de proteger o bebê é amamentar.”

Internação

Sophie de Albuquerque, hoje com 2 anos e 4 meses, foi internada por bronquiolite em 2018 quando ainda tinha 5 meses e meio. Nascida de uma gravidez de 41 semanas, ela foi internada logo na primeira semana em que estava na creche. A mãe, Priscila de Albuquerque, de 36 anos, é analista de licitações e conta que a decisão foi tomada logo no fim da licença maternidade. Por dois dias ela apresentou tosse seca, e em seguida, começou a ter dificuldade para respirar.

“Ligaram da creche e levamos a Sophie direto na emergência. O médico pediu um exame de raios X, descartou pneumonia e diagnosticou a bronquiolite. Não tinha ouvido falar da doença e busquei informações na internet logo após o diagnóstico. Graças a Deus o caso dela não foi tão grave, após 24 horas de observação fomos para casa fazer todo o tratamento. Ainda assim, foi um tratamento cansativo e durante sete dias administramos muitas medicações, com intervalos de 4 horas, no máximo”, recorda.