Foi no Grupo de Terapia Sexual para Mulheres Trans que a secretária Lívia Araújo Costa, de 25 anos, entendeu que os medos e as angústias que vinha enfrentando eram os mesmos de qualquer mulher, independentemente da orientação sexual. O programa, idealizado pelo Núcleo de Orientação Interdisciplinar em Sexualidade (Nois), do Serviço de Identidade de Gênero, Transexualidade e Intersexualidade (SIGTI) do Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), unidade da Secretaria Estadual de Saúde (SES), já atendeu 36 grupos de mulheres e 14 de homens cisgênero* desde 2001. Em 2020 ganhou amplitude ao receber pacientes com outras identidades de gênero. “Os encontros proporcionam reflexão não somente em relação aos nossos corpos, à nossa sexualidade, mas também à forma como nos relacionamos com os outros”, afirma Lívia, inscrita no Ambulatório de Intersexualidade há quatro anos.

Psicóloga do serviço, Flávia Christine Bezerra do Nascimento teve a ideia de criar grupos específicos de pessoas transgêneros durante as sessões individuais de terapia. Como o Nois já atendia grupos de homens e mulheres cis com disfunção sexual, ela percebeu que as demandas dos trans* eram as mesmas, como o desejo reduzido, a falta de orgasmo, o medo de se soltar na relação e a insegurança sobre como será após a cirurgia de redesignação. “A proposta é trabalhar com a consciência corporal para não ter tensão no relacionamento sexual”, explica. O trabalho de autoconhecimento, entretanto, trouxe outros resultados.

“A parte que mais gostei foi sobre amor próprio. Ao viver muito a vida de outras pessoas, esquecemos da gente”, diz o repositor Adriano Alves da Costa, homem trans de Mineiros, no Sudoeste de Goiás. A cada 15 dias, no período das dez sessões previstas, ele venceu os mais de 400 km que separam sua cidade de Goiânia para participar do grupo. Aos 44 anos e já livre das angústias inerentes à percepção de que havia nascido num corpo errado, Adriano cuida mais da saúde, física e emocional, e se livrou de relacionamentos abusivos. “A mudança foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, enfatiza.

Perto dali, em Aparecida do Rio Doce, a merendeira Maria Eduarda Barros e Brito, de 27 anos, tem sensação idêntica. “Eu era a única menina trans da cidade. Tinha vergonha de sair, andava de cabeça baixa. Quando passei a me conhecer, minha autoestima foi lá para cima. Estou começando uma carreira de cantora”, avisa. Duda, como é conhecida entre os amigos, diz que não estaria viva se não fosse o projeto do HGG. “Às vezes achamos que o preconceito vem dos outros, mas deles vem a ignorância. De nós, vem a não aceitação. Hoje estou mais madura, sem medo de correr atrás dos meus objetivos. Estou muito mais feliz.”

Ginecologista e sexóloga, Sandra Portella, que coordena o Nois feminino, comemora a ideia de ampliar a terapia sexual para homens e mulheres trans. “Estamos vendo muitas mudanças. Eles relatam a importância de ver a sexualidade de uma forma diferente. Às vezes focam na mudança corporal e acham que quando fizerem a cirurgia de mudança de sexo tudo estará resolvido, mas não é assim. Se há algum processo mais profundo da questão da sexualidade que veio da educação, da formação dada pelos pais, são pontas não trabalhadas”, afirma.

“A percepção de estar num corpo diferente e a rejeição da família causam muita mágoa. Quando vamos trabalhando isso na terapia, mostramos a eles as dificuldades que os pais têm de aceitar por estarem em outro contexto, pressionados por uma cultura diferente.” Sandra Portella reforça que a terapia tem mudado o pensamento, mas não somente no aspecto sexual. “Pacientes que não acreditavam ser capazes, começaram a fazer um curso superior. Outros finalizaram relacionamentos abusivos. As coisas acontecem num mundo maior, não é somente a sexualidade.”

