“Cajuzinho quem quiser, é só ir buscar na serra”... Assim dizia aquela canção tão familiar às nossas raízes goianas. Composta por Hamilton Carneiro e Genésio Tocantins, a música Frutos da Terra faz ode a uma das principais riquezas do Cerrado: a sua gama de frutos de imensas propriedades nutritivas e valor imaterial incalculável, imbricados de significados da cultura popular. Marca da identidade de nossa gente, os frutos do Cerrado fazem parte do imaginário coletivo do goiano. Seja como ingredientes de receitas típicas, ou mesmo em nossa memória afetiva. Muitos têm ou tiveram o privilégio de preservar lembranças daquela avó que, aos domingos, reunia a meninada para chupar fruta no pé do quintal de casa. Ou aquele avô que sossegadamente se sentava à sombra de um frondoso exemplar de jatobá.

 

As reminiscências são reconfortantes por trazerem de volta uma época cada vez mais distante e, ao mesmo tempo, tão discrepante de nossa realidade atual. A ação humana cada vez mais destrutiva coloca em xeque não somente a serra, mas veredas, as áreas campestres, campos de altitude, as ‘pindaíbas’... Nada vem escapando da escalada galopante da degradação. “Goiânia era um Cerrado. Tudo que você plantava, ele dava. Veja agora: não restou nada e continuam limpando tudo”, compara Bariani Ortêncio, com um quê de nostalgia  misturada à uma preocupação bastante plausível.  O último relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), divulgado em setembro deste ano, prevê que 40 mil quilômetros quadrados serão desmatados por década até 2050.

 

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, estima-se que 20% das 11.627 espécies de plantas nativas e endêmicas já não ocorram em áreas protegidas. A expansão da fronteira agrícola do país, orientada principalmente para monoculturas como a soja, cana-de-açúcar e o algodão, além da pecuária leiteira e de corte, provocou alterações ambientais drásticas, principalmente nas últimas três décadas. No que tange especificamente os frutos do Cerrado, não há registros científicos anteriores com os quais seja possível estabelecer um comparativo com a distribuição populacional da flora atual. No entanto, o deprimente prognóstico de que muitas espécies podem simplesmente desaparecer em poucos anos advém da constatação empírica daqueles que, por razões díspares, mantêm uma relação estreita com o Cerrado e podem analisar este cenário preocupante de uma perspectiva privilegiada.

 

Terra em transe

“A natureza vai cobrar do homem”. O tom ameaçador é do empresário Clóvis José de Almeida, fundador da Frutos do Brasil, que se tornou referência por fabricar picolés e sorvetes a partir de frutas típicas do Cerrado. “Absolutamente tudo está sendo devastado. A primeira coisa que acontece quando alguém consegue um pedaço de chão é derrubar a mata nativa”. A constatação é respaldada pela vivência empresarial de quem atua no ramo desde 1996 e depende economicamente da preservação do bioma. Segundo conta Clóvis, a matéria prima para os produtos está cada vez mais rara. A escassez afeta principalmente as espécies adaptadas às regiões de planície, mais adequadas para a ocupação humana. As queimadas também tem um efeito deletério inquestionável. “Espécies como o jatobá e o pequi são as mais sensíveis. Elas levam cerca de três anos para se recuperar e voltar a produzir frutos, quando não morrem”, explica o produtor.

 

Atribuir aos frutos do Cerrado a condição de espécies em risco de extinção ainda é prematuro. Quem afirma é o geógrafo e doutor em Desenvolvimento Regional e Planejamento ambiental pela UFG, Marcelo Rodrigues Mendonça. No entanto, ele faz questão de frisar que a diminuição da população de espécies vegetais nativas é sim significativa. “Às vezes você anda centenas de quilômetros e não encontra mais nada. Apenas remanescentes em áreas pouco propícias”. O problema já é evidente para os entendidos, o que não necessariamente se converte em medidas efetivas de preservação. “O estudo e a pesquisa não conseguiram acompanhar o ritmo acelerado do desenvolvimento. Assim, está cada vez mais difícil de encontrar os frutos, principalmente espécies como a gabiroba, o cajuí, bacupari rasteiro e o fruta-de-ema, típicos de regiões campestres ou chapadões, áreas que foram densamente ocupadas pelo ser humano”, explica o professor Roberto Malheiros, pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido da Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO).

