Atualizada às 12h35Elson Oliveira tem 39 anos e há 12 trabalha como entregador. Na noite desta segunda-feira (26) foi proibido de entrar no Condomínio Aldeia do Vale, em Goiânia, porque a cliente pediu a substituição de um motoboy negro por um branco. Ele recebeu a notícia por telefone e veio junto com uma orientação. A gerente da hamburgueria onde ele trabalha disse que não era para finalizar a entrega, mesmo que a cliente fosse até à portaria. Nesta terça-feira (27), ele vai registrar o caso na Polícia Civil.“Quando cheguei à portaria a gerente da Ham Burguer me disse que era para eu voltar e não finalizar a entrega porque tinha sido alvo de racismo. Fui embora sem chão, é um absurdo enorme. A gente se sente muito mal e dói saber que em pleno século XXI a gente passa por isso. Quase 12 anos que trabalho como entregador e é a primeira vez que isso aconteceu comigo. Pra mim a satisfação do cliente é o mais importante. Não dá pra aceitar”, afirma Elson.Pai de três meninas, uma adolescente de 15 anos e duas gêmeas de 8 anos, ele afirma que teme pelas filhas e que se sente triste em saber que elas podem passar por situações assim. “A gente tem que passar por cima, mas dói demais. Eu voltei e continuei trabalhado normal, recebi apoio do meu patrão e ele vai me acompanhar na delegacia. Fico pensando porque a gente tem filhos e quando vê uma situação dessa pensa que eles podem passar por isso. É muito, muito triste”, completa.Proprietário da lanchonete, Eder Leandro Rocha, de 39 anos, disse que Elson é funcionário do estabelecimento há mais de 2 anos e que realiza entregas nos mesmo condomínio com frequência. “Ele é um dos entregadores fixos, mas todo dia temos de três a cinco trabalhando. No Condomínio Aldeia do Vale são pelo menos duas entregas diárias e nossos funcionários já possuem cadastro na portaria. Ontem ele só não entrou direto porque o endereço estava incompleto e quando fomos confirmar, a pessoa disse que não queria esse motoboy”, explica.Eder disse que ficou chocado com a situação e que foi doloroso ter que explicar ao funcionário que ele deveria retornar. “Ele é um cara muito extrovertido e perdeu o sorriso, a animação. Nunca nos aconteceu nada parecido antes. A gente ficou ml a noite toda. Entramos em contato com um advogado e vamos à delegacia. Como o nome utilizado pela conta pode ser de outra pessoa da casa, não vamos divulgar nada. A polícia vai cuidar disso”, finalizou.O casoO caso repercutiu nas redes sociais na manhã desta terça-feira (27) porque os prints da conversa entre cliente e empresa foram divulgados por meio das redes sociais oficiais do estabelecimento Ham Burguer, cuja sede está localizada na Avenida Perimetral Norte, no Setor Goiânia 2, também na capital. “Esse preto não vai entrar no meu condomínio. Mandar (sic) outro motoboy que seja branco. Eu não vou permitir esse macaco”. Estas foram as frases enviadas pela cliente. A mensagem foi recebida às 23h45 quando o motoboy chegou à portaria do condomínio residencial.Elson não tinha tido contado com a moradora, então a gerente da hamburgueria acredita que ela tenha ligado na portaria para perguntar se ele havia chegado e ficou sabendo sobre a cor da pele. Isso porque a casa não fica perto da entrada e não dava para ela saber as características do motoboy. Em uma postagem nas redes sociais, ela disse que o motoboy chegou à sede da empresa sem reação, tendo que fazer outras duas entregas no bairro.Condomínio se manifestaA Sociedade dos Amigos do Aldeia do Vale (Saalva), responsável pela administração do local, afirmou, em nota, que vai apurar se o cliente realmente mora no condomínio e que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. Disse também que está em contato com a hamburgueria para solicitar os dados da cliente que fez o pedido e que “averigou em seus registros da noite do suposto ocorrido e não há registro de nenhuma reação discriminatória por parte de morador no momento em que a equipe da vigilância solicitou autorização para entrada de entregadores”.O documento, assinado pelo presidente da Saalva, Sérgio Cecílio explica que o procedimento é obrigatório para entrada no condomínio. Afirma também que todas as ligações realizadas da portaria para os moradores são gravadas. “O residencial também solicitará ao aplicativo de entrega de comida que informe a localização exata do cliente que fez o pedido, pois seu sistema permite que o solicitante esteja em endereço diferente da entrega do pedido. A Saalva repudia qualquer ato de discriminação e racismo que ocorra dentro ou fora de seu perímetro”.Em 22 anos de existência, a sociedade de moradores diz que jamais aconteceu situação semelhante, seja por parte de sua equipe ou por parte de moradores. Caso haja procedência, alega que “essa foi uma atitude isolada e individual, sobre a qual o condomínio não tem controle, e deverá ser conduzida com o rigor da lei pertinente”. Ver essa foto no Instagram Elson está extremamente feliz com toda a repercussão. Estamos fazendo entrevistas e iremos hoje à tarde na Delegacia. #racismonão #preconceitonãoUma publicação compartilhada por Ham Burger (@ham_burgergyn) em 27 de Out, 2020 às 6:49 PDT