Atualizada às 19h02 de 21/05/2020*

A reportagem do POPULAR identificou 12 pacientes de oito cidades do interior de Goiás que testaram positivo para o novo coronavírus (Sars-CoV-2) após serem internados no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) por outros motivos. Deste grupo, quatro voltaram para os municípios de origem sem saber que estavam doentes. O Hugo passou por um surto do vírus, noticiado entre o fim de abril e o início de maio, com mais de cem profissionais de saúde afastados por atestado e dezenas de pacientes positivados.

Houve um caso de paciente com coronavírus, após passar pelo Hugo, em Morrinhos; um em Piracanjuba; dois em Goiatuba; quatro em Itumbiara; um em Joviânia; um em Águas Lindas; um em Campos Belos; e um em Corumbaíba (veja quadro).

Um dos casos que mais chamam atenção ocorreu em Campos Belos. O pequeno município, no extremo Nordeste de Goiás, faz divisa com a Bahia e o Tocantins, tem cerca de 20 mil habitantes e já soma 18 casos confirmados de Covid-19. Deste total, 16 podem ter relação com o primeiro registro do município, um idoso de mais de 70 anos, que testou positivo depois de ficar 23 dias internado em uma ala de pneumologia do Hugo, segundo o secretário municipal de saúde de Campos Belos, Guilherme Davi da Silva.

O paciente retornou do hospital estadual de Goiânia sem diagnóstico de coronavírus e com a recomendação de oxigênio domiciliar. Depois de quatro dias em casa, apresentou piora no estado de saúde e foi encaminhado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município, mas não resistiu e morreu.

Após o óbito, foi feita a coleta para o teste, que teve o resultado divulgado alguns dias depois: positivo. Nos dias seguintes, dois* médicos da UPA que realizaram o atendimento também foram diagnosticados com Covid-19, além de familiares da vítima.

“Através deste primeiro contato, tive 16 pessoas infectadas”, relata o secretário Guilherme Davi. A principal suspeita é que o paciente de mais de 70 anos se contaminou no Hugo. “Não tem outra explicação. Como me chega um paciente de pneumologia no município, que não tinha nenhum contato, nenhum caso confirmado, ele vai a óbito e após o óbito na confirmação do Lacen (laboratório estadual) sabe que é Covid?”, questiona o gestor.

Depois desta situação, a cidade passou a ser mais criteriosa com pacientes que chegam de hospitais de Goiânia. Agora, todos recebem visita da vigilância epidemiológica municipal e são monitorados.

Outros casos

Itumbiara, na região Sul de Goiás e com mais de 100 mil habitantes, conta com 16 casos confirmados de Covid-19, sendo que destes, quatro são de pacientes que ficaram internados “em um hospital de Goiânia”, segundo o secretário municipal de saúde, Fábio Marcelino de Oliveira, que não revelou o nome da unidade de saúde por orientação jurídica. A reportagem apurou que se trata do Hugo.

Estes pacientes foram transferidos para a capital para realizar cirurgias e outros procedimentos médicos. Em um dos casos, por conta de um acidente. Três testaram positivo para coronavírus quando ainda estavam internados e dois apresentaram sintomas logo que voltaram para Itumbiara. Um deles chegou a contaminar outro parente, segundo o secretário.

“Foi uma falha na gestão (do hospital) e ocorreu esta contaminação. Nós entramos em contato (com o hospital), pedimos para verificar quais são os protocolos. O hospital afastou alguns servidores, fizeram testes. Depois disso, mudou totalmente, estão mais atentos para não ocorrer novamente”, conta Fábio Marcelino.

Em Goiatuba, na região Sul de Goiás e com cerca de 30 mil habitantes, são dez casos confirmados de Covid-19. Dois deles são de pessoas que estavam internadas no Hugo. “A primeira paciente ficou internada por 34 dias, ao retornar, o Hugo não me informou nada. Com isso, a gente não soube que ela estava contaminada”, descreve a secretária municipal de saúde, Patrícia Leles.

A idosa, de 76 anos, havia sido internada por causa de um acidente vascular cerebral. Ela retornou para a cidade no dia 24 de abril e apresentou sintomas de coronavírus três dias depois. Após ter sido testada positivo, voltou a ser internada na capital, dessa vez no Hospital de Campanha, mas se recuperou e já retornou para Goiatuba. Depois disso, outras pessoas da sua família testaram positivo para o vírus.