 

Mais que o prejuízo ambiental, as perdas em relação ao patrimônio imaterial seriam igualmente incalculáveis.  Conclusão do escritor e folclorista Bariani Ortêncio, profundo conhecedor da culinária e cultura goiana. “O cerrado é tão rico, que em um espaço de 9m quadrados você vai achar duas frutas e duas ervas medicinais. É uma riqueza tamanha. Antigamente, as bolas eram feitas de bexiga de boi, revestida com leite da mangaba. Era o plástico daquela época. Está acabando tudo. A soja está chegando e está limpando tudo, não fica nenhum pé. Isso é o progresso. Tudo pronto, tudo fácil, e ninguém vai mais atrás destas coisas (os frutos típicos)”.

 

Plantando a sementinha

Dona Raimunda é uma senhora sábia e muito ativa. Além de psicóloga, arteterapeuta e poetisa, a simpática “Rai”, como é mais conhecida, tem boa parte de as atribulada rotina aos afazeres da floricultura que possui no Setor Sudoeste. O local é mais um dentre tantos estabelecimentos do tipo na capital, se diferenciando pelo zeloso trabalho de preservação desenvolvido pela proprietária. “Meu principal objetivo é preservar as plantas semiextintas”, afirma. Pequi, gabiroba e mangaba estão entre as mais cultivadas, principalmente pela facilidade de germinação. A adoração pela natureza local vem de berço. “Meus pais sempre foram preocupados com a preservação e conservação da flora”, lembra Rai. A floriculturista acredita que se houvesse maior preocupação por parte das autoridades, o comportamento da população seria outro. “Nas escolas deveria haver um incentivo para colher sementes em campo. Não creio que haja resistência das pessoas em cultivar e se interessar pelas espécies, mas sim um desconhecimento, uma falta de oportunidade de receber este conhecimento ecologicamente correto”, analisa.

 

O empresário Clóvis José de Almeida também faz questão de mostrar que vale a pena preservar e investir no Cerrado. Em sua propriedade rural no município de Palestina de Goiás, na região sudoeste do Estado, são cultivadas frutas como mangaba, cagaita, araçá, araticum, murici e jatobá. Todas mantendo sua relação genuína com a fauna local. “Lá não coloco nem espantalho. Os pés de murici, quando brotam, ficam repletos de papagaios. Nós, os homens, destruímos sua fonte de alimentação e eles precisam das frutas para comer. A mim, só resta ficar com a sobra. Que neste caso, me rendeu 70 kg da fruta de um único pé”, conta. As sementes colhidas são encaminhadas para entidade como Embrapa e Emater, de modo a contribuir para a produção demudas a serem utilizadas em áreas de reflorestamento.

 

A chácara, no entanto, acaba servindo apenas como uma vitrine, uma vez que a produção necessária para demanda provém de uma cadeia de pequenos produtores articulada pelo empresário.  “O caju é produzido em uma propriedade em Padre Bernardo, e a cagaita eu busco em Abadia de Goiás. Mas possuo aquela terra apenas para poder mostrar que vale a pena produzir as espécies nativas. Uma plantação de mangaba, por exemplo, é muito mais rentável que uma cultura de soja ou algodão”, diz Clóviz. O doutor Marcelo Rodrigues corrobora a hipótese: “Um hectare cultivado com frutos de Cerrado (mangaba, gabiroba etc) rende mais que um hectare de soja em renda monetária”. Sem contar que essa plantação exige o uso de agrotóxicos, que contaminam o meio ambiente e os lençóis freáticos. “Não sou contra o cultivo destes produtos. Ao contrário, nós precisamos deles também para viver. Mas acho o que acho totalmente desnecessária essa degradação tão grande, principalmente das áreas de nascentes”, reflete Clóvis.

 

O professor Roberto Malheiros apoia a exploração econômica dos frutos do Cerrado. Ele acredita que a preservação só será possível com a popularização e agregando valor econômico às espécies. “Ainda hoje os frutos são absolutamente desconhecidos da população. O pequi só foi preservado por o produto tem valor econômico”. Para que essa popularização seja possível, ele defende uma educação alimentar que promova a inclusão de espécies nativas, principalmente nas escolas, para que as crianças se familiarizem com as frutas. “Hoje a garotada só conhece o gosto da maçã, da uva, da goiaba. É preciso fazer com que eles conheçam o cajuzinho, a mangaba. Tem que haver um incentivo para que os jovens conheçam e peguem gosto pelos sabores do Cerrado”.  A inciativa é muito comum em eventos gastronômicos regionais, mas afirma Bariani Ortêncio, a ação é pontual e efêmera. “O baru você vê muito em festivais, e como condimento. Nunca vi uma coisa destas! E é só. Se você for depois procurar em um restaurante, não acha”.