Engajados no movimento que busca a sustentabilidade no consumo e a diminuição da geração de resíduos sólidos, estabelecimentos comerciais de Goiânia adotam, aos poucos, mudanças na aquisição e na oferta de produtos para os clientes. Na maior parte dos casos, o esforço se reflete, principalmente, no canudo de plástico, objeto encarado, atualmente, como o grande vilão no combate ao descarte desse tipo de material. Como alternativa, veio a abolição do item ou a sua substituição por versões de menor impacto ambiental, como biodegradáveis de papel ou reutilizáveis, feitos de materiais como bambu e metal.

Diante de um público tão acostumado ao uso do objeto, os restaurantes e cafés que adotaram um novo modelo tiveram respostas variadas. Ao mesmo tempo em que o apoio e o engajamento na causa fizeram-se presentes na voz de vários consumidores, houve contestação e até mesmo rejeição por outros.

No primeiro caso, enquadra-se o restaurante vegetariano e vegano La Bottega Dell’ Art, localizado no Setor Marista, na Região Sul da capital. Há cerca de três meses, os proprietários e funcionários da casa decidiram adotar a postura para seguir em consonância com a premissa do combate ao sofrimento animal, que norteia o movimento representado no cardápio da empresa. A novidade foi vista com bons olhos pelo público, explica Caio Marques, um dos proprietários. “Grande parte das pessoas ou não se importa em tomar uma bebida sem canudo ou é adepta da causa”, diz ele.

Para enfrentar a surpresa daqueles que não esperam a ausência do canudo, a arma foi o bom humor, como explica o garçom Mário Sérgio Júnior. “Nós não oferecemos, mas quando o cliente solicita, falo, em tom de brincadeira, sobre o tempo que necessário para a degradação daquele objeto”, explica ele, dizendo que adotou a estratégia a fim de atender aos interesses de ambas as partes sem causar constrangimento. A medida, porém, quase não se faz necessária, garante. “Boa parte dos clientes já não pedia o canudo ou devolvia quando ele era entregue”.

Para bebidas mais densas, como cremes, em que a utilização do canudo auxiliava no consumo, uma colher é ofertada. “Como a textura lembra um sorvete, dá supercerto”, afirma Mário. Para as demais, o item não é necessário.

Rejeição

Por outro lado, a experiência vivida pelos responsáveis pela cafeteria Doce Café Empório Mineiro, no Setor Oeste, também na Região Sul da cidade, foi um pouco diferente. Há cerca de um mês, a abolição dos canudos foi adotada como forma de colaboração na busca por sustentabilidade. A recepção pelos clientes, contudo, não foi positiva.

Contestada, a opção da empresa foi revista e, na última semana, o tradicional canudo de plástico voltou a figurar no ambiente do café. “Foi uma confusão nos primeiros dias. Houve reclamação e os clientes achavam um absurdo não ter canudo. Por mais que explicássemos, eles queriam ter a opção”, diz Fernanda Leite, gerente do estabelecimento.

Em meio à maioria de consumidores desapontados, houve, também, aqueles satisfeitos. No entanto, a rejeição falou mais alto e nem mesmo o oferecimento da colher do tipo bailarina, utilizada para a mistura de líquidos, foi suficiente. “A nossa intenção era tirar o canudo, mas, infelizmente, não conseguimos.”

Apesar da experiência inicial, a casa não pretende desistir e agora busca a versão biodegradável do canudo para poder extinguir de vez o plástico tradicional de seu estoque. De acordo com Fernanda, a intenção é encontrar o produto e avaliar a viabilidade de oferecê-lo no local.

O caso da tartaruga

As imagens dos quase 8 minutos de agonia vividos por uma tartaruga marinha enquanto biólogos tentam retirar um objeto de uma de suas narinas tiveram repercussão determinante para a mudança de hábitos mundo afora. Feito em 2015, o vídeo, gravado por um grupo de pesquisadores texanos na Costa Rica, mostra os efeitos do descarte de plástico nos oceanos, explicitado pelo sofrimento do animal que tem um canudo preso em seu corpo.

A publicação teve efeito viral e sua versão original tem quase 33 milhões de visualizações no YouTube. Foi ela a responsável, por exemplo, pelo início do debate no ambiente do La Bottega Dell’ Art, segundo Mário Sério Júnior.

“A mudança foi justamente após o vídeo da tartaruga ter viralizado. Vimos que é também uma questão de evitar o sofrimento animal”, explica o garçom. “Temos um público que não consome carne para evitar coisas como o impacto ambiental. Ele já tem essa consciência.”

Pesquisador na área de reaproveitamento de resíduos sólidos, o professor do Instituto de Química da Universidade Brasília (UNB) Marcello Moreira Santos reconhece que tem havido uma comoção desde a divulgação do referido vídeo. A situação teve apelo midiático, avalia ele, e a resposta da sociedade foi de forma praticamente imediata.

Para o estudioso, o episódio serviu como alerta, mas a efetividade de seu destaque depende, agora, de um debate ampliado. “Tem de ter um pontapé inicial, um despertar de consciência para que o problema seja levantado, discutido, e para avançarmos”, diz ele. “É preciso pensar em uma maneira de reaproveitar melhor os resíduos. Não adianta parar de fornecer o canudo, como se ele fosse o vilão. É uma questão de educação, de perceber o que a gente faz com aquilo que é jogado fora.”

Uma pesquisa publicada em 2015 pela revista científica Science mostra que 275 milhões de toneladas de resíduos plásticos são produzidas por ano no mundo, com cerca de 12,7 milhões destas chegando aos oceanos. Segundo Santos, os canudos ainda representam uma fatia pequena desses materiais, tendo dimensão inferior do que as sacolas, por exemplo. No entanto, a forma imediata como seu uso e seu descarte ocorrem chama a atenção. “É um item facilmente descartável no consumo. Trata-se de uma comodidade moderna, que se pode passar sem”, define.