Longe de casa, vivendo uma situação incomum, goianos espalhados pela Europa e Oceania falam da expectativa de um futuro pós-pandemia do novo coronavírus. Como no Brasil há medo, incertezas e desejos de que a vida volte a ser como antes, embora sintam que ainda, e não se sabe por quanto tempo, o caminhar diário num clima de normalidade vai depender da curva epidemiológica.

Os cenários são idênticos ao que temos no Brasil com uma diferença substancial. Lá fora o isolamento social exigido foi obedecido sem grandes questionamentos não somente pelas altas multas impostas, mas pela certeza de que há um inimigo em potencial que vem dizimando vidas de uma forma assustadora. E, talvez por isso, pelo confinamento ter sido tão duro e tão real, são muitas as reflexões sobre o que será um “novo normal”.

 

Pós-pandemia tem conquistas e incertezas

Desde outubro de 2019 o artista plástico Juliano Moraes, de 38 anos, professor da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás está na cidade do Porto, em Portugal. Ele foi para a Europa fazer seu doutorado em Artes Plásticas, mas este ano as aulas foram bruscamente interrompidas. “Estou de quarentena há dois meses. No dia 10 de março tinha acabado de chegar de uma exposição em Paris e avisaram na universidade que seria a última aula do ano. Sabíamos das restrições na Itália, mas aí a ficha caiu.”

Juliano conta que em Portugal ninguém discutiu a medida de isolamento social. “Ao contrário, alguns criticaram o governo por ter demorado a entrar na quarentena.” De forma gradativa, o país vai retomando as atividades numa “flexibilização experimental”, como Juliano menciona porque tudo vai depender dos registros da Covid-19. A partir de segunda-feira (18), bares e restaurantes serão reabertos, mas somente para grupos familiares, sem possibilidade de confraternização de amigos. Mesmo assim, com mesas distantes uma das outras.

A expectativa é que em junho as viagens internas sejam liberadas na Europa em condições especiais. “Aqui não existe a discussão de existência ou não do vírus, mas como enfrentar agora e resolver no futuro.” Juliano Moraes, com um grupo de colegas, preparava uma exposição que agora será exibida somente pela internet. “Nossa expectativa é que possamos abri-la fisicamente em setembro, numa galeria, mas não sabemos como será a relação do artista com o público de agora em diante. Tudo isso mexeu completamente com nossa cabeça, é um desafio. É um sacrifício agora, mas não podemos permitir que seja um novo normal.”


Nova vida é de controle rígido na Alemanha

Há quatro anos vivendo em Berlim, Alemanha, com a família, a advogada Tainá Campos não achou “sufocante” o isolamento social como em outras partes da Europa, embora houvesse um senso comum de que era preciso se precaver, tanto em relação ao distanciamento quanto ao uso de máscaras. “Este foi um tema muito debatido aqui porque, inicialmente, as autoridades diziam que as máscaras não resolveriam, mas agora há cobrança do uso em supermercados”, relata.

Tainá conta que nunca deixou de sair com o casal de filhos, de 7 e 9 anos, para passeios por Berlim. “De uma maneira geral as pessoas estavam nas ruas, nada muito cheio. O estranhamento mesmo foi nos pontos turísticos, completamente vazios, como o Portão de Brandemburgo, um dos locais mais visitados de Berlim. Serviços não essenciais e escolas foram fechados, mas no início deste mês as aulas foram retomadas por turmas e em dias alternados. “Já nos avisaram que após o verão será do mesmo jeito. As salas terão grupos menores e professores em situação de risco foram afastados. Recebemos cinco páginas com orientações de higiene que as crianças terão de seguir. Se isso não acontecer, não poderão frequentar a escola”, detalha Tainá. 

Aos poucos Berlim tenta retomar a vida normal. Nos parques, que ficam lotados na primavera e no verão, é exigido o distanciamento entre as pessoas. Na última quinta-feira (14), Tainá levou os filhos para cortar os cabelos e percebeu o novo normal. “Tive de preencher um formulário com informações do dia e horário do atendimento para que eles possam rastrear caso alguém tenha a doença. Tudo o que está sendo retomado tem uma série de regras. As autoridades querem reabrir tudo, mas esperam que as pessoas façam a parte delas”, explica.


