De cada cem testes para o novo coronavírus no Laboratório Estadual de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen-GO), 38 estão dando resultado positivo. No início da pandemia, em março, 5% dos exames eram positivos. As informações são da Superintendência de Vigilância em Saúde (Suvisa) da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).

O aumento da taxa de positividade do Lacen-GO, que é o principal laboratório público que faz testes para coronavírus, é compatível com o aumento de mortes e casos confirmados no Estado. Entre os dias 1 e 2 de junho, 419 novos casos foram confirmados no Estado e 24 novas mortes, totalizando 4.293 infectados e 151 óbitos desde o início da pandemia.

“A gente está vendo o aumento dos testes positivos. Ou está tendo mais doença ou se começou a escolher muito melhor as pessoas que podem ter a doença”, afirma o professor e pesquisador do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal de Goiás (UFG), João Bosco Siqueira Junior. Desde o final de março, só casos graves estão sendo testados no Lacen-GO.

Superintendente de Vigilância em Saúde, a epidemiologista Flúvia Amorim diz que como o protocolo de testagem é o mesmo é possível dizer que o aumento notado é resultado do aumento da doença. “Essa tendência de aumento de casos é real. Houve uma aceleração grande nos últimos dias, principalmente da semana passada para cá. Primeiro vem o aumento de casos, depois de internações e depois de óbitos”, alerta.

Flúvia pontua que a taxa de ocupação de leitos para pacientes com Covid-19 estava entre 30% e 40% a semanas atrás e na manhã da última segunda-feira estava em torno de 70%. Outro ponto de preocupação da superintendente, que demonstra esse avanço da doença, foi a lotação da Hospital e Maternidade Municipal Célia Câmara (HMMCC), hospital de campanha da Prefeitura de Goiânia, no dia 27 de maio.

Projeção de pesquisadores da UFG prevê um pico de óbitos de coronavírus em Goiás na segunda quinzena de julho. O estudo calcula a necessidade de uma taxa de isolamento de pelo menos 50% para garantir que não falte atendimento no sistema de saúde do Estado. No entanto, há semanas a taxa de isolamento de Goiás tem ficado abaixo de 40% e chegou a ser a pior do país.

Insumos

Assim como nos casos dos respiradores, os insumos para realizar testes também estão com sobrepreço e maior dificuldade de compra pelas secretarias de saúde. Flúvia Amorim conta que os swabs, por exemplo, espécie de cotonete para fazer a coleta para o exame, custavam cerca de 90 centavos e hoje chegam a valer R$ 3.

A superintendente conta que o Ministério da Saúde sempre abastece o laboratório estadual com kits de PCR, mas o Estado compra os outros itens, essenciais para fazer o teste.

De acordo com Flúvia, atualmente há mais de 20 mil kits disponíveis, mas só 2.800 swabs. Uma encomenda com novos insumos desse tipo deve chegar essa semana.

Presidente da Goinfra e coordenador do Comitê Intersecretarial para Enfrentamento ao Coronavírus, Pedro Sales, informa que há um pregão em andamento para adquirir insumos do teste PCR.

Comparação

Desde o início da pandemia, o Lacen-GO já realizou 6.506 testes do tipo PCR. Os testes rápidos são utilizados para realizar inquéritos sorológicos e apoio de diagnóstico, mas não são considerados os mais eficazes, pois podem dar falso negativo.

A reportagem entrou em contato com os órgãos de Saúde de todas as unidades da federação para saber quantos testes PCR foram feitos. Apenas dez responderam ou tinham essa informação atualizada em seus sites.

Apesar de não ser possível fazer uma comparação entre todos os dez, é possível dizer que o laboratório de Goiás testou menos que os da Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, proporcional ao número de habitantes.

O professor do IPTSP, João Bosco, diz que para se comparar as testagens dos estados é preciso levar em conta o período epidemiológico de cada um e a variação da taxa de positividade deles no decorrer do avanço da doença.

Além disso, João Bosco diz que vários fatores podem justificar isso. Estados que tiveram seus primeiros casos em fevereiro, por exemplo, podem ter comprado testes PCR logo no começo e testado mais casos menos graves.

 

Mais de 2 mil exames em um dia

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia fez a coleta de sangue de 2.600 pessoas das sete regionais de Saúde da capital para um inquérito sorológico que deve resultar em uma estimativa do real número de infectados pelo novo coronavírus. O resultado será divulgado ainda nesta semana. 

Esse é o segundo inquérito da SMS. O primeiro foi descartado, depois que pesquisas demonstraram que o teste rápido tem uma eficiência muito baixa quando utilizado com sangue capilar, retirado pela punção do dedo, e com resultado imediato. 

O novo inquérito foi feito com sangue venoso, levado para laboratório e centrifugado até se retirar o chamado soro, para só então realizar o teste rápido com essa parte do sangue.

O superintendente de Vigilância em Saúde, Yves Mauro, conta que antes de divulgar o caso, todos os pacientes positivados foram avisados por telefone e seus familiares que moram na mesma casa também devem ser testados. 

Outros municípios também vão fazer inquéritos, como Aparecida de Goiânia, Anápolis e Goianésia. A recomendação é que todos também façam o inquérito utilizando sangue venoso, assim como o da capital. 

O professor do IPTSP da UFG, João Bosco, que ajudou a elaborar o inquérito, defende que esse é um tipo de investimento importante das prefeituras para ter uma noção real do avanço do Covid-19.

“Tem muito mérito desses municípios fazerem essas investigações. Isso não é fazer pesquisa, isso é vigilância, é o município saber o que está acontecendo para tomar decisões de forma mais adequada. É um investimento grande do próprio município. Vai ajudar a população inteira, não só um grupo ou outro”, defende o pesquisador.