O Hospital de Campanha de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, será aberto na próxima segunda-feira (18) de forma emergencial. A antecipação ocorreu depois que o governado do DF, Ibaneis Rocha (MDB), afirmou que publicaria um decreto para proibir hospitais públicos da capital federal de atender pacientes goianos com o novo coronavírus.

Na noite desta quinta-feira (14), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), fez uma vistoria técnica na unidade, que contará com 72 leitos, sendo 20 de UTI. “No momento que houve esse corte de acesso aos moradores do Entorno eu cancelei 100% a minha agenda até amanhã. A minha prioridade agora é dar condições para a população ser atendida. Como eu ia deixar 1,2 milhão de pessoas desassistidas?", questionou, se referindo ao número de habitantes da região, a segunda mais populosa do Estado e que até então não conta com leitos de terapia intensiva. Os casos graves são encaminhados para Brasília ou Goiânia.

Caiado também afirmou que, para agilizar o atendimento, a unidade não contará com inauguração. "A organização social e os médicos já estão aqui comigo e nesta madrugada vão chegar 11 respiradores que foram consertados pela Universidade Federal de Goiás. Vamos fazer a ocupação imediata, fazendo com que o hospital funcione de forma urgente”, disse o democrata.

Sobre a ameaça de Ibaneis Rocha, Caiado destacou que o Sistema Único de Saúde (SUS) é universal. Em relação ao atendimento que deverá ser prestado no HCamp de Luziânia, o goverandor goiano disse ainda que todo cidadão, seja ele das outras cidades do Entorno ou até mesmo de Brasília, poderá ser atendido na unidade. "Somos solidários, não fazemos discriminação", alfinetou.

O Hospital de Luziânia foi construído pela prefeitura do município e custou R$ 8 milhões. Ele estava de portas fechadas quando entrou no radar do projeto do governo de regionalização da Saúde e, recentemente, foi estadualizado. Será usado de forma emergencial para o combate à pandemia, mas após 180 dias será transformado em hospital regional e maternidade.

De acordo com o secretário de Estado da Saúde de Goiás, Ismael Alexandrino, que acompanhou a vistoria, 12 respiradores já haviam sido adquiridos para o hospital. Com o reforço dos 11 equipamentos recuperados, passará a contar com 23. “Serão 20 para uso, 1 para a sala vermelha e 2 de reserva.” No entanto, ao fim da pandemia,  a unidade contará com 10 UTIs.

A gestão ficará a cargo da organização social IMED, a mesma que administra o Hospital de Urgências de Trindade (Hutrin). Para ser equipado, recebeu mais de R$ 4 milhões em emendas parlamentares destinadas por deputados goianos.  A unidade deverá ter cerca de 300 profissionais.

"Calor da situação"

Sobre a postura do governador do DF, o secretário de Goiás contemporizou. "Talvez ele tanha dito no calor da situação, porque a gente sabe, como gestor público, que o SUS é universal. A pandemia acaba exacerbando os ânimos de todo mundo, sobretudo das autoridades porque a pressão é muito grande."

Alexandrino destacou que muitas pessoas que moram no Entorno trabalham, convivem e pagam impostos no Distrito Federal. Segundo ele, muitos dos pacientes infectados por coronavírus na região podem inclusive ter pegado a Covid-19 no DF. "A linha que separa os dois Estados é meramente no mapa, ela não separa a população, que continua convivendo. São populações coirmãs", afirmou.

No entanto, o titular da SES diz entender que é preciso regular o acesso às unidades de atendimento. "Por isso há algum tempo eu vinha já conversando com o secretário de Saúde do DF, Francisco Araújo, e havia proposto a ele que fizéssemos um termo de cooperação interfederativo para regular esse acesso", argumentou.

O termo de cooperação técnica prevê que o habitante de Goiás contacte o complexo regulador estadual, que por sua vez entra em contato com o sistema regulador distrital, com contrapartida financeira baseada na tabela Sistema Único de Saúde. O documento está pronto, mas ainda não foi assinado.

Recuo
No fim da tarde, após o impasse com Goiás, o governador do DF recuou e suspendeu a publicação do decreto com a proibição. “Vamos encaminhar para que a gente melhore a nossa estrutura, inclusive para dar conta de atender as necessidades do Entorno até que o Hospital de Campanha de Águas Lindas fique pronto”, afirmou após reunião com o Ministério da Saúde.

Construído pelo governo federal, o HCamp de Águas Lindas já teve duas previsões de entrega adiadas. A nova data de repasse da obra ao governo de Goiás está marcada para o próximo dia 21. O hospital temporário foi projetado com capacidade para até 200 leitos. No entanto, ainda não possui respiradores, o que impossibilita a abertura com UTIs.

Nesta sexta-feira, o secretário Ismael Alexandrino se reunirá com representantes do Ministério da Saúde para tratar do repasse do hospital. Na semana passado, mesmo sem a entrega oficial, o MS já havia autorizado o governo de Goiás a iniciar as tratativas para a contratação de pessoas e compra de equipamentos, procedimentos necessários para colocar o HCamp de Águas Lindas em funcionamento em um prazo de 15 dias.