Retomada é lenta na Itália, mas já permite encontros

Há mais de seis anos a empresária goiana Pollyana Pallazo, de 45 anos, vive na província de Pavia, região da Lombardia, na Itália. Morando muito perto de Milão, um dos locais mais atingidos pela pandemia no país, ela conta que será difícil esquecer o insistente barulho das sirenes. “O hospital da minha cidade virou referência para a Covid-19 e à medida que o tempo foi passando começamos a ver casos muito próximos.” Desde o dia 8 de março ela está em casa, sem pegar o carro. “Foi muito desafiador porque não estou acostumada a ficar em casa. Fiquei deprimida no início, mas quando percebi que iria prolongar, criei uma rotina.”

Na Itália Pollyana trabalha com processos de cidadania para brasileiros e mora sozinha. Os três filhos, com idades entre 17 e 21 anos, vivem na Inglaterra. “Dou assistência aos meus clientes e alguns estavam em outras localidades. Com as medidas restritivas, era preciso um documento do governo para se deslocar e minha atividade não é essencial. Comecei a fazer tudo pela internet.” Hoje, sem contar as duas semanas iniciais quando o governo relutou em aderir à quarentena, ela considera que a Itália se uniu para combater o coronavírus e está colhendo os resultados.

Há uma reabertura gradativa das atividades. Desde o dia 4 os italianos podem sair para corridas e caminhadas em suas comunidades e visitar parentes. A recomendação é que as crianças fiquem pouco tempo com os avós, mas usando máscaras. Alguns bares e restaurantes reabriram somente com atendimento de balcão. Está previsto para segunda-feira (18) o retorno da construção civil e do comércio varejista, “mas tudo com muita regra”. Espera-se que a partir do dia 1º de junho atividades como salões de beleza e de estética voltem a funcionar, “dependendo da curva epidemiológica”, segundo Pollyana.

 

Atividades voltam, mas distanciamento é regra

A historiadora goianiense Mariah Freitas Monteiro, de 27 anos, está em Eichstätt, uma cidade de 15 mil habitantes no sul da Alemanha, entre Nuremberg e Munique. Ela aportou ali em outubro do ano passado para fazer seu doutorado na universidade local. “Aqui a quarentena chegou de forma rígida. Fomos pegos de surpresa. A universidade adiou o início do semestre e passou a ministrar cursos on-line. Vários eventos culturais para este ano foram cancelados, entre eles a tradicional Oktoberfest. A Alemanha é um dos países com menor número de mortes e isso gera confiança na população sobre as medidas tomadas.”

Mariah percebeu uma grande frustração entre os alemães quando foi anunciado o isolamento social. “Após o inverno as pessoas ficam esperando a chegada da primavera para ir aos parques e tomar cerveja nos bares. É quase uma celebração.” Desde o último dia 4, o governo vem afrouxando a quarentena, mas de forma gradual. Lojas de alguns segmentos foram reabertas, assim como poucas escolas. “Os alunos estão sendo divididos em grupos para tomar o ônibus escolar”.

Há duas semanas o uso de máscara é obrigatório na região onde vive Mariah. Como no Brasil o acessório desapareceu das lojas obrigando mãos habilidosas a suprir o mercado. “Aqui não é comum este comércio informal. Foi interessante ver as máscaras à venda em grupos de mensagens.” A historiadora afirma que o governo anuncia somente para outubro uma abertura maior das atividades, “mas tudo vai depender do comportamento do vírus”.

Comerciante vive mudança brusca após retornar do Brasil

A comerciante Zinalda Bahia Pelles vive na Itália há mais de 20 anos, numa província perto de Firenze, na Toscana. Depois de passar três meses no Brasil, coincidindo com o inverno europeu, ela chegou em casa no dia 27 de fevereiro. “O lockdown começou em todo o país no dia 9 de março, sair de casa só por extrema necessidade, supermercado apenas uma vez por semana. As multas oscilavam de 300 a 5 mil euros.” Após dois meses, no último dia 4, teve início a reabertura gradativa. A partir da próxima segunda-feira (18), novas atividades serão retomadas. “As medidas foram necessárias e benéficas.”