O segundo caso semelhante em Goiatuba foi de uma idosa internada no Hugo com o fêmur quebrado. No décimo dia de internação ela apresentou sintomas gripais e o resultado positivo do teste saiu na última sexta-feira (15). Ela mora em um lar de idosos. Para não colocar os outros moradores em risco, permanece isolada em um quarto do hospital municipal.

“É uma situação muito preocupante, porque a gente não recebe orientação do próprio Hugo. Não tem comunicação. Está todo mundo em pânico. Quando regula ressonância (para Goiânia), está sendo melhor pagar aqui (na rede privada) do que correr risco de só ir fazer ressonância e se contaminar”, relata a secretária municipal.

 

Tempo de incubação pode confirmar local de contágio

O período médio de incubação do vírus causador da Covid-19 é em média de 4 a 6 dias, segundo a médica epidemiologista e infectologista Cristiana Toscano, vinculada ao Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP), da Universidade Federal de Goiás (UFG). Apesar desta maior probabilidade, o tempo pode ser maior ou menor. É possível chegar a 14 dias. Por isso, nem sempre há certeza absoluta se estes pacientes que ficaram internados no Hugo foram contaminados dentro do hospital ou se já foram hospitalizados com o vírus.

Os dois pacientes citados na reportagem dos municípios de Piracanjuba e de Águas Lindas apresentaram os primeiros sintomas no 15º dia de internação. Já um de Corumbaíba e um de Goiatuba, os primeiros sintomas ocorreram no 10º dia de hospitalização. Em quatro casos, os pacientes apresentaram os primeiros sintomas e foram testados depois que saíram do hospital. Nos outros quatro casos, três de Itumbiara e um de Morrinhos, a reportagem não foi informada sobre o intervalo entre a internação e os primeiros sintomas. 

Em reportagem do POPULAR do dia 2 de maio, sobre este caso de Águas Lindas, a superintendente de Vigilância em Saúde de Goiás, Flúvia Amorim, afirmou que só é possível ter certeza da contaminação hospitalar quando os sintomas aparecem depois do 14º dia de internação, com o paciente hospitalizado. Na mesma matéria, Cristiana Toscano disse que estudos internacionais demonstram que 97,5% dos infectados com coronavírus desenvolvem sintomas em até 11,5 dias.

A doutora em Saúde Pública e epidemiologia, Erika Silveira, sugere que os hospitais deveriam testar os pacientes antes da internação e ao final. “O hospital tem de isolar este paciente que entrou por outra causa e pode ser assintomático de Covid-19 e está espalhando o vírus no hospital”, alerta. 

Além disso, ela pontua que mesmo o paciente estando internado, ele pode ter pegado o vírus de diferentes formas. A pesquisadora diz que é preciso saber mais informações sobre o paciente positivado, se ele circulou pelo hospital, se ele tinha acompanhante ou recebia visitas, por exemplo.

 

Nota técnica vai mudar regras de internação 

Um grupo formado por integrantes do Centro de Operações de Emergência (COE) de combate ao Covid-19 em Goiás está preparando uma nota técnica com orientações para notificação e monitoramento de pacientes do interior atendidos em hospitais da capital e outras cidades. O objetivo é evitar que estes pacientes voltem para os municípios com o novo coronavírus sem o diagnóstico, ou que sejam internados sem que a administração do hospital saiba que são positivos para o vírus. 

A mesma nota também vai ter orientações para melhorar o monitoramento de profissionais de saúde positivados com vários vínculos de trabalho. Há relatos de médicos e enfermeiros que tinham Covid-19 e foram afastados de um local de trabalho, mas continuaram a frequentar outras unidades de saúde que atuavam, principalmente no interior.
 
A elaboração dessa nota foi provocada pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) e pelo Conselho de Secretarias Municipais (Cosems-GO), que fazem parte do COE, após casos de pacientes do interior positivos para coronavírus depois de passar pelo Hugo, principalmente o de Campos Belos, no qual um idoso infectado depois de voltar do hospital estadual pode ter levado à contaminação de 16 pessoas. Também há relatos de pacientes do interior positivados após internação em outros hospitais, públicos e privados. 

A presidente do Cosems-GO, Verônica Savatin, defende que a questão dos pacientes do interior que voltam com o vírus depois de ser internados precisa de ações rápidas e imediatas para que isso não volte a acontecer, tanto por parte da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO), como por parte da organização social que administra o Hugo, o Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS). 

