O segundo dia útil do transporte coletivo após o relaxamento das medidas de restrição para conter o avanço do novo coronavírus foi marcado por atrasos, aglomerações e protestos na Grande Goiânia. Os problemas ocorrem por conta da redução da frota de veículos, aliada à media do decreto estadual que determina que as empresas transportem apenas passageiros sentados. A quantidade de veículos em operação do sistema na rede metropolitana atualmente é desconhecida até mesmo pela Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC).

Normalmente, em um horário de pico, como no começo da manhã ou final da tarde em dias úteis, são cerca de 700 ônibus em operação simultaneamente. No entanto, nesta semana, a quantidade está menor, de acordo com a CMTC, pois as empresas concessionárias, com exceção da Metrobus, que opera no Eixo Anhanguera, retiraram veículos de circulação. “A frota atual foi reduzida pelas empresas que ganharam a liminar na Justiça para não operar como definido pelo contrato de concessão”, informou a companhia.

A liminar judicial, deferida na noite da última segunda-feira (21), atende a um pedido Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (SET) que alega um desequilíbrio econômico-financeiro em razão da situação de emergência no Estado como medida de contenção do novo coronavírus. Pelo contrato de concessão, mesmo sendo uma situação imprevisível, o poder público deveria estabelecer medidas para equilibrar o acordo, de modo a manter o serviço em operação. A decisão do juiz Átila Naves Amaral proíbe que a CMTC instaure qualquer procedimento que discuta o descumprimento do contrato antes de renegociar os encargos do acordo dada a situação emergencial de desequilíbrio.

Assim, a CMTC não pode impedir ou autuar as empresas por não agirem conforme as regras da concessão, e nem mesmo verificar a quantidade de veículos em operação. O consórcio das empresas (Redemob) afirma que tem seguido as regras da CMTC de operar com 100% da frota definida. No entanto, desde a última segunda-feira, usuários têm verificado dificuldades em embarcar nos veículos e nos últimos dois dias há a realização de protestos pela demora dos veículos, em que as viagens estariam em frequência menor do que as definidas nas planilhas. Há decisão judicial do final de março, em favor da Defensoria Pública Estadual (DPE), que determina o uso de 100% da frota para evitar as aglomerações no sistema metropolitano.

Os técnicos do sistema justificam as aglomerações nos terminais e pontos de ônibus com a determinação do decreto estadual para que se transporte apenas usuários sentados. Com a frota total, incluindo veículos de reserva, de 1.285 ônibus, o transporte metropolitano é capaz de carregar, ao mesmo tempo, cerca de 110 mil usuários, mas utilizando apenas a capacidade dos assentos, este quantitativo reduz em 61%, chegando a cerca de 43 mil pessoas. Quando veículos já estão com todos os assentos tomados, a recomendação é que os motoristas não parem nos pontos para ninguém mais embarcar.

Isso faz com que os passageiros fiquem mais tempo nos pontos, o que causa irritação. No final da tarde desta quinta-feira (23), cerca de 20 usuários protestaram na Avenida T-63, no Setor Bueno, após verificarem vários ônibus passando pelo local sem parar, em razão de não poder levar gente em pé. A via chegou a ficar interditada e a Polícia Militar (PM) foi acionada para permitir o tráfego dos veículos comuns, o que só ocorreu cerca de uma hora após o início do protesto. Pela manhã, moradores do Jardim Maranata, em Aparecida de Goiânia, também fizeram manifestação contra o serviço de transporte coletivo, já que os ônibus passam, no início da manhã, a cada 40 minutos, mas saem do Terminal Maranata já cheios, sem conseguir pegar passageiros no bairro. Questionada sobre o motivo dos protestos e se a operação será reforçada nos locais, a Redemob não respondeu até o fechamento desta edição.

 

Aplicativo “De Olho no Ônibus” está fora do ar desde final de março

O aplicativo “De Olho no Ônibus”, implantado em 2014 quando se estabeleceu o Pacto pelo Transporte Coletivo na região metropolitana de Goiânia, sob a justificativa de dar mais transparência à operação, está fora do ar desde o final de março deste ano. A funcionalidade, que também poderia ser acessada pelo site da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), mostrava ao usuário e ao poder público quantos veículos estavam em operação em tempo real. Era possível verificar se um determinado veículo estava dentro do horário programado e trazia as informações quanto ao cumprimento da planilha projetada pela Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC). 

Até o final da tarde desta quinta-feira, o consórcio das empresas concessionárias (Redemob) não respondeu ao POPULAR o motivo da retirada da funcionalidade do ar. A CMTC informou que “esse serviço foi suspenso pelas empresas como medida de contenção de gastos que, inclusive, fez a dispensa de cem funcionários. No entanto, o SiMRmtc continua funcionando”. A Defensoria Pública Estadual (DPE) expediu na segunda-feira (20) uma recomendação ao Redemob para que restabeleça o aplicativo de modo permanente e também que informe “o quantitativo de ônibus circulando diariamente, de hora em hora, em todas as linhas ativas, desde 20 de março”. O documento é de autoria do defensor público Tiago Bicalho.