O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 vai ocorrer nos domingos 17 e 24 de janeiro. Depois de muita polêmica até a nova data ser acertada, estudantes esperam se sair bem na prova por conta do prazo maior que tiveram para rever os conteúdos, mas relatam ansiedade motivada pelas mudanças drásticas que tiveram de enfrentar para se adaptar a um novo estilo de estudo em casa.

Inicialmente agendada para os dias 1º e 8 novembro do ano passado, a avaliação foi remarcada por conta da pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2). O então ministro da educação, Abraham Weintraub, chegou a dizer em março que alterar a data do exame seria o mesmo que “matar uma geração”, porque isso atrapalharia o ingresso de muitos profissionais nas universidades e, consequentemente, atrasaria as formaturas e a entrada no mercado de trabalho.

Mesmo assim, em julho do ano passado um novo calendário foi aprovado e as avaliações foram transferidas. As provas impressas serão aplicadas em 17 e 24 de janeiro; a versão digital ocorre em 31 e janeiro e 7 de fevereiro e a reaplicação ficou para os dias 24 e 25 de fevereiro. Os resultados estão agendados para começarem a ser divulgados a partir de 29 de março. Além disso, por conta dos casos de Covid-19, os participantes precisarão obedecer a uma série de regras.

O estudante Lucas Rodrigues da Costa, de 17 anos, quer cursar Medicina em uma universidade federal. Ele também afirma que tem se dedicado muito aos estudos, mesmo com as mudanças impostas pelo distanciamento social que obrigou os estudantes a acompanharem as aulas de casa. O estudante acredita que está preparado para o exame e diz que tem se cuidado para não contrair o vírus da Covid-19 e, assim, ter prejuízo com a realização da prova na data certa.

Isso porque quem estiver com a doença não deve comparecer ao local de prova nas datas marcadas. Essas pessoas poderão apresentar os documentos com a comprovação de contaminação pelo coronavírus ou outras doenças para que uma comissão do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) faça análise para liberação da participação na reaplicação do exame (leia mais no quadro ao lado).

Lucas diz que a unidade de ensino onde estuda ofereceu condições e estrutura para continuidade dos estudos e que se sentiu mal por isso. “Essa pandemia fez a gente pensar em muita coisa e eu sei que muitas pessoas não têm essa oportunidade de seguir os estudos de casa. Desse ponto de vista, sempre defendi a mudança de calendário para que todos os alunos também pudessem ter um prazo maior.”

O estudante destaca que sentiu falta das aulas presenciais, mas que está tranquilo. “Eu sei que fiz o que pude e, como foi difícil pra mim, foi pra todo mundo.” Ele acrescenta que tem sentido ansiedade, mas que acredita que está bem preparado.

O prazo maior é um dos motivos de alívio para a estudante Laysa Barbosa Pontes, de 17 anos. Ela cursa a 3ª série do ensino médio e diz que, mesmo tendo se dedicado aos estudos nos últimos três anos, a mudança, longe das salas de aula, causa um certo medo. “Estudar de casa, acompanhar pela internet é muito diferente do que a gente estava acostumado. Não foi fácil e não sei se foi como eu gostaria, mas no geral, estou confiante que farei uma boa avaliação.”

Ela estuda em uma escola particular e conta que sente falta da rotina na unidade. “Estudar em casa é uma modalidade que cobra uma autonomia maior do aluno, disciplina. Além disso, sinto falta das discussões em sala de aula, quando cada um dava sua opinião, tirava dúvida direto com o professor. Sem contar no alívio do estresse com os amigos na hora do intervalo. Realmente mudou muito e não tivemos escolha.”

A estudante, que busca uma vaga em universidade federal no curso de Educação Física, acrescenta que completou o conteúdo do ano dentro do prazo programado e que desde então tem se dedicado à revisão. Laysa já havia participado da avaliação com o objetivo de conhecer a prova. “Não estou com medo da prova, mas estou ansiosa para fazer logo, para saber como será meu desempenho.”

A estudante Camila Neres de Sousa, de 18 anos, estudou na rede pública e está ansiosa pela prova. “Eu terminei o ensino e quero fazer a prova novamente, mas essa pandemia e ter começado a trabalhar mexeu muito comigo. Mas eu mantive o foco, assisti às aulas on-line, aos conteúdos disponíveis pela rede estadual, em canais do YouTube.”

