Lideranças da facção carioca Comando Vermelho (CV) na Região Metropolitana de Goiânia se perpetuam no poder mesmo depois de presos e conseguem manter atividades criminosas substituindo seus comandados detidos ou mortos por mais jovens. É o que revela investigação da Delegacia Estadual de Homicídios (DIH) da Polícia Civil de Goiás que cumpriu 21 mandados de prisão no mês passado de pessoas ligadas a Jaeldson Alves de Souza, o Duque, que seria liderança do CV na Região Oeste. Outros 56 mandados foram cumpridos no mesmo período, na maior parte relacionados a homicídios no contexto do tráfico de drogas, mas em outras regiões da cidade.

Duque já é um antigo conhecido dos policiais. É preso condenado por atirar na cabeça de um agente de trânsito em 2013 e alvo de uma operação da Delegacia de Investigações Criminais (Deic) em fevereiro de 2019 por suspeita de comandar homicídios e tráfico de dentro da prisão. Ele ganhou o direito de cumprir sua pena na semiliberdade e fugiu, mas foi recapturado em março no interior do Ceará.

Dessa vez, os alvos dos investigadores da DIH são antigos aliados do Duque, como o seu irmão, Danieldson Alves de Souza, o Alvim, e novos integrantes da organização criminosa. Dos 21 mandados, 11 são por organização criminosa, de pessoas que os investigadores tinham provas de ter alguma posição de comando no grupo.

Entre os investigados com alguma posição de comando há os chamados “bebês”, que são a parte mais baixa na hierarquia, que revendem a droga e fazem serviços operacionais do tráfico. Também há os “soldados” ou os “executores”, que cometem homicídios a mando da facção. Um papel de maior relevância é o de gerente da boca, ou biqueira, que cuida da contabilidade e recebe valores dos “bebês”.

O delegado responsável pela investigação na região Oeste, Ernane Cazer, explica que os investigadores intuem que as lideranças continuam a praticar o crime porque conseguem mandar mensagens de dentro do sistema prisional. Além disso, renovam os seus comandados. “A gente prende o pessoal que está atuando em determinado momento, mas logo depois vem outras pessoas que eles captam, para substituir as pessoas que foram presas”, avalia.

Um dos indiciados pela Polícia Civil que entrou no grupo para substituir um soldado preso foi Pedro Henrique de Sousa Amaro, o Pastor. Ele confessou ter assassinado o advogado criminalista Thiago Souza Mendes, de 27 anos, no Setor Sudoeste em julho deste ano. A motivação seria por achar que a vítima se relacionava com a esposa de um faccionado.

Ernane diz que os homicídios praticados pela facção nem sempre têm relação direta com o tráfico e a disputa por território. “Os membros de facção criminosa não admitem que eles sejam desrespeitados e a pena deles é a morte, não tem meio termo. É para mostrar poder.”

Dos crimes investigados na operação está a morte de Felipe Rodrigues, de 25 anos, em 19 de setembro, no bairro Eli Forte, com um tiro na cabeça em via pública, depois de dois colegas o convidarem para um bar. Outra vítima, Lucas Pereira da Silva, de 18, foi morto a tiros em 21 de junho na porta de casa no Residencial Forteville Extensão, onde venderia drogas, por uma pessoa de bicicleta.

Ernane explica que as facções têm passado por dificuldade financeira e sem dinheiro para contratar pistoleiros profissionais, recorrem a jovens inexperientes para fazer o papel de executores. “Quando vão executar deixam um monte de rastros e indícios que a gente chega mais fácil até eles”, relata.

Em entrevista durante coletiva na manhã de ontem (13), o delegado titular da DIH, Rilmo Braga, defendeu que as prisões, tanto na região Oeste, como as nas outras regiões, devem ajudar a diminuir os índices de homicídios na capital. Sobre os suspeitos de praticar crimes mesmo presos, Rilmo disse que eles devem ser transferidos para o Presídio Especial de Planaltina. A unidade recebe lideranças de diferentes facções.

Dos 77 presos que compõe a operação, chamada de Centrífuga 4, 18 foram por homicídios relacionados ao tráfico, 11 por organização criminosa e tráfico, 10 por assassinato motivado por guerra entre facções, 2 por morte após discussão e 4 indiciados por suspeita de matar no contexto da briga entre facções.

A defesa de Danieldson disse ao POPULAR não haver crime e confiar no trabalho da polícia.

 

PCC enviou comando para dominar bairro Goiá 

A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) teria dado uma ordem para que o tráfico na área do bairro Goiá, na região Oeste da capital, seja tomado da rival carioca Comando Vermelho (CV). Foi neste contexto, que em julho deste ano, o traficante John Alisson Monteiro, o Batata, foi assassinado. Dois foram indiciados pela Polícia Civil por participação na sua morte. 

Batata era conhecido por dominar o tráfico no Goiá pelo CV, mas segundo as investigações, acabou sendo morto por um antigo amigo que se tornou rival, depois que foi preso e passou para a ala do PCC. Dentro da Penitenciária Odenir Guimarães, maior de Goiás atualmente, presos ligados à facção paulista ficam na ala C junto com os aliados Amigos do Estado (ADE). Já os detentos da facção carioca ficam na ala B. Batata também teria matado aliados do ex-amigo.

Atualmente, o CV ainda domina o tráfico no bairro Goiá, com outra pessoa no lugar de John. Segundo o delegado responsável pela investigação da morte do traficante, Ernane Cazer, a facção carioca estaria formando uma nova frente no local. As informações são repassadas para a Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc). 

Investigações policiais apontam que hoje em dia o tráfico de drogas na Região Metropolitana de Goiânia é dominado predominantemente pelo CV, enquanto no interior o PCC tem mais força.