Há cinco meses, sempre no dia 26, o casal de servidores públicos Vanderly Cavalcante da Silva, de 66 anos, e Valtide Nogueira Garcia, de 44, cumpre um ritual. Deixa o bairro Recanto das Minas Gerais, na Região Leste de Goiânia, e vai ao Cemitério Jardim das Palmeiras, na área central da capital, para visitar o túmulo da única filha que gerou, Susy Nogueira Cavalcante. Ela morreu aos 21 anos no dia 26 de maio deste ano dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Goiânia Leste, no Setor Leste Universitário, após ter sido abusada por um técnico de enfermagem. Mas o que realmente teria provocado a morte de Susy, uma jovem até então com pequenas complicações de saúde? A polícia espera dar a resposta nos próximos dias.

O caso provocou revolta, comoção, rendeu dois inquéritos policiais e um procedimento administrativo junto ao Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego). O primeiro inquérito, sob a responsabilidade da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), investigou o abuso sexual e foi concluído e encaminhado ao Poder Judiciário antes do prazo protocolar. O técnico de enfermagem Ildson Custódio Bastos, de 41 anos, foi indiciado e posteriormente denunciado por estupro de vulnerável. O processo corre em segredo de justiça.

O segundo procedimento policial foi aberto no 9º Distrito Policial para investigar a causa da morte depois que a família soube do que ocorreu no interior da UTI. Uma força-tarefa composta por três delegados e quatro escrivães ouviu mais de 50 pessoas e requisitou uma série de laudos à Superintendência da Polícia Técnico-Científica e um parecer médico do Instituto Médico Legal (IML). No dia 24 de julho, o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) apontou embolia pulmonar como o motivo que levou Susy à morte. A família quer mais respostas.

“A saudade é imensa. Sinto que ela foi ali e está voltando”, diz Vanderly Cavalcante. Desde que foi obrigado a conviver com a notícia da morte da filha ele acompanha cada detalhe das investigações ao lado do amigo de longa data e advogado da família, Darlan Alves Nogueira. “Pedimos uma investigação por um médico legista de nossa confiança. Há muitas perguntas sem respostas. Por que rasgaram a traquéia da Susy?”, questiona o advogado. Ele e os familiares da jovem aguardam para breve a sentença sobre a acusação de estupro da qual o atendente de enfermagem foi denunciado.

Susy, acadêmica de Arquitetura na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), deu entrada no Hospital Leste Universitário na manhã do dia 16 de maio deste ano após uma crise convulsiva. No dia 17, a enfermeira chefe da Organização Goiana de Terapia Intensiva (OGTI), empresa responsável pela gestão dos leitos de UTI do hospital, procurou a Deam onde registrou um possível abuso praticado naquela madrugada por um colaborador, vinculado à empresa há cerca de ano. Imagens das câmeras de monitoramento indicavam a agressão.

A vítima era Susy, que oscilando momentos de sedação e lucidez, conseguiu avisar uma enfermeira sobre o que tinha vivido. Depois, a jovem foi entubada e não conseguiu mais falar, embora tentasse dizer algo à família como atestou mais tarde Vanderly. Seus pais só souberam do ataque à filha no momento do velório. Avisados por amigos integrantes das forças de segurança sobre o registro na Deam, assistiram estupefatos o corpo da filha ser levado para o Instituto Médico Legal (IML) para ser examinado.

Silêncio

Quando o fato veio à tona, as imagens das câmeras instaladas na UTI mostrando o atendente de enfermagem tateando Susy foram amplamente veiculadas. A OGTI, que não comunicou o fato à família, se defendeu dizendo que a Deam pediu sigilo para não atrapalhar as investigações. Vanderly teve de lidar com a própria dor, amparar a mulher e correr atrás de respostas que esclarecessem o que, de fato, tirou a vida da filha.

“Na denúncia, o MP diz que o dano que ele (Ildson) causou provocou a morte de Susy”, disse ao POPULAR Darlan Alves Nogueira sobre o abuso sexual. Mas o advogado também enxerga um amplo cenário de negligência médica. “No domingo os pais estiveram no hospital e disseram que ela tinha tido pneumonia, por isso precisou ser entubada.” O atendente de enfermagem está preso desde o dia 29 de maio quando se apresentou espontaneamente à Deam e sistematicamente tem negado o crime. “Não sei nem o que estou fazendo aqui”, teria dito em uma das audiências na Sétima Vara Criminal.

Quando Ildson foi preso, seu advogado, Leonardo Silva Araújo, afirmou que o cliente estava sendo ameaçado depois que as imagens foram divulgadas. “Ele estará mais seguro preso do que solto. Na prisão, o Estado tem a responsabilidade de manter sua vida”. Ildson está no Núcleo de Custódia, considerada a área mais segura do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia.

Imagens foram analisadas por 10 dias

Washington Conceição espera encaminhar ao Poder Judiciário num prazo de 15 dias o relatório final sobre o inquérito que apura o que realmente provocou a morte de Susy Nogueira. Após a divulgação do laudo do SVO que apontou embolia pulmonar como causa morte e o resultado da análise da perícia de informática da Polícia Técnico Científica que comprovou que as imagens captadas pelas câmeras de monitoramento da UTI não foram editadas, o delegado vai se debruçar sobre o parecer médico do IML. A força-tarefa elaborou mais de 50 perguntas na expectativa de entender o que ocorreu dentro do leito de internação.

