Goiás é o segundo Estado que mais demorou para chegar até os primeiros 100 casos confirmados do novo coronavírus (Covid-19). Até o dia 9 de abril, 18 unidades da Federação atingiram a marca. Goiás alcançou este patamar após 23 dias, logo atrás do Espírito Santo, com 27 dias. No Ceará, um dos Estados com a incidência de casos confirmados acima da média nacional em mais de 50%, foram apenas 7 dias até completar 100 casos. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas, menos de 20 dias.

Especialistas apontam que essa baixa velocidade de contaminação de Goiás foi provocada pelo distanciamento social precoce. No entanto, eles temem que a velocidade pode aumentar caso haja o afrouxamento das medidas de isolamento antes que o Estado chegue até o pico máximo de infectados.

Doutora em saúde pública e epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Silveira explica que Goiás, assim como alguns outros Estados, adotou medidas que garantiram o isolamento social antes do agravamento da situação e que isso teve impacto nos números. “O crescimento de Goiás vem em velocidade mais lenta que outros Estados. Por que isso está acontecendo? O governador fez a estratégia do lockdown, de parar a maior parte das coisas”, avalia a pesquisadora.

Caso diferente de São Paulo, por exemplo, que só começou a parar depois de já ter muitos casos e hoje tem um avanço acelerado da curva de contaminação.

A médica infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano alerta que essa velocidade de contágio baixa não é garantida e pode aumentar. Ela compara os dados diários de casos confirmados com uma fotografia da semana anterior, já que se deve considerar o tempo entre o contágio e o aparecimento de sintomas, além da demora para sair o resultado do teste.

“Quando as medidas de distanciamento social funcionam, reduz a velocidade da transmissão. Consequentemente, vai reduzir a velocidade da curva. A população pode achar então que está tranquilo e pode liberar as medidas, e não é o caso”, explica a pesquisadora, que é vinculada ao Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da UFG e faz parte do Centro de Operações de Emergência (COE) que monitora o vírus em Goiás.

Cristiana relata que está trabalhando com outros especialistas para assessorar o governo. Eles estudam formas e momentos de flexibilizar as medidas restritivas de maneira segura. “Isso só pode acontecer quando se atingir o pico da epidemia, mais para o final do mês. Agora, que a epidemia está crescendo, não é o momento de uma flexibilização importante, se não essa curva controlada vai ter um crescimento rápido e intenso.”

Outro indicador

Erika explica que um indicador da velocidade de contágio do Covid-19 é quando o número da quantidade de casos dobra em muito pouco tempo. “Nós calculamos a velocidade da dobra. A cada quantos dias que está dobrando os casos? Tem lugar que a cada 24 horas dobrava os casos, isso é muito preocupante. Quando está demorando cinco dias, uma semana, para dobrar o número de casos, significa que as estratégias são positivas e que o governo tem tempo de aumentar o número de leitos hospitalares e comprar respiradores”, explica a pesquisadora.

Goiás demorou sete dias para dobrar de 50 para 100 casos. Estados com a velocidade de contágio mais rápida tiveram números diferentes. O Distrito Federal e o Ceará fizeram a mesma dobra em dois dias, São Paulo e Rio de Janeiro em dois dias. Amazonas em três.

Ressalvas

O professor e pesquisador do IPTSP da UFG, João Bosco Siqueira Junior, reconhece que possivelmente Goiás tem menos casos confirmados porque implantou de forma mais precoce medidas de controle que impedem aglomerações e a disseminação do vírus. No entanto, ele pontua que isso é uma hipótese e que a comparação com outros estados deve ser feita com algumas ressalvas.

A primeira delas, segundo o pesquisador, é a data inicial de comparação. Ele defende que seja a partir do primeiro caso de contaminação comunitária, que é quando o vírus já está circulando e não se sabe de onde a pessoa pegou a doença. “Aparentemente, isso aconteceu mais tardio para a gente”, explica João Bosco. Segundo ele, a velocidade do avanço de casos confirmados fica mais acentuada a partir desse primeiro caso.

O professor também defende que os casos de pessoas que se contaminaram em outros países não devem ser contabilizados na unidade da federação. “Não faz sentido ter curva que inclua essas pessoas, porque não é uma curva nossa, não adoeceram aqui”, explica.

Outras ressalvas feitas pelo professor são sobre as diferentes populações de cada unidade da federação, que indicam um potencial maior ou menor de aglomeração; e a forma como os dados foram coletados em cada estado, já que podem ser realizadas diferentes quantidades de testes com diferentes variações no tempo para ter resultado.

Pesquisadora da mesma instituição, Cristiana defende que a demora para a realização dos testes acontece em todo o país e isso não é determinante para impedir a comparação entre unidades da federação. “Isso está acontecendo em todos os lugares. Como todos se comportam dessa forma, não acho que seja um fator que está influenciando de maneira importante. É um viés que todos lidam”, avalia a pesquisadora.