O médium João Teixeira de Faria, de 78 anos, conhecido como João de Deus, tem uma série de regras impostas para cumprimento do benefício da prisão domiciliar, como não se encontrar com testemunhas ou vítimas. Não há, no entanto, restrição para recebimento de visitas, apesar da regra explícita de que ele deve permanecer no endereço indicado. O POPULAR esteve no endereço do médium ao longo da tarde desta quarta-feira (1º) e constatou pouca movimentação na residência.

A reportagem constatou que apenas uma caminhonete branca entrou no local por uma das três entradas diferentes da casa - cada uma voltada para uma rua diferente -, que ocupa praticamente um quarteirão. Porém, durante a entrada do veículo foi possível perceber que a garagem do local estava cheia de carros. Durante o período que a reportagem permaneceu no local, a caminhonete ainda não havia saído.

Que o imóvel é de posse de João não é segredo para nenhum morador do bairro. “Aqui todo mundo sabe, mas ninguém comenta. A gente prefere deixar quieto”, afirma uma idosa que mora ao lado de uma das entradas da casa do líder espiritual. Entretanto, ninguém da vizinhança afirma ter visto João chegar ao local na terça-feira (31), dia em que recebeu o dispositivo de monitoramento eletrônico e seguiu para o cumprimento da prisão em regime domiciliar. “Sabemos que ele está aí, mas foi bem discreto”, enfatiza um morador da região.

Os vizinhos relataram que João tem a propriedade há mais de 20 anos e que, no início, era uma casa bem mais simples. “Depois de um tempo, ele foi comprando os lotes em volta e aumentando”, pontua o dono de um comércio local. Um outro vizinho que mora ao lado da casa de João explica que, há 15 anos, o líder espiritual tentou comprar a casa dele. “Ele ofereceu para mim e para as outras pessoas um valor bem acima da média, mas poucos aceitaram. O intuito dele era comprar o quarteirão todo e aumentar ainda mais a casa”, afirma.

A defesa de João de Deus informou que os serviços de home care já foram solicitados para o plano de saúde e devem ser iniciados nesta quinta-feira (2). Todavia, não passou informações sobre o estado de saúde do líder espiritual nem sobre a continuidade, em casa, do serviço de segurança particular que foi montado para levar João do Complexo Prisional de Aparecida para Anápolis, com o intuito de salvaguardar a vida dele.

A decisão que permitiu que o médium pudesse cumprir pena em casa foi concedida após análise da justiça de dados apresentados pelos advogados de defesa Anderson Van Gualberto de Mendonça e Marcos Maciel Lara. Entre os argumentos da defesa, consta que João não teria condições de receber tratamento adequado na prisão. A juíza, em sua decisão, ainda citou que concederia o benefício para evitar o contágio pelo novo coronavírus (Covid-19), já que ele é idoso, possui doenças crônicas e, com isso, está no grupo considerado de risco.

O Ministério Público de Goiás (MP-GO) vai recorrer da decisão porque se trata de um réu condenado em primeiro grau com penas que somam mais de 60 anos de prisão. Promotor que coordena a força-tarefa do caso, Luciano Miranda informou que foi intimado no final da tarde desta quarta-feira.

O total das penas aplicadas nos três processos do médium chega a 63 anos e quatro meses. Restam outras dez ações penais. Só em janeiro deste ano, João de Deus foi condenado a 40 anos de prisão em regime fechado pelo crime de estupro de vulnerável contra cinco pessoas. Ele foi preso no dia 16 de dezembro de 2018, em Abadiânia, depois de negociação para que se entregasse.

Médium deve ficar no endereço indicado 24h por dia

O POPULAR apurou que o líder espiritual João Teixeira de Faria, 78 anos, teve o equipamento de monitoração eletrônica instalado no final da tarde de terça-feira (31), por volta das 17 horas, no complexo prisional, em Aparecida de Goiânia, de onde saiu para ir para sua casa em Anápolis, já no início da noite. 
Ele, inclusive, deverá permanecer em casa 24 horas por dia, sete dias por semana. Sua saída só é permitida em um único caso, quando deverá comparecer em juízo, até o dia 10 de cada mês, para informar e justificar suas atividades durante o período de tramitação de todas as ações penais instauradas em seu desfavor.

Nas regras impostas pela juíza Rosângela Rodrigues Santos, da comarca de Abadiânia, ainda consta que o médium está proibido de frequentar e acessar qualquer unidade da Casa Dom Inácio de Loyola para evitar o risco de novas infrações penais da mesma natureza das quais tem sido acusado.
 
Ele também está proibido de manter contato de qualquer natureza com vítimas ou testemunhas arroladas pela acusação em ações penais já instauradas ou a serem, eventualmente, instauradas contra ele. João deve, inclusive, se manter a, no mínimo, 1 km de distância dessas pessoas. Com isso, ele ainda está proibido de se ausentar de Anápolis e do Brasil. Foi obrigatória a entrega do passaporte.