O crescimento do número de casos confirmados do novo coronavírus (Covid-19) em Goiás segue ritmo semelhante ao nacional. Como o primeiro registro no Estado completou apenas 15 dias no domingo (29), ainda é cedo para uma comparação mais segura. Entretanto, observando os dados dos últimos nove dias, quando a quantidade de registros do tipo foi de 20 para 58, e utilizando um dos parâmetros de análise dos epidemiologistas, que é o tempo que se leva para dobrar os casos, vê-se que isto ocorreu em períodos de quatro a seis dias. Os dados são do Ministério da Saúde e das secretarias estaduais.

No último dia 21 eram 20 casos confirmados. A dobra foi atingida na última sexta-feira (27), quando os registros chegaram a 49. Intervalo de seis dias. No dia 22 eram 21 casos confirmados e o dobro ocorreu também na sexta-feira, prazo de cinco dias. Mas houve também dobras em períodos mais curtos, como entre os dias 24 e 28. O número passou de 27 para 56 no intervalo de apenas quatro dias. Esta aceleração se deve ao fato de na última quinta e sexta-feira, ter havido dez confirmações em cada um destes dias, o que acelerou a estatística. Depois disto, o ritmo de registros positivos da doença desacelerou para sete e dois casos, nos dias seguintes. Isto tende a prolongar o tempo de dobra das confirmações.

No período dos últimos nove dias, a dobra no número de casos confirmados no Brasil ocorreu em períodos entre quatro e cinco dias. Foi o que aconteceu entre os dias 22 e a última sexta-feira. O indicador foi de 1.546 para 3.417. O valor do dia 23 dobrou no mesmo intervalo, tendo atingido a marca no último sábado. Antes disto, porém, a multiplicação chegou a acontecer em apenas três dias. No Gráfico, é possível ver a evolução dos casos, mas é preciso ressalvar que Goiás só teve o primeiro resultado positivo para a Covid-19 20 dias após a primeira notificação no País. No Brasil eram 200 registros e no Estado de São Paulo 136. Outra observação é a diferença entre as populações.

Os intervalos em São Paulo têm ocorrido entre cinco e seis dias, comportamento semelhante ao do Distrito Federal. A dinâmica dos dados tem se mostrado muito grande desde o primeiro caso no Brasil, em 26 de fevereiro. Nos últimos três dias, por exemplo, as duas unidades da federação apresentaram uma redução no ritmo de crescimento dos casos. Se isto se mantiver por um longo período, o prazo para a dobra de casos vai aumentar. Especialistas acreditam que isto está associado à adoção das medidas que restringem a circulação de pessoas e aglomerações.

Doutora em Epidemiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-doutora em Epidemiologia pela University College London, Erika Aparecida Silveira afirma, com base em pesquisas e dados da China, que o esperado é que a dobra de casos ocorra dentro de cinco dias. A especialista, que também é professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), considera que isto se deve à grande velocidade de transmissão do vírus, muito superior à da gripe, por exemplo. “Nosso crescimento até o momento nos indica que teremos uma curva epidêmica suave, de forma que, se as pessoas precisarem de hospital e UTI, pode ser que tenha leito para todo mundo”, alerta.

A doutora considera que Goiás tomou as medidas assertivas no tempo correto e que este é o principal motivo para que o Estado não apresente uma dinâmica de crescimento nos casos mais preocupante.

Erika lembra que o coronavírus é um inimigo perigoso. Até a tarde de domingo (29), eram mais de 713 mil casos e 33,6 mil mortes em 177 países, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. “A gente não tem noção do que isto vai se tornar”, alerta.

O Ministério da Saúde adotou a política, pelo menos neste momento, de testar apenas os casos graves. O motivo é a escassez de material, maquinário de análise e mão de obra para a tarefa no País. Com isto, os especialistas afirmam que há subnotificação. “É possível que 85% dos casos não procurem um hospital”, diz o diretor científico Sociedade Brasileira de Infectologia do Distrito Federal, Jose David Urbaez. Em Goiás, há casos em que o resultado do exame positivo é passado pela rede privada à Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) sem que tenha havido a notificação.

Atenção

Especialistas ouvidos pela reportagem ressalvam que ainda é cedo para fazer uma avaliação de como a pandemia vai se comportar, tanto em Goiás como no País porque ainda estamos no “começo da montanha”. O termo é utilizado para representar a posição da linha de casos em gráficos, ou seja, neste momento, é impossível dizer qual será o pico da montanha: o número máximo de casos a que podemos chegar.

O diretor científico Sociedade Brasileira de Infectologia do Distrito Federal, Jose David Urbaez diz que neste momento, ainda não tem informação de superlotação de unidades e uma situação próxima de crise. “A situação é de uma epidemia razoavelmente em crescimento”, diz ao avaliar os dados e ponderar ser muito cedo para uma avaliação mais precisa em âmbito nacional e regional.

A superintendente de Vigilância em Saúde do Estado, Flúvia Amorim, diz que o comportamento da contaminação é avaliado dia a dia. “O que nós esperamos é que a nossa aceleração realmente seja menor (que a dos outros Estados) por causa das providências que foram tomadas de uma maneira mais antecipada.” Em Goiás, isto ocorreu logo que houve a confirmação dos três primeiros casos. Em São Paulo, as ações começaram a ser tomadas duas semanas depois.

Os especialistas ouvidos pelo POPULAR defendem o respeito às medidas pelos governos estaduais com o objetivo de manter as pessoas em casa. A explicação é que a maioria dos estudos indica que metade da população terá contato com o coronavírus; 15% vão precisar de cuidados hospitalares; 10%, de maior suporte de saúde; e 5%, de UTI. “Estamos em uma guerra mundial. E todos temos de ir para a batalha e a nossa batalha é leve, que é ficar na nossa casa: o melhor lugar do mundo”, frisa Erika.

Testes

A Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) mantém preocupação com a coincidência do aumento das notificações de dengue em algumas regiões do Estado aos registros de Influenza ao mesmo tempo em que os casos do novo coronavírus (Covid-19) aumentam. 

O motivo é que em alguns casos graves, os sintomas são muito parecidos. Por isto, está em andamento um estudo para que sejam feitas amostragens na população com testes para o Covid-19.

Gerente de Vigilância em Saúde da SES-GO, Flúvia Amorim afirma que não é necessário testar 100% da população para saber o que está acontecendo. “Estamos tentando ver uma forma de trabalhar com amostragem de forma que a gente tenha o resultado desta amostra que seja representativa para todo o Estado.” 

A ideia é que sejam feitos exames por regiões. Ainda está em avaliação se seriam verificadas também as pessoas com sintomas gripais leves e se isto pode ser estendido a quem não apresente qualquer sinal. Neste ano, já são 28.348 notificações de dengue e 13.936 casos confirmados no Estado. 

Embora as notificações tenham reduzido 36% em relação ao mesmo período do ano anterior, é válido lembrar que 2019 detém o recorde histórico no Estado. 

Dos 246 municípios de Goiás, 30 apresentam alto grau para a doença e outros 58 detém a classificação média.