 

Serviço é ampliado para novos pacientes 

Criado em 2001, o Núcleo de Orientação Interdisciplinar em Sexualidade (Nois), voltado para homens cis, foi o embrião do hoje SIGTI, serviço que conta com equipe multidisciplinar reunindo ginecologista, urologista, psicólogo, psiquiatra, cirurgião plástico, fonoaudiólogo, endocrinologista, entre outros. Ele nasceu como Ambulatório de Transexualidade para atender pessoas trans e travestis*. Mas em agosto de 2019 passou a acolher também pacientes de intersexualidade* e de alterações de gênero. “Como os não binários, que podem ter alterações em sua sexualidade. Pessoas que possuem órgãos sexuais que, de alguma forma, estão comprometidos pela identidade de gênero”, explica sua coordenadora, ginecologista e sexóloga Margareth Rocha Peixoto Giglio.
 
O serviço conta hoje com 350 pacientes inscritos, quase a mesma proporção de mulheres e homens. Já foram realizadas quatro histerectomias (retirada do útero) transexuais e outros 11 pacientes aguardam o procedimento; e dez mastectomias (retirada de mamas) e colocação de próteses. Seis mulheres trans estão preparadas para a cirurgia de redesignação sexual feminina, ainda não realizada por causa da pandemia da Covid-19 que obrigou a suspensão de todas as cirurgias eletivas.

Três grupos de homens e mulheres trans já passaram pelos encontros coletivos para discutir sexualidade. Na próxima quarta-feira (21), um novo grupo de mulheres trans será aberto. “Todos chegam com a expressão corporal reprimida e depois se empoderam. É um retorno gratificante. Percebem que são muitas as possibilidades de permitir o ato sexual saudável e dar fim às relações abusivas”, afirma Flávia Christine. A psicóloga acredita que não exista, no Brasil, um trabalho semelhante de terapia sexual para esta parcela da população.

Margareth Giglio assumiu o projeto iniciado no HGG pela médica Mariluza Terra Silveira, que morreu em 2019 e também foi responsável pelo Projeto Transexualidade (Projeto TX), no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás. Para ela, a terapia em grupo melhora a resposta sexual do indivíduo, trans ou não. “As pessoas trans acreditam que após o processo de transformação tudo vai melhorar. Elas estão à procura de um modelo sociocultural de sexualidade que é baseado no pênis e na vagina, mas os anos têm mostrado que este é um plano falido. No grupo elas percebem que somente a penetração não resolve o problema.”

A médica, que é doutora em Ciências da Saúde, afirma que durante o processo de terapia os integrantes do grupo percebem que existe uma sexualidade que pode ser satisfatória e chegam a desistir das cirurgias. “A maioria dos trans homens, enquanto não tiram a mama, não têm relacionamento sexual com a parceira porque o contato corporal desperta uma completa agonia. O programa mostra que a sexualidade pode ser muito satisfatória e não depende somente de um pênis ou de uma vagina.” 

Pesquisa

Conforme Margareth Giglio, trabalho recente da psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo revela que 40% das mulheres não têm prazer na relação sexual. “No início tem o namoro, a sedução e o sexo é muito bom. Depois, o homem, que é focado na genitália, domina a relação. A mulher é mais sensual, precisa do beijo e do namoro e com o tempo isso acaba. E a tendência do homem é achar que o problema é dela, mas a sexualidade satisfatória é problema do casal. E isso independe da identidade de gênero.”


ENTENDA*

CISGÊNERO – Nasce com o sexo biológico feminino ou masculino e a identidade de gênero está de acordo com o que foi atribuído desde o nascimento. Nasci mulher, me sinto mulher. Nasci homem, me sinto homem.

TRANSGÊNERO MULHER – Nasce com o corpo biológico masculino, mas a identidade de gênero é feminina. Sempre se vê como mulher, embora tenha órgão sexual masculino.    

TRANSGÊNERO HOMEM – Nasce com o corpo biológico feminino, mas a identidade de gênero é masculina. Sempre se vê como homem, embora tenha órgão sexual feminino.  

TRAVESTIS – É uma pessoa que foi designada homem no seu nascimento, mas se entende como uma figura feminina.

INTERSEXUALIDADE – Crianças que nascem com alguma alteração na concordância do sexo, com genitália ambígua.

NÃO BINÁRIOS – Pessoas que transitam entre os dois gêneros, sem necessariamente estar em um deles.