O número de óbitos confirmados do novo coronavírus (Sars-Cov-2) em Goiás está aumentando mais devagar que outras unidades da federação. O Estado chegou a 25 mortes pela doença neste sábado (25), 30º dia desde o primeiro óbito confirmado, de uma idosa, de 66 anos, moradora de Luziânia. Quando se compara os sete estados que já atingiram 30 dias desde a primeira morte confirmada de Covid-19, Goiás é o segundo com menos óbitos, proporcional à população. 

Santa Catarina, que tem população semelhante e registrou a primeira morte no mesmo dia que Goiás, já tem 42 óbitos. Outros Estados, como São Paulo e Pernambuco, tinham 853 e 352 óbitos respectivamente, quando estavam neste 30º dia. O Amazonas, onde já há colapso dos sistemas de Saúde e funerário, é o primeiro com mais mortes por 1 milhão de habitantes, nos 30 primeiros dias (veja quadro).

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A velocidade baixa no avanço das mortes por coronavírus em Goiás também é perceptível quando se faz outro tipo de comparação: o tempo que cada unidade da federação leva para chegar de um número de óbitos para outro. Goiás é o terceiro Estado que mais demorou para passar da primeira para a décima morte confirmada, foram 16 dias. 

Maranhão e Santa Catarina, que possuem população próxima à de Goiás, demoraram nove e dez dias respectivamente, para ter este mesmo aumento. São Paulo, maior Estado do País, chegou à décima morte em apenas quatro dias.

Goiás também se destaca como o primeiro Estado que mais demorou para dobrar da 10ª morte para a 20ª morte, foram 11 dias. São Paulo fez esta dobra de números de óbitos em um dia, o Ceará, em menos de 24 horas. 

Em reportagens anteriores, esta velocidade de dobra, tanto de número de mortes como de casos confirmados, já foi apontada como um fator importante de medição do avanço da doença, pela doutora em Saúde Pública e epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Silveira. Ela orientou a reportagem sobre a forma correta de fazer comparações entre as unidades da federação.

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Apontamentos

Erika aponta que o menor avanço de óbitos por Covid-19 em Goiás se deve ao pioneirismo na adoção de medidas de distanciamento social. “Outros Estados já tinham muitos casos e mortes acontecendo, quando resolveram fazer esta estratégia de isolamento social,. Aqui em Goiás foi antes”, avalia a pesquisadora. O primeiro decreto de Goiás com regras rígidas de distanciamento começou a valer no dia 17 de março, antes da primeira morte confirmada. 

A epidemiologista também aponta que poucos óbitos são resultado de uma rede de serviços de saúde bem estruturada, com leitos, unidades de terapia intensiva (UTIs) suficientes, além de uma equipe de profissionais bem preparados. “Os óbitos não refletem só o avanço da doença, mas a capacidade do Estado de cuidar dos doentes.”

Motivos

O secretário estadual de Saúde de Goiás, Ismael Alexandrino Júnior, apresenta quatro fatores que ajudam a explicar a velocidade mais baixa no avanço do número de mortes em Goiás: o isolamento social precoce, a estrutura hospitalar com leitos suficientes, a maior proporção de pessoas com mais de 60 anos e com doenças crônicas em outros Estados, como Rio de Janeiro de São Paulo.

“Certamente, o distanciamento social influenciou neste baixo número de mortes, porque ele impacta diretamente em um baixo número de pessoas que têm o vírus. Se tem menos gente com o vírus, menos gente agrava e há menos mortes, naturalmente”, avalia o titular da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO).  

Alexandrino ainda lembra que, até o momento, há leitos suficientes para assistir à população. “Goiás foi o primeiro Estado que fez hospital dedicado para isso, com atendimento exclusivo e fluxo exclusivo”. O Hospital de Campanha (HCamp) de Goiânia foi aberto e recebeu seu primeiro paciente no dia 26 de março. 

Segundo projeção da população do IBGE 2018, Goiás tem 12,2% dos habitantes com mais de 60 anos, enquanto São Paulo tem 15,7%, Minas Gerais tem 16,1% e o Rio Grande do Sul 18,7% de idosos. Com uma maior população nesta faixa etária, também há um maior número de pessoas com doenças crônicas, segundo Ismael. Ambos os casos são considerados grupo de risco para a Covid-19, com mais chances de agravamento da doença.

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Curva

Goiás demorou 16 dias para ir de uma a dez mortes e 11 dias para ir de 10 a 20. O tempo para as dez primeiras mortes costuma ser mais longo porque a doença ainda se espalhou menos neste período. “A curva inicialmente é linear e vai aumentando com o decorrer do tempo. Chega em certo momento, aproximadamente ali no 14º dia, seguindo a tendência de outros locais, ela muda o ângulo de linear para exponencial. O exponencial tem crescimento muito mais acelerado”, explica Ismael Alexandrino. 

Em entrevista para o POPULAR há duas semanas, a médica infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano, explicou que conforme o número de casos avança, o balizador mais importante para monitorar o vírus é o óbito. Ela faz parte do Centro de Operações de Emergência (COE) de combate à Covid-19 em Goiás.  

Erika Silveira explica que a subnotificação de óbitos por coronavírus é bem menor que a subnotificação de casos da doença, porque a testagem tem sido priorizada para os casos mais graves. “Ainda assim tem subnotificação de óbitos, só que bem menor que a de ocorrências (da doença).” 

Futuro

Questionado se a diminuição do distanciamento social em Goiás nos últimos dias, para menos de 50%, poderia aumentar a velocidade no crescimento do número de óbitos, Ismael Alexandrino disse que isso deve acontecer depois de 15 dias, já que o tempo de incubação do vírus é de cerca de 14 dias. 

A pesquisadora Erika Silveira também avalia que o descumprimento das regras de isolamento social e o aumento do movimento de pessoas nas ruas deve impactar em uma maior ocorrência de casos de Covid-19 nas próximas duas semanas e no número de óbitos em um mês.