Ela conta que sua rotina é difícil, mas planeja cursar Enfermagem em uma universidade pública. “É um sonho, quero muito ser enfermeira e tenho lutado por isso. Depois da pandemia, isso ficou mais forte e tenho mais certeza do meu objetivo e é por isso que tenho me dedicado, mesmo com as dificuldades.”

 

Mudança refletirá nas provas

Professor de filosofia e coordenador do ensino médio do Colégio Agostiniano Nossa Senhora de Fátima, Thiago Pinheiro Oliveira afirma que os estudantes que ele acompanha sentiram o impacto da mudança causada pela pandemia e acredita que isso pode refletir nas provas. “A gente fala de conteúdo, mas esse foi repassado na integralidade. O que afeta é o emocional. A 3ª série do ensino médio é um ano de transição, último ano em uma escola. E quebrar isso com uma pandemia mundial realmente marca esses alunos.”

Ele lembra que, quando as escolas tiveram as aulas suspensas, em março, existia a expectativa do retorno e isso causou ansiedade nos estudantes. “Primeiro a gente tinha a ideia de que poderia voltar após a Semana Santa, depois a notícia era de que seria apenas em agosto. Mas só foi possível o retorno híbrido em novembro. Isso tudo afetou a rotina e a ansiedade dos estudantes, especialmente da 3ª série, que se despedem de um ciclo, mas que, neste caso, a distância tem sido virtual. Eles não tiveram como participar da última festa junina, da festa de formatura, entre outras atividades. Isso tudo conspirou para que fosse mais difícil.”

O professor acredita que as aulas virtuais permitem maior acesso aos conteúdos, especialmente quando ficam gravados ou disponíveis de outras formas nas plataformas das escolas. “Este novo modelo exigiu muito mais do aluno, que teve de desenvolver sua autonomia para conduzir seu processo. A depender do perfil do aluno, ele teve ganho ou perda. Para o aluno mais autônomo e responsável, foi um benefício. Muitos relataram facilidade e preferiram continuar de casa quando foi permitido o retorno escalonado”, relata.

Mas por outro lado, ele diz que os alunos que dependem de incentivo ou os que sentem falta dos grupos e das atividades coletivas tiveram prejuízo. “E, como agravante, muitos alunos tiveram momento de culpa por continuarem estudando enquanto tantas pessoas morriam ou adoeciam com a nova doença. Outros se sentiam culpados por terem condições de continuar estudando enquanto outros sequer tinham o que comer porque seus familiares perderam empregos. Então estes alunos que passaram por toda essa transformação em 2020 e que farão essa prova neste mês, certamente terão uma bagagem diferente”, acredita.

 

Exame tem série de protocolos

Para garantir a realização das provas neste mês, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou uma série de regras que deverão ser obedecidas pelos candidatos que comparecerem aos locais de provas. Entre elas está o uso obrigatório de máscaras faciais. E o estudante poderá levar outra para trocar, mas os fiscais poderão verificar os acessórios.

Além disso, as salas de aula terão metade da capacidade para garantir o distanciamento e a recomendação do instituto é que os candidatos não se aglomerem enquanto esperam pela abertura dos portões. Além disso, para quem for sair para o banheiro, a recomendação é lavar as mãos antes e depois de usar o sanitário.

O infectologista Boaventura Braz de Queiroz diz que não existe muito mais do que isso a ser feito. “As pessoas já conhecem as regras. Elas precisam ser colocadas em prática. O melhor é chegar cedo, esperar longe, entrar sem aglomerar nos locais de prova, não tirar a máscara e manter o distanciamento. Se preferir, levar o próprio álcool em gel.”
O médico acrescenta que o maior risco, nestes casos, nem é o contágio de jovens, que são maioria dos inscritos. “Essas pessoas precisam manter a vigilância porque vão andar de ônibus, entrar em unidades de ensino com muitas pessoas. O contágio pode ser leve para o jovem, mas ele pode levar a doença para casa e adoecer um parente. É necessário todo o cuidado de sempre.”

Nas redes sociais, em canais voltados para estudantes em preparação para as provas, há quem diga que não se deve levar comida e preferir água em recipientes com canudos. Mas o infectologista garante que se os estudantes mantiverem a atenção e os cuidados, é possível comer e se hidratar sem riscos.