“Ninguém foi internado por conta de Covid. Foi (para o Hugo) por outro motivo e acabou levando ou adquirindo o vírus”, explica a promotora Karina D’Abruzzo, que participou de reunião do MP-GO com o promotor Marcus Antônio Ferreira Alves e representantes da SES-GO na última segunda-feira (18). A definição da nota técnica começou a ser definida no encontro.

Possibilidades
Nesta reunião foi elaborada uma proposta de nota técnica que obriga todos os hospitais, públicos e privados, a informar o afastamento de seus trabalhadores, por suspeita ou confirmação de Covid-19, aos conselhos de classe de cada área, no prazo de 24 horas.
Outra proposta feita na reunião foi a de obrigar a testagem de pacientes, no momento da internação e liberação dos mesmos, em unidades de saúde de Goiás. Além disso, toda alta de paciente, de qualquer hospital, deverá ser comunicada à secretaria municipal de saúde do município da pessoa hospitalizada. 

Essa proposta de obrigatoriedade de testar pacientes esbarrou em algumas dificuldades técnicas alegadas durante reunião do COE na tarde de quarta-feira (20). Uma das questões seria a quantidade de insumos para realizar os testes, que o Estado não possui atualmente. Já os testes rápidos têm uma probabilidade alta de dar resultado falso negativo. Por isso, não seria possível garantir que o paciente não tivesse o vírus. Há também propostas de que todo paciente fique de quarentena após receber alta, como garantia de segurança. 

O assunto já vem sendo estudado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia, que após estudo chegou a um consenso sobre a necessidade de se testar, para Covid-19, o paciente que vai realizar cirurgias eletivas, como em casos de diagnóstico de câncer e problemas cardíacos. Essa experiência deve ser utilizada para a elaboração da nota técnica.
Outra questão, que ainda será mais bem definida, diz respeito a qual protocolo seguir quando o paciente que está prestes a ser internado por outro motivo, que não seja coronavírus, testar positivo para Covid-19. Há preocupação de que hospitais possam reagir, não querendo atender aquele paciente. 

O INTS, por exemplo, conseguiu uma decisão favorável no Judiciário para transferir nove pacientes com coronavírus que estavam internados no Hugo. Por nota, a OS explicou que a unidade tem perfil de trauma e ortopedia, sem infraestrutura para este tipo de atendimento. Os casos abordados na decisão judicial teriam características de outros hospitais especializados em coronavírus, segundo a organização social.

Na saúde pública de Goiás, pacientes com coronavírus e que tenham outras doenças mais graves continuam internados em seus hospitais de origem, se tiver as especialidades médicas necessárias para a outra necessidade, ou são transferidos para o Hospital das Clínicas (HC), em Goiânia. 
Reportagem do POPULAR da semana passada mostrou que o Hugo estava com mais de 30% dos leitos bloqueados para poder garantir o isolamento dos pacientes com coronavírus. 

 

OS afirma seguir todas as medidas de segurança

O Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS), organização social (OS) responsável pela gestão do Hugo, informou que nas datas em que os pacientes citados na reportagem foram positivados, já estava preconizado pelo Ministério da Saúde que a contaminação de Covid-19 é do tipo comunitária. “Pelas datas de internação e sintomas, não se pode aferir o local da contaminação”, defende a entidade gestora.

Ainda de acordo com o INTS, o Hugo cumpre todos os protocolos de higienização, uso de equipamento de proteção individual (EPI) e testagem de pacientes com sintomas. Segundo a OS, todos recebem orientação dos cuidados após a alta. O INTS também informou que não vai se pronunciar individualmente por paciente, já que o hospital não pode falar de condutas e situações não autorizadas pelos mesmos. 

Por nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) reforçou a posição de que o Hugo segue todas as recomendações sanitárias internacionalmente adotadas para o cuidado de seus pacientes e profissionais, com treinamento contínuo da equipe multiprofissional e disponibilidade de EPIs necessários para o trabalho.

Ainda de acordo com o órgão, não é possível garantir com certeza, o local em que um paciente atendido em alguma unidade de saúde foi contaminado com coronavírus. “O paciente pode ser admitido sem sintomas de Covid-19 e, ainda assim, já chegar contaminado pelo vírus, especialmente se tiver vindo encaminhado de outra unidade de saúde, pois o tempo de incubação do vírus é de 7 a 10 dias”, diz trecho da nota resposta.

*Inicialmente a reportagem informou que seis médicos de Campos Belos testaram positivo para Covid-19 após atender paciente que havia retornado do Hugo. Na realidade, dois médicos testaram positivo para coronavírus nos dias seguintes ao atendimento