Zinalda, que é autônoma, sentiu o peso financeiro do isolamento, mas acha que o governo agiu corretamente. O marido Tiziano, com quem está desde 2001, é aposentado e voltaria ao mercado de trabalho em abril. Os planos foram adiados. “Vamos ver como vai ficar a partir da próxima semana”. Ela explica que agora, embora com limitações, já podem sair de casa para caminhadas e passeios de bicicleta, mas somente dentro da província, sempre com máscaras e obedecendo o distanciamento social. Para as compras de supermercado o governo também está exigindo o uso de luvas.


Cidade na Espanha parou antes de ordem do governo

Residente em Bilbao no país basco, norte da Espanha, desde 2012, Gabriela Lobo, de 33 anos, começou a viver há cerca de 15 dias o fim da quarentena em sua região. Ela está aliviada. Ao lado do marido Azier e da filha Luiza, de 5, Gabriela passou dois meses trancada num apartamento de 80 m². “A minha cidade parou sem lei, por ver o número de casos na Itália e como a Europa estava afetada. O último dia que trabalhei foi 13 de março, dois dias depois houve o decreto oficial”, conta ela, que gerencia uma loja de roupas. “Foi muito duro, com restrições. Dias difíceis, muita tristeza.”

A primeira medida de retomada das atividades foi a saída das crianças uma hora por dia, a chamada fase zero. Mesmo assim, os pequenos precisam estar acompanhados de um dos pais, não brincar com os amigos e não se distanciar de casa mais do que 1 quilômetro. Adultos também puderam sair para se exercitarem ao ar livre dentro do município onde residem. “Isso porque o número de casos começou a cair e há UTIs disponíveis.” Há uma semana Bilbao entrou na fase 1, com reabertura de alguns estabelecimentos comerciais. Bares somente aqueles com mesas nas calçadas, uma situação ainda não autorizada em cidades maiores como Madri e Barcelona.

Rejeição
Duas situações envolvendo os mesmos profissionais impressionaram Gabriela: todos os dias, à noite, há homenagem a partir das residências para aqueles que estão na linha de frente nos hospitais; por outro lado, é grande a rejeição a essas mesmas pessoas em suas comunidades. “Eles têm seus carros riscados e mensagens nas portas de casa pedindo para se mudarem enquanto continuar a pandemia. Isso me doeu muito porque são pessoas que estão dando tudo para salvar nossas vidas”, lamenta.


Viagem é adiada por causa do desemprego

Ana Ângela Gouvea de Rezende, de 35 anos, foi para a Austrália em outubro de 2017. Viveu dois anos em Sidney e decidiu migrar em dezembro do ano passado para Gold Coast, cidade litorânea a 94 quilômetros de Brisbane, capital do Estado de Queensland. Foi nesta localidade turística, na costa leste do país, que ela vivenciou o drama da pandemia. Trabalhando num pub num complexo hoteleiro, perdeu a vaga, dificultando sua permanência na cidade.

“Desde janeiro começamos a sentir o declínio da demanda turística porque a Austrália está muito perto da China. Um amigo do meu namorado aceitou nos receber em seu sítio, na fronteira de Queensland e estamos aqui desde que começou o lockdown”, conta ela. Ana Ângela, que trabalhava na Caixa Econômica Federal, reuniu suas economias para se mudar para a Austrália onde tem estudado e trabalhado. “No ano passado trabalhei muito aqui porque pretendia fazer um mochilão pela Ásia, mas agora tudo mudou. Estou usando essas economias”, relata.

Ana Ângela diz que não foi agradável ouvir do primeiro-ministro Scott Morrison um “go home” (vá para casa) se dirigindo à comunidade estrangeira quando a pandemia chegou à Austrália. “Eles cuidam muito bem do seu povo e se viam sem condições de ajudar outras pessoas que estão em situação de vulnerabilidade, como estudantes estrangeiros.” Com pouco mais de 6 mil casos de Covid-19 registrados e em torno de cem mortos, o país começa a sair do lockdown, com restrições.