A família da estudante de Arquitetura Susy Nogueira Cavalcante, de 21 anos, enquanto estava internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Goiânia, deveria ter sido informada sobre o fato antes mesmo da unidade de saúde registrar a ocorrência na polícia. Um técnico em enfermagem de 41 anos foi indiciado pelo crime. A afirmação é da presidente da Comissão de Direito Médico, Sanitário e Defesa da Saúde da OAB Goiás, a advogada Caroline Regina do Santos.

Ela pontua que todo hospital que está em guarda de um paciente deve fazer constar toda informação sobre o paciente no prontuário “com riqueza de detalhes” e, no momento que acontece qualquer adversidade, esta deveria ser informada imediatamente à família.

“Antes de eles terem feito o boletim de ocorrência, eles deviam ter informado a família. Não poderiam ter pensando em somente se resguardar com o boletim de ocorrência”, afirma a presidente da comissão. A advogada ainda acrescenta que “a quebra de sigilo do paciente só poderia ocorrer com anuência da família”. “Antes de (o caso) ter ido à polícia a família teria de ter sido avisada”, ressaltou. Esses procedimentos, disse, valem para qualquer clínica de saúde e hospital.

Susy foi internada no dia 16 de maio na UTI do Hospital Goiânia Leste, após uma crise de convulsão que teria ocorrido durante uma aula. O abuso sexual contra ela aconteceu na madrugada do dia 17 e foi registrado por câmeras de segurança. Ela morreu no último domingo (26). A causa da morte ainda depende de exames complementares para ser esclarecida, conforme anotação na certidão de óbito da estudante, e deverá ser investigada em um novo inquérito.

O pai da vítima, que é policial civil aposentado, afirmou que só tomou conhecimento do abuso sofrido pela filha no velório dela na última segunda-feira (27), quando o corpo precisou ser retirado da cerimônia para passar por exames no Instituto Médico Legal (IML). Nesta sexta-feira (31), em entrevista à imprensa após deixar a Corregedoria da Polícia Civil, ele disse acreditar que a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), delegada Paula Meotti, deveria ter informado à família quando tomou conhecimento sobre o caso (leia mais na página 13). O policial civil aposentado ainda avalia que a delegada poderia ter solicitado a transferência da jovem para outro hospital.

Mesmo após o abuso, Susy seguiu internada na UTI da unidade. Ela conseguiu relatar o abuso para uma enfermeira. O suspeito de cometer o abuso, o técnico em enfermagem Ildson Custodio Bastos, de 41 anos, segundo a empresa responsável pela UTI na unidade, a Organização Goiana de Terapia Intensiva (OGTI), teria sido afastado ainda no dia 17, sendo demitido por justa causa no dia 21, mesma data em que a empresa informa ter registrado a ocorrência na Deam. Desde quarta-feira (29), ele está preso preventivamente.

Nesta sexta-feira, a delegada Paula Meotti finalizou o inquérito sobre o caso do abuso, que foi encaminhado à Justiça, indiciando o técnico em enfermagem. Se condenado, Ildson poderá responder por estupro de vulnerável. Ele nega o crime.

Quanto aos questionamentos do pai de Susy, a delegada Paula foi procurada para se posicionar, mas as ligações não foram atendidas. A Polícia Civil, em nota, informou que a conclusão do inquérito se deu em tempo inferior ao exigido por lei e ainda esclareceu “não haver qualquer indício de prevaricação por parte da delegada, que atuou com profissionalismo e êxito”.

Ainda em nota, a Polícia Civil informou que “a família foi informada do crime pelo hospital, conforme relatado durante os depoimentos na delegacia e em nota técnica do hospital. À Deam coube apurar apenas a situação de abuso sexual.”

 

Profissional de saúde é indiciado por estupro

O técnico em enfermagem e suspeito de praticar o abuso contra a estudante de Arquitetura Susy Nogueira Cavalcante, Ildson Custódio Bastos, de 41 anos, foi indiciado nesta sexta-feira. Ele vai responder por estupro de vulnerável. Ildson se entregou no início da tarde da última quarta-feira (29) e foi detido devido a um mandado de prisão preventiva. Se condenado, ele pode pegar de 8 a 15 anos de prisão.

Ao ser informado do indiciamento do suspeito, o pai de Susy afirmou que como pai sempre espera mais. “A Justiça, principalmente, divina é 100%, mas também a Justiça dos homens que está trabalhando muito bem e está conseguindo almejar os problemas que realmente inere”.

O pai de Susy conta que teve acesso às imagens do estupro, mas que viu apenas um trecho. “Eu vou ser sincero. Falei para mim basta porque eu já perdi minha filha e quero resolver de imediato. Se eu ficar olhando imagens aqui eu estou é perdendo tempo. Deus dá força para gente não ficar murmurando.”

Ildson já trabalhou no Hospital de Câncer Araújo Jorge de fevereiro de 2015 a janeiro de 2018. Segundo a assessoria do local, ele atuou no setor de Patologia, sem acesso direto aos pacientes. A razão dele ter saído não foi informada.