A taxa de ocupação dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) exclusivos para tratamento de Covid-19 em Goiás subiu de 54%, no dia 18 de abril, para 73%, no dia 27, e só não chegou a 92% porque no começo do fim de semana três hospitais aumentaram a capacidade para mais 10 vagas, chegando a 49. Caso contrário, o número de leitos exclusivos disponíveis nesta segunda-feira (27) seria 3 e não 13, como consta nos sites das secretarias de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) e Municipal de Saúde de Goiânia (SMS).

O número de leitos de UTI que não são exclusivos para Covid-19 mas que podem ser usados por pacientes que contraíram o novo coronavírus (Sars-CoV-2) é incerto, pois além dos exclusivos no Hospital de Campanha de Goiânia (HCamp), regulado pelo Estado, e na Maternidade Célia Câmara e no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG), estes regulados pela SMS, há leitos que em pelo menos outros quatro hospitais que já receberam ou estão com pacientes com suspeitas de Covid-19. Nestas quatro unidades identificadas pelo POPULAR, onde também são internados pacientes que necessitam de UTI por outros motivos, como traumas e problemas cardíacos, por exemplo, a taxa de ocupação ficou em 95%. 

Durante 10 dias, O POPULAR acompanhou as páginas dos sites da SMS e da SES-GO todos os dias, sempre ao meio-dia e à meia-noite, anotando o número de leitos ocupados e vagos de UTI regulados tanto pelo município de Goiânia como pelo governo estadual, que juntos controlam mais de 500 vagas. Este número varia conforme a disponibilidade da rede conveniada – hospitais particulares que cedem leitos para o Sistema Único de Saúde (SUS). No dia 18, eram 503. Na segunda-feira (27), havia 507.

Uma das unidades que estão recebendo pacientes com suspeita de Covid-19 sem ter leitos exclusivos é o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), que diz ofertar 13 leitos de UTI pediátricas para crianças com suspeita de infecção e também serve como uma espécie de pré-triagem para um primeiro atendimento antes de as pessoas serem encaminhadas para uma das três unidades de referência existentes.

A reportagem encontrou pacientes em leitos de UTI em três hospitais estaduais: o de Urgências da Região Sudoeste (Hurso), em Santa Helena, e o de Urgências de Anápolis (Huana) e o de Doenças Tropicais (HDT). Já o Hugol, informou que atualmente há 9 pessoas internadas com suspeita de Covid-19, mas sem detalhar se em leitos de UTI ou enfermaria.

Procuradas, as quatro unidades afirmaram possuir leitos exclusivos para Covid-19, apesar de não aparecerem como tais nos sites das secretarias e nem serem considerados nas estatísticas oficiais do Estado. As do Hugol são todas pediátricas. Para o governo estes leitos são considerados como auxiliares.

O superintendente de Atenção Integral à Saúde da SES-GO, Sandro Rodrigues, diz que o aumento do número de pacientes em estado grave já era esperado, conforme vai aumentando o número de vagas e destaca que o HCamp pode estender sua capacidade para até 70 leitos de UTI, se necessário. O hospital tem aumentado o número de 10 em 10, sendo que a última vez que isso ocorreu foi no dia 17. Ele não soube explicar o motivo de aparecer na regulação do Estado entre os dias 18 e 25 apenas 26 leitos e não os 30.

Rodrigues diz que os pacientes em estado grave com suspeita de Covid-19 devem ser encaminhados para leitos de UTI do HCamp, da Célia Câmara e do HC, mas os outros leitos dos quatro hospitais citados pela reportagem são usados como “auxiliares”. A regulação avalia a situação do paciente e, dependendo do quadro, pode encaminhá-lo a uma unidade não-exclusiva.

Assim como Rodrigues, o diretor-geral do HC, José Garcia Neto, lembra que aumentar o número de leitos sem haver demanda para tanto representaria custos desnecessário de manutenção de estruturas e equipes sem uso e também um maior risco de contaminação. O que importa, salientam os dois, é a disponibilidade para fazer esta ampliação de forma rápida.

Garcia Neto também destaca que a experiência destas unidades exclusivas tem mostrado que os pacientes em estado grave com Covid-19 demandam um atendimento mais prolongado. “O número de casos graves (que demandam internação) hoje está abaixo do que esperávamos, mas pode haver um aumento súbito. O problema é que é um vírus de muito fácil transmissão e quem fica mal, fica mal mesmo, que exige um tratamento muito intenso, sobrecarregando o sistema”, comentou.

O HCamp respondeu que o tempo médio de internação de um paciente na UTI da unidade tem sido de 8 dias. Na Célia Câmara, este tempo tem sido entre 7 a 10 dias.

Aumento conforme demanda

Se hoje os três hospitais considerados exclusivos para tratamento de Covid-19 oferecem 49 vagas, a capacidade deles pode chegar a 117, se necessário, garantem seus respectivos gestores. Pelo menos mais 20 vagas estão previstas para serem abertas nos próximos dias, já na expectativa de um aumento no número de casos graves.

