O designer gráfico Luciano Drehmer, de 36 anos, que saiu de Goiânia para viver na China, passou por um rígido período de quarentena recentemente e descreve toda a experiência que viveu. Ao retornar ao país asiático, após viagens pela Europa e pela Tailândia, mesmo sem apresentar sintomas do novo coronavírus (Covid-19), foi colocado em isolamento pelo governo, como uma medida de precaução.

Quando concedeu entrevista ao POPULAR, o goiano estava em um quarto de hotel. Drehmer relatou a saga para chegar em Shenzhen, município chinês, e os 14 dias de confinamento, além dos próximos passos pelos quais passaria após a saída.

Luciano foi liberado nesta sexta-feira (3) da quarentena. Para isso, o designer aguardou o resultado do último teste que fez para a Covid-19, que deu negativo. A partir de agora ele está apto a partir para transitar pelo país. No entanto, mesmo ao ser liberado, o goiano destaca que existem exigências a serem seguidas. “Aqui, ao ser liberada a pessoa recebe um certificado comprovando que passou pelo isolamento e não está infectada. As autoridades podem me pedir para verificar este papel a qualquer momento enquanto estiver na rua. Por isso preciso estar sempre com este documento em mãos”, explica. Inclusive, logo nas primeiras horas ao ar livre, o designer já teve de mostrar a documentação.

O local onde planeja viver possui quase 13 milhões de habitantes, e Luciano conta que todos conhecem a metrópole lá como Vale do Silício da China. O município fica a apenas duas horas de trem-bala de Wuhan, o primeiro epicentro da crise do novo coronavírus. Ele, inclusive, tem amigos que estavam na cidade durante o surto, mas nenhum deles apresentou sintomas da doença.

Por toda a parte, as regras seguem rígidas, conforme relata Luciano, mesmo com a redução no número de casos da doença. “Vimos de perto como este vírus é poderoso e letal. Os cuidados aqui são enormes e por isso não acredito, como alguns dizem, que teremos uma segunda onda da doença, justamente pelos cuidados e medidas de segurança que o governo chinês está adotando”, acredita. A ideia é que ao retornar para “vida normal”, Luciano siga tocando a empresa que abriu recentemente com o sócio chinês. “Volto já a trabalhar e tenho de visitar algumas indústrias”, afirma.

Confinamento

Antes de chegar a este momento, o goiano ficou confinado em um quarto de hotel por 14 dias. E para entrar no país, ele conta que não foi uma missão simples. Principalmente pela burocracia exigida na China com quem vem de fora e precisa passar pela fronteira. Ele lembra que estava em Bangkok quando a epidemia atingiu o pico, assim, muitos turistas chineses começaram a chegar na Tailândia. Luciano então optou em ir para Portugal aguardar na Europa que as coisas se acalmassem, onde ficou por cerca de dois meses. Sem saber para que lado correr, ele escolheu o território chinês, já que na Europa os casos estavam aumentando e em Goiânia, onde a família dele vive, o risco também era grande. “A decisão também foi tomada me baseando nos relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), e em relatos de amigos meus chineses que avisaram que por lá a situação já estava bem mais controlada”.

“Fui para Hong Kong e de lá peguei um táxi rumo a Shenzhen, o único checkpoint que permanecia aberto. Dali cruzei a fronteira para a China a pé. Chegando, mediram minha temperatura e me deram um formulário todo escrito em chinês, e com muito custo consegui uma versão em inglês. Nele, pedia uma declaração de que eu não havia viajado para áreas de risco como Coreia e Itália”, relata. Ele conta que nesta triagem, ao perceberem que se tratava de um ocidental, pediram que fosse a uma zona especial. “Lá mediram minha temperatura mais uma vez e fizeram uma triagem das minhas viagens, pegaram meu endereço e telefones para caso precisassem me encontrar, e fui liberado.”

Sem saber o que viria pela frente, Luciano conta que chegou em uma parte onde havia diversos oficiais de saúde, cobertos da cabeça aos pés. “Neste local tive de fazer um cadastro digital com Wechat, um aplicativo comum por aqui (semelhante ao WhatsApp), e eles separavam as pessoas por setores”. Como o designer não fala a língua oficial do país, uma tradutora o ajudou nesta etapa. De lá, um carro do governo encaminhou ele e os demais, que fizeram o mesmo processo para a quarentena.

Novamente, outra checagem de temperatura ao subirem na minivan. “A maioria que estava comigo era de Hong Kong. Passamos por três hotéis antes de chegarmos ao local onde ficamos, isso porque os demais estavam lotados. Fizemos mais um cadastro e mais checagens de temperatura”, afirma. Logo no começo é realizado um teste para a Covid-19. A coleta do material é feita com um cotonete que passam no fundo da língua e dentro de um dia o resultado chega por mensagem, conforme o goiano.

Depois de dois dias, Luciano foi transferido para outro hotel, mais próximo da zona que indicou como o endereço do escritório. O local, segundo ele, é confortável. Apesar do ambiente não possuir janelas ou ar condicionado por normas locais, ele garante que estava tranquilo. “É espaçoso, do tamanho de um apartamento, e tem televisão, internet”, exemplifica.

Enquanto viveu por ali, ele conta que recebeu três refeições diárias. Os alimentos são entregues por uma equipe que usa roupas com várias camadas de proteção dos pés à cabeça. “Eles deixam a comida em uma sacola na porta, batem e saem. Fazem isso com todos, todo dia. São muito cautelosos”, descreve. No mesmo hotel, conforme o designer, estavam aproximadamente 200 pessoas. Eles ficaram em um grupo pelo Wechat. Todos também recebem por lá ligações diárias para monitoramento, e os custos da hospedagem são enviados depois em uma fatura entregue aos “hóspedes”. “Apesar de serem bem rigorosos, me trataram de forma muito humana. Eu me senti seguro”, avalia.

 

Designer relata preocupação com família que reside em Goiânia

Apesar da tranquilidade que relatou à reportagem, o designer gráfico Luciano Drehmer confessa que o trauma por todo processo deve permanecer. Além disso, ele conta que vive a ansiedade pela família, que mora em Goiânia. “Estou extremamente preocupado com eles aí. Meus pais fazem parte do grupo de risco”, destaca. “Ao menos meu irmão é muito cuidadoso e diante do que aconteceu na China, ele já se precaveu e comprou máscaras e álcool em gel antecipadamente para meus pais e ele se protegerem sempre que necessário”, pondera. 

“Meu irmão me conta que quando eles precisam sair para a rua, sempre vão com as máscaras e muitos olham como se fosse algo estranho ou até mesmo riem. Aqui, ninguém anda sem máscara já há um bom tempo e isso é um dos pontos importantes também”, analisa. “Quem não está levando a sério a Covid-19 aí em Goiás e em todo Brasil deveria passar a levar. Vi com meus próprios olhos o estrago que esta doença fez”, ressalta.