Com quadro geralmente assintomático, crianças e adolescentes têm apresentado menores índices de letalidade para a Covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), em todo o mundo. Ainda assim, apenas em Goiânia foram 16 casos confirmados: nove com idades abaixo de 10 anos e sete entre 10 e 19. No Brasil, duas mortes foram registradas em crianças com menos de 1 ano, e outras sete entre 1 e 19 anos.

Ainda não há uma resposta para o comportamento do vírus nesta faixa etária e os estudos são iniciais, mas o alerta das Sociedades Brasileiras de Infectologia (SBI) e de Pediatria (SBP) é que os cuidados sejam redobrados especialmente para prematuros, doentes crônicos pulmonares, cardiovasculares, renais, pacientes oncológicos e ainda os diabéticos e hipertensos. O consenso até o momento é que a menor incidência de casos graves está relacionada à melhor tolerância do sistema imunológico e ao menor número de uma enzima que funciona como receptor pulmonar do vírus e que é menos comum em crianças.

Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), até o último dia 20, duas mortes foram registradas em bebês menores de 1 ano, uma morte com idade entre 1 e 5 anos e outras seis na faixa etária entre 6 e 19 anos. Nenhum dos casos foi em Goiás. No geral, a Covid-19 pode causar internações por síndrome respiratória aguda grave (Srag), assim como o H1N1 e outros agentes como bactérias. Por este motivo, o Ministério também tem divulgado os números de internações por Srag que revelam 3.780 para menores de 1 ano, 4.743 de 1 a 5 anos de idade e 2.711 entre 6 e 19 anos (veja quadro).

Médico infectologista e integrante do Comitê de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (Iiras) da SBI, Luis Fernando Waib acredita que crianças e adolescentes se infectam proporcionalmente em mesmo número que adultos e idosos com a diferença de que a apresentação das doenças nestes casos é mais suave, menos grave. “A questão das crianças é que como evoluem com quadros assintomáticos com maior frequência, podem estar envolvidas na cadeia de transmissão sem que a gente perceba. Se você testar todo mundo, vai ver que tem muita gente com o vírus, mas uma grande porcentagem não tem ou tem poucos sintomas. Isso se aplica às crianças. Só que no Brasil a gente não testa pessoas que têm pouco ou nenhum sintoma”, completa.

A pediatra Fernanda Peixoto é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e médica das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatal do Hospital das Clínicas da UFG e pediátrica do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol). Ela pontua que neste período, outros vírus respiratórios circulam e a sazonalidade coincide de janeiro a junho: influenza, adenovírus, VSR e agora o SARS-CoV-2. Eles fazem quadro clínico semelhante que pode variar de leve com febre, coriza, tosse, espirro, falta de apetite, até quadros graves como pneumonia ou bronquiolite.

No último dia 15 de abril, um menino de três anos testou positivo para a Covid-19 em Anápolis. A informação foi repassada por meio de boletim epidemiológico divulgado pela prefeitura da cidade. Segundo a prefeitura, o menino apresentava quadro estável e foi colocado em isolamento familiar. Os pais do garoto são funcionários de uma fábrica localizada no Distrito Agroindustrial (Daia) de Anápolis e também haviam testado positivo para a doença. A professora da UFG, Fernanda Peixoto explica que, de fato, a criança adoece menos, mas adverte que é preciso tomar muito cuidado e que elas não estão imunes.

“A letalidade do vírus na criança é bem menor, mas não significa que crianças não vão adoecer, não vão para a UTI, não vão morrer de SARS-Cov-2, principalmente o bebê. A gente já teve morte no Brasil e na criança que tem doença crônica. Criança diabética e hipertensa, também pode ter predisposição para uma doença mais grave pelo coronavírus. Os prematuros, principalmente. A gente precisa tomar muito cuidado quando diz que a criança é assintomática, que é quem difunde o vetor da doença, que não vai adoecer. Não é bem assim, as crianças adoecem e adoecem grave, numa proporção infinitamente menor do que, por exemplo, os idosos, mas elas também precisam ser protegidas”, afirma a médica pediátrica.


Cardiopatas requerem mais cuidado
No geral, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estima que a cada cem nascidos vivos, pelo menos um é portador de cardiopatia congênita, que envolve variados tipos de malformações do coração. Isso significa dizer que, em Goiás, o número de cardiopatas nascidos em 2018 – último ano atualizado pelo Ministério da Saúde – foi de aproximadamente 988 bebês. Coordenadora do departamento de cardiologia da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP), Mirna de Sousa explica que este é um dos fatores que podem aumentar os riscos em qualquer indivíduo neste enfrentamento e que nas crianças não é diferente.

“Mesmo que os números não sejam expressivos neste sentido, vale a pena ter cuidado. Já sabemos muitas coisas sobre a maneira que este vírus age no organismo e uma das explicações para esta menor possibilidade de gravidade em crianças é a menor expressão da enzima conversora da angiotensina 2, que é o receptor pulmonar do vírus no corpo. Estes receptores são mais expressivos em adultos e idosos do que em crianças”, explica Mirna.