Inaugurado no dia 26 de março inicialmente com 10 leitos de UTI, o HCamp já teve duas ampliações neste intervalo de tempo, uma no dia 9 e outra no dia 17, sempre com o acréscimo de uma dezena, segundo a assessoria. A abertura gradual dos leitos é discutida em constante contato com a regulação de vagas feita pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). 

O superintendente de Atenção Integral à Saúde da SES-GO, Sandro Rodrigues, explica que os equipamentos para os leitos de UTI em implementação estão prontos para serem instalados, caso haja necessidade, e que o tempo de abertura depende de questões burocráticas envolvendo contratação de profissionais de saúde. “Não dá para fazer de um dia para o outro a abertura de um leito de UTI, mas é rápido o processo”, diz.

Já a Maternidade Célia Câmara teve a capacidade aumentada de 10 para 12 na última sexta-feira (24) e pode chegar rapidamente para 30, segundo o diretor-técnico da unidade, Marcelo Cupertino. Entretanto, não há uma previsão para que isso aconteça. Apesar de até a noite de nesta segunda-feira (27), a unidade estar com apenas uma vaga disponível, Cupertino disse que havia previsão de alta de alguns pacientes, o que impediria que a maternidade já ficasse lotada por agora.

A capacidade de ampliação de leitos de UTI no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG) é mais limitada, podendo chegar a 17. O diretor-geral da unidade, José Garcia Neto, diz que estas 10 vagas a mais devem ser liberadas já na próxima semana. Ele destaca que as internações por Covid-19 reduzem até a metade a capacidade de leitos em um espaço físico por causa da necessidade de distanciamento entre os pacientes. 

A falta de um acordo sobre a liberação do prédio novo do HC impede que os 40 leitos de UTI disponíveis sejam usados. A não ser que, segundo Garcia Neto, as secretarias municipal ou estadual de Saúde assumam a responsabilidade pela administração do espaço. 

Perfil dos internados

Dos 22 pacientes internados no HCamp nesta segunda-feira, 7 são de Goiânia, 27 do interior e há um paciente do Estado de São Paulo. Há a Célia Câmara conta com um internado oriundo de Anápolis e outro de Aparecida de Goiânia.

O diretor do Célia Câmara explica que as unidades são de referência para tratamento de síndrome respiratória aguda grave (Srag) e que a expectativa é que a demanda aumente não apenas pelo Covid-19, mas porque estamos também “na fase das doenças respiratórias”.

Unidades complementares

O Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) informou que pela unidade já passaram 126 casos suspeitos de Covid-19, sendo apenas um confirmado, além de 9 pacientes que seguem internados. A unidade é retaguarda no atendimento de pacientes pediátricos com síndrome respiratória aguda grave (Srag), dentre as quais, causadas por H1N1 e Covid-19. Atualmente atende duas crianças internadas em leitos de UTI pediátrico. 

O Hospital de Urgência da Região Sudoeste (Hurso), em Santa Helena, relatou que disponibiliza dois leitos de UTI para pacientes com Covid-19 e que até o momento já recebeu quatro pacientes, que contam com uma entrada específica na unidade para evitar riscos de contaminação, sem contato com outros pacientes. Atualmente, há um paciente entubado e um em observação na unidade.

Até o fechamento desta edição, a assessoria do Hospital de Urgências de Anápolis (Huana) não respondeu aos questionamentos do jornal, mas confirmou que a unidade atende pacientes com suspeita de Covid-19 e que havia nesta segunda-feira (27) ao menos um internado na UTI recebendo alta médica.

O Hospital de Doenças Tropicais (HDT), em Goiânia, informou que conta atualmente com quatro leitos de isolamento na UTI adulto e dois na UTI pediátrica exclusivos para Covid-19 e que já recebeu 180 pacientes até o momento, sendo apenas 9 tiveram resultado positivo para a doença. Há no momento duas pessoas internadas com suspeita da infecção na unidade, sendo uma na UTI adulto e outra na pediátrica.

O superintendente de Atenção Integral à Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), Sandro Rodrigues, explica que a pasta evita encaminhar para os hospitais não-exclusivos os casos suspeitos de Covid-19 para evitar risco de contaminação, mas que em uma situação de emergência ou de avaliação dos serviços de regulação, estes serviços podem ser usados, principalmente os do interior.

Apesar da orientação, Sandro reconhece que há casos de pacientes que acabam parando em leitos fora das três unidades exclusivas, assim como chega às vezes paciente para o HCamp com quadro clínico que não é do perfil da unidade. “É muito difícil porque a regulação depende da informação repassada na hora”, comentou Rodrigues, citando o caso de paciente com insuficiência cardíaca encaminhado ao hospital de campanha.

Uma reunião estava prevista para esta terça-feira envolvendo a regulação do Estado e do município de Goiânia para melhorar a forma de encaminhamento dos pacientes.