Washington Conceição explica que todos os depoimentos foram colhidos no prazo legal de 30 dias, mas o inquérito não pode ser concluído pela ausência dos laudos. “Enviamos para o Judiciário e solicitamos a dilação de prazo, o recebemos de volta há cerca de um mês e ganhamos mais 90 dias para concluí-lo, mas não será necessário todo este tempo.” O inquérito já possui dois volumes que somam mais de 400 páginas. Foram ouvidos profissionais do hospital, da OGTI e até médicos que acompanhavam as crises convulsivas de Susy, que há cerca de dois anos estavam esparsas. 

Márcia Souza, uma das escrivãs que atuou no caso, lembra que passou vários dias analisando as imagens das câmeras de monitoramento. “Perdi noites de sono.” A polícia verificou cada detalhe captado nos 10 dias que Susy passou no leito da UTI do Hospital Leste Universitário. “Até para nós é difícil entender porque uma jovem como ela, sem grandes problemas de saúde, tenha morrido assim. Vi toda a movimentação e os procedimentos. Será que eles seriam necessários?”

A delegacia encaminhou ao Cremego pedido de instauração de procedimento administrativo para saber se os atos médicos dentro da UTI obedeceram um padrão de normalidade. O Cremego confirmou a abertura do expediente, ainda em tramitação, portanto sem resposta. “Será que o Cremego fiscaliza o que ocorre nessas UTIs, a maioria sob a gestão de empresas terceirizadas?”, questiona o delegado Washington Conceição. “Ela é feita em todas as unidades de saúde, públicas e privadas, onde há o exercício da medicina”, garante a instituição.

 

“Sinto que ela foi ali e está voltando”, diz pai de Susy

A vida de Vanderly e Valtide sofreu uma reviravolta. Ele está aposentado, ela precisou de dois meses para retomar a rotina de trabalho. “Foi um baque”, desabafa o pai. Muito triste, a mãe escolheu o silêncio e a distância da repercussão do caso. Mesmo orientado a buscar ajuda terapêutica para superar a fase difícil, o casal optou por se amparar nos amigos, na família e na fé. “Somos católicos, mas perdi as contas de quantas igrejas fomos”, revela Vanderly.

O quarto de Susy continua como ela deixou. “A gente quer ela presente. Sinto que ela foi ali e está voltando. Ela está no meio da gente o tempo todo”, diz o pai. Aos poucos os conselhos para que os pertences de Susy sejam doados parecem fazer sentido. O casal cogita até mesmo uma mudança de endereço. Vanderly conta que a lembrança mais nítida da filha é do aniversário de 15 anos que a família preparou com esmero numa casa de festas na Vila Nova. O bairro faz parte da história da família porque foi ali que Vanderly passou a maior parte de sua vida. “Ela estava muito feliz.”

Vanderly disse ao POPULAR que vem lidando com a culpa. “Me cobro muito. Por que não tive uma luz de tirar a minha filha dali?” Segundo ele, cerca de dois dias antes da filha morrer, foi tomado de uma sensação de que deveria removê-la para outro estabelecimento hospitalar. “Segurei ela no braço, mas os médicos lá dentro não deixaram. Minha filha tinha saúde de aço. As crises convulsivas que ela sofria desde os 15 anos não justificariam tudo o que fizeram com ela. O duro é viver eternamente com isso”. O pai aguarda a conclusão do segundo inquérito para definir que decisão vai tomar em relação às empresas de saúde envolvidas na morte de Susy.

Aprimoramento
O POPULAR tentou descobrir se o episódio envolvendo Susy Nogueira provocou mudanças no atendimento do Hospital Goiânia Leste e da OGTI. O estabelecimento hospitalar informou que “dentro da sua política de segurança do paciente ampliou os treinamentos para os funcionários, incrementou em seu processo de seleção de novos métodos, como a realização de avaliações psicológicas e intensificou o monitoramento de câmeras”. O hospital diz que também faz aprimoramento contínuo de proteção ao paciente por meio do Núcleo de Segurança do Paciente, formado por vários profissionais da saúde.

Em nota, a OGTI esclareceu que “sempre dispôs de eficientes processos de controle e segurança do paciente, inclusive com a manutenção de um sistema de câmeras de vigilância em toda UTI, tanto que foi possível identificar o lamentável episódio, com a adoção das providências em desfavor de seu colaborador”. Após a morte da universitária, a empresa diz que incrementou em seu processo de seleção a realização de avaliações psicológicas e outras pertinentes ao exercício das funções profissionais.

Tragédia inspira parlamentar a criar lei sobre UTIs

A morte de Susy Nogueira levou o deputado estadual Cairo Salim (PROS) a apresentar um projeto de lei na Assembleia Legislativa obrigando hospitais públicos e privados a instalar câmeras de segurança em suas dependências que deverão funcionar ininterruptamente e as imagens terão de ser guardadas por, no mínimo, seis meses. Pelo texto, os aparelhos deverão ser instalados nos corredores, nas salas de atendimento de urgência e nas UTIs, sob pena de multa de R$ 10 mil a cada mês de descumprimento, recurso que será revertido para o Fundo Estadual de Saúde.

Embora já batizado pelo parlamentar de Lei Susy Nogueira, o projeto se encontra neste momento na Diretoria Parlamentar da Assembleia Legislativa. Depois ele segue para a Comissão de Saúde e Promoção Social, para a primeira análise.