Atenção
Segundo dados da Associação Metropolitana de Apoio ao Diabético (Amad), o grupo de crianças e adolescentes diabéticos na Região Metropolitana de Goiânia é de aproximadamente 500 integrantes de 9 meses a 15 anos. “Os cuidados que estamos todos tomando, não só crianças, mas adultos diabéticos, é o isolamento desde o início dos casos. Temos consultas marcadas, vamos ao médico regularmente, mas a orientação é tomar cuidados, usar máscaras e álcool em gel e não ir a nenhum lugar que não seja necessário. Se possível, estamos agendando as consultas on-line”, explica a presidente da associação, Luzia de Cássia Ribeiro.

A presidente da Amad diz ainda que em todos os grupos que integra, ainda não há casos confirmados. Ela afirma que, no início da pandemia, muitos pacientes diabéticos e mães de crianças que também possuem a doença ficaram preocupados. “Muitas mães e pais entraram em pânico porque sempre que morria alguém, tinha doença crônica e diabetes era apontada em primeiro lugar. O importante é estar controlado. Se tivermos controle, acompanhamento, não temos riscos acima dos demais infectados”, finaliza.
 

Quimioterapia requer mais cuidados

Crianças e adolescentes que passam por quimioterapia e estão, consequentemente, com a imunidade mais baixa, precisam redobrar os cuidados. Isso porque o tratamento os coloca em grupo de risco para a Covid-19. Em caso de infecção, terão um desenvolvimento mais agressivo da doença. A orientação é que estes pacientes tenham um isolamento mais rígido e que intensifiquem a proteção.

Apenas no Hospital de Câncer Araújo Jorge, entre 1º de janeiro e 22 de abril deste ano, o Setor de Oncologia Pediátrica (SOP) atendeu 469 pacientes. Destes, 343 tinham entre 0 e 14 anos; 96 entre 15 e 19 anos; e 30 tinham mais de 19 anos. Isso porque, quem começa o tratamento no SOP sempre volta para lá. A oncopediatra do Hospital de Câncer Araújo Jorge, Patricia Carneiro de Brito explica que a orientação da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) é, se possível, suspender a quimioterapia, ou reduzir as doses do medicamento, nos casos de pacientes cujo tratamento está numa fase mais tranquila. “Em todo caso, trata-se de uma análise individual que deve ser feita pelo oncologista responsável.”

Apesar disso, a médica esclarece que os pacientes que terminaram o tratamento há, no mínimo, três meses, voltaram a ter o sistema imunológico normal e já não se encaixam no chamado grupo de risco. Apesar disso, precisam tomar todas as precauções gerais.


Suspensão de aulas é medida importante

Em Goiás, as aulas não só em escolas e creches, mas também em universidades, estão suspensas desde o último dia 19 de março. A primeira recomendação da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) foi publicada no dia 15 de março e deu tolerância de funcionamento até o dia 18, na mesma semana, para instituições públicas e privadas. Desde então, por meio de decretos, o governador Ronaldo Caiado (DEM) aumentou o período de suspensão das aulas e o último decreto, publicado no último 19, ficou definida a suspensão até pelo menos 30 de maio. A medida é uma forma de diminuir a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2).
Pediatra atuante em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e pediátrica e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Fernanda Peixoto explica que, de forma geral, escolas creches e berçários têm um papel fundamental em espalhar vírus. Geralmente, uma criança tem, em média, dez infecções virais por ano até os três anos de idade.

“A sensação é de que a criança não melhora nunca, mas pode ser um vírus atrás do outro. Isso é uma característica da primeira infância. Quando vão pra creches, escolas, berçários, além da própria infecção, começam a cruzar com as dos coleguinhas. Levam pra casa, para os pais, avós, irmãos.”

Fernanda acrescenta ainda que todos os anos, de fevereiro a junho, as taxas de internações de crianças em UTIs é alta porque adoecem muito. Ela, que atua em duas importantes unidades de saúde do Estado, o Hospital das Clínicas da UFG (HC-UFG) e o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), afirma que as taxas de infecções graves diminuíram vertiginosamente. “Para controlar a Covid, conseguimos controlar outros vírus. Claro que não dá pra gente viver desta forma, não dá pra fazer isso todo ano. Mas, de fato, o impacto da escola é muito alto de trazer agentes infecciosos para casa”, finaliza.


Menores de 5 anos serão vacinados a partir do dia 9

Com a meta de imunizar 90% das crianças de até 5 anos, começa, no próximo dia 9 a terceira fase da Campanha Nacional de Vacinação Contra Gripe do Ministério da Saúde (MS). Em Goiás, o objetivo é proteger mais de 450 mil crianças sendo 99 mil, apenas na capital. Em 2019, a menor cobertura vacinal do Estado foi registrada nas crianças com idade entre 2 e 5 anos, de 84,59% do público alvo.

A vacinação de rotina que foi interrompida no dia 23 de março voltou à normalidade desde o último dia 16 na capital. A suspensão aconteceu para evitar o contato de pais e crianças com os idosos, primeiro grupo prioritário da vacina da gripe. Apenas em Goiânia são 64 salas de vacinas com dias e horários pré-determinados para funcionamento.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS), estão disponíveis todos os 17 tipos de vacina previstos para crianças, adolescentes, adultos, idosos e gestantes.