Após o nível da água do Rio Meia Ponte baixar em cerca de meio metro durante esta quinta-feira (23), moradores das regiões vizinhas ao manancial em Goiânia e que foram afetadas contabilizam os estragos. Os atingidos somam 80 famílias. Residente na Avenida Pampulha, no Setor Urias Magalhães, Sara Rodrigues da Silva, de 24 anos, é um dos tristes exemplos. Devido ao alagamento na região, ela e o marido calcularam até agora cerca de R$2 mil de perdas.

A chuva, principal fator para os alagamentos, começou na última quarta-feira (22) em Goiânia. Antes disso, porém, a água do Meia Ponte já havia começado a elevar, em decorrência das fortes chuvas na região de Inhumas. O Setor Urias Magalhães, na Região Norte da capital, está entre os mais afetados, segundo a Defesa Civil do município. Assim que choveu, Sara e o marido começaram a retirar alguns móveis de casa e a elevar outros na tentativa de salvar o maior número possível de itens. Mas não deu tempo para tudo. “Temos dois filhos pequenos, um de 2 anos e outro de 1. Para tirar tudo não é nada fácil, e às vezes a água entra de uma vez”, relata.

Com medo, a família saiu do local onde vivia e se hospedou de favor na casa de conhecidos. Nesta quinta-feira, só voltaram ao local para ver o tamanho do estrago. O sofá, que não tinha nem um ano de uso, foi perdido completamente. “Todo ano é a mesma coisa. Não aguentamos mais. Colchões também já perdemos inúmeras vezes”, lamenta. “Para piorar, em meio à pandemia, estamos os dois desempregados. Ou ficamos sem móveis, ou entramos em dívidas”, acrescenta.

Ela destaca que além dos bens materiais, o estado psicológico de todos também foi afetado pelo medo constante de a água invadir os lares. Enquanto isso, a família continuará longe do local, onde vive há seis anos, até que não haja mais perigo.

A dona de casa Francisca de Almeida, de 57 anos, também foi uma das moradoras atingidas pela chuva. Ela, que reside no Residencial Recanto do Bosque, conta que também teve perdas, mas ainda nem começou a contar o tamanho do estrago. “Tem gente que perdeu tudo. Ninguém deveria viver com medo deste jeito. Meus eletrodomésticos já queimaram inúmeras vezes. Meus móveis estragam sempre. O jeito é ajudar quem tem menos ainda. Depois que a chuva cessar, ver o que nos restou.”

O local também faz parte dos cinco principais pontos monitorados pela Defesa Civil por causa do risco de novos alagamentos. Para verificar a situação, foram feitas visitas nesta quinta-feira nas regiões consideradas que devem permanecer em alerta, segundo o gerente de chefe do Setor de Apoio Técnico do órgão, Cidcley Santana. O Jardim Califórnia, na GO-403, e o Jardim Balneário Meia Ponte também fazem parte da lista de localidades que é acompanhada.

“A água está baixando gradativamente, então se não chover mais, até sábado já deve estar tudo normalizado e as pessoas poderão voltar. Mas ainda é possível que chova. Continuaremos monitorando”, informa. Para se ter uma ideia, conforme Cidcley Santana, em média o Rio Meia Ponte está baixando 10 centímetros a cada 3 horas.

Enquanto algumas pessoas conseguiram permanecer nos locais onde vivem, outras como Sara e Francisca tiveram de sair. “Ao todo, 80 famílias foram desalojadas. Entre elas, 30 são do Recanto do Bosque; 25 da Avenida Pampulha na esquina com a Francisco de Araújo, no Urias Magalhães e o restante mais no fim da mesma Avenida, porque ela é bem grande ”, diz.

Liberação

Se a chuva não retornar, outra mudança que ocorrerá, segundo Santana, será a abertura da ponte na Avenida Nerópolis, entre o Jardim Balneário Meia Ponte e o Câmpus da Universidade Federal de Goiás (UFG). A ponte está interditada para o tráfego desde a quarta-feira.

Nesta quinta-feira o nível do Meia Ponte registrado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) no começo da manhã foi de 6,15 metros (m) de água, mas no fim do dia era de 5,63 m (veja gráfico). Apesar da queda, devido ao tempo instável, o órgão recomenda alerta. O ponto de medição fica no Balneário Meia Ponte, próximo á área de Agronomia da UFG.

 

Bacia precisa ficar em alerta

Apesar da baixa no Rio Meia Ponte nesta quinta-feira a montante de Goiânia, o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, informa que é necessário permanecer em alerta. Isso porque, o volume de chuvas vai seguir rio abaixo afetando toda a bacia e as precipitações podem continuar.

“Assim como a água que caiu na região de Inhumas no começo da semana chegou a Goiânia e elevou o nível do rio aqui, o mesmo pode acontecer. Á água vai descer. Então da capital até a região de Itumbiara é importante estar atento.”

“A tendência é que á água do rio abaixe ainda mais. Este é o esperado”, diz. “Mas o risco existe principalmente para os locais que ficam muito próximos das margens do rio”, acrescenta o gerente do Cimehgo.

Até o fim de semana, conforme Amorim, estão previstas pancadas de chuvas isoladas, e o tempo deve ficar mais estável somente na próxima semana.“