Em Goiás, 74 mil pessoas que deveriam ter completado a imunização contra a Covid-19 não retornaram aos postos de saúde para aplicação da segunda dose das vacinas. Os dados são da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES) e indicam que 5% dos vacinados que poderiam estar imunizados não completaram o esquema vacinal. Apenas na capital, são 4 mil pessoas, conforme levantamento da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS). 

A SES-GO acredita, entretanto, que este número possa ser menor, isto porque, desde o início da campanha, há problemas no registro das informações no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) por parte dos municípios. 

Os dados apresentados pela secretaria não possuem recortes de quais grupos, mas pelo painel da pasta é possível ver que idosos institucionalizados, por exemplo, que receberam a Coronavac e já deviam estar completamente imunizados, ainda não apresentam 100% de esquema completo. O painel mostra que apenas 62,25% receberam as duas doses.

Em nota, a SES-GO explica que há diferentes cenários nas salas de vacina relacionados às características tecnológicas disponíveis, como informatização e conectividade à internet. “Dessa forma, nem todos os registros de doses aplicadas são digitados em tempo oportuno. Pode ser que algumas dessas pessoas estejam vacinadas, mas os dados ainda não foram registrados”, completa. 

A situação se repete pelo país. No último dia 13 de abril, o Ministério da Saúde divulgou um balanço que apontou 1,5 milhão de pessoas não haviam tomado a segunda dose das vacinas contra a Covid-19 nos prazos indicados, mesmo com os imunizantes disponíveis nos postos de vacinação. O Estado que liderava a baixa procura era São Paulo, com mais de 343 mil pessoas seguido da Bahia, com mais de 148 mil. O terceiro lugar em números absolutos ficou com o Rio de Janeiro, com 143 mil. 

A indicação é de 28 dias para a Coronavac e 84 dias para a AstraZeneca. A Pfizer, que, segundo o laboratório, deve ser aplicada com pelo menos 21 dias de diferença, no Brasil está seguindo a indicação do Ministério da Saúde, que é de três meses. A estratégia que ocorre em meio à escassez de vacinas pode ajudar a proteger mais pessoas em um menor espaço de tempo, já que estudos apontaram alta eficácia da vacina com a primeira dose. 

Pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG), membro do Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização (SAGE) da Organização Mundial da Saúde (OMS) e representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em Goiás, Cristiana Toscano afirma que, embora alguns estudos recentes tenham indicado e apresentado resultados bastante positivos de redução de mortalidade e hospitalização após vacinação com a primeira dose, esse é um efeito coletivo, mas para proteção individual a pessoa só está protegida após a segunda dose. 

“A primeira dose gera o desenvolvimento de anticorpos e esses anticorpos tendem a cair. Isso foi muito avaliado nos estudos de fase 2 e fase 3 dos ensaios clínicos. Inclusive, idealmente, se buscou muito vacinas que pudessem ser efetivas e eficazes só com uma dose, mas isso não foi possível e ficou muito claro nos ensaios clínicos que era necessária mais de uma dose”, explica Toscano. Atualmente, apenas a vacina produzida pela Janssen Farmacêutica, uma subsidiária da Johnson & Johnson, funciona com apenas uma dose, mas não está sendo aplicada no Brasil. 

A consequência então de quem não retorna para aplicação da segunda dose dos imunizantes é que provavelmente a proteção que uma dose de vacina poderia conferir, vai rapidamente cair e essa pessoa vai estar novamente suscetível à infeção. A pesquisadora pontua ainda que não existe um tempo máximo e a recomendação, para qualquer um dos imunizantes, é vacinar assim que for possível. “Esta é a recomendação do Programa Nacional de Imunização (PNI) e da Organização Mundial da Saúde”, completa Toscano. 

 

Eficácia cai quando sem ciclo completo

Uma pesquisa realizada pelo grupo Vebra Covid-19 em São Paulo apontou que a primeira dose da Coronavac não confere imunidade e a eficácia cai conforme a idade e pode variar de 28% a 61% a partir dos 70 anos. O estudo, que reuniu pesquisadores do mundo todo, incluindo brasileiros da Fiocruz, e contou com apoio financeiro da Organização Panamericana da Saúde (Opas), foi publicado na plataforma MedRxiv, mas está na chamada fase pré-print, o que significa dizer que precisa ser revisado por outros cientistas e também por órgãos reguladores. 

Além deste estudo brasileiro, outro realizado no Chile mostrou resultados parecidos. “Tanto os ensaios clínicos quanto os estudos mais recentes de efetividade demonstraram que uma dose não protege. As vacinas inativadas são assim e isso não é uma especificidade da Coronavac. Isso está relacionado ao tipo de plataforma tecnológica utilizada por esta e outras vacinas. Todas as vacinas inativadas requerem mais de uma dose. Isso ocorre pelo fato de o vírus estar morto e assim precisamos de mais de uma dose para ser o que chamamos de imunogênico, que é a capacidade de estimular e gerar anticorpos em níveis protetores”, explica Cristiana Toscano, membro do Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização (SAGE) da Organização Mundial da Saúde (OMS).