Foi a cerca de 200 metros de onde se conheceram que Caio Gonçalves Teixeira, de 30 anos, e Renata Pereira dos Santos, de 27, se casaram ontem, 21, depois de 12 meses juntos. O relacionamento começou, como contam, quase que instantaneamente, na calçada da Igreja Matriz de Campinas. Ela pedia a ele um cobertor para passar a noite. Ele concedeu de bom grado. “Foi amor à primeira vista”, garante Renata, que havia acabado de sair da casa da irmã após uma briga e estava determinada a viver nas ruas.

Na cerimônia do casamento, os ex-moradores de rua eram só sorrisos. Ela com uma saia e blusa brancas, ele com uma camisa clara riscada, ouvindo o que a juíza de paz falava, sem dar muita atenção às palavras, enquanto esperavam o momento de trocar alianças. Na sala, parentes e amigos da igreja Assembleia de Deus, do Jardim Novo Planalto, que ajudou o casal. Cerimônia rápida, mas tão significativa para ambos, que garantem que sonhavam há tempos com um dia assim.

Caio fala que há pelo menos três anos, quando foi viver nas ruas, rezava todos os dias para conseguir alguém que pudesse compartilhar a vida, ter uma casa e filhos. Renata apareceu para Caio justo em uma segunda-feira, no começo deste ano, em que um grupo da Igreja Assembleia de Deus aparecia para distribuir alimento aos moradores de rua. A coordenadora do projeto, Sônia Pereira, afirma que o casal já estava junto e feliz, com apenas algumas horas de conversa.

Depois de alguns meses de relacionamento, Renata, órfã de pai e mãe, engravidou e foi mais um motivo para que Caio conseguisse, junto com ela, sair das ruas e arrumar um lar. Depois da descoberta da gravidez, por volta de abril, Renata ficou por cerca de um mês em uma casa de acolhida, até conseguirem um barracão em Campinas. Viveram no local até cerca de 15 dias atrás, quando se mudaram para uma casa no Jardim Curitiba. Caio se dedica ao trabalho de reciclagem, onde já trabalhava mesmo quando vivia nas ruas, pensando agora que o objetivo é cuidar da família.

Antes, viveu nas ruas por cerca de três anos, quando saiu da casa do pai, depois que resolveu que estava cansado de “dar trabalho” à família. “A história de todo morador de rua é igual, só muda o personagem.” Caio diz que usou todo tipo de droga, e quando foi para as ruas deixou o trabalho como auxiliar de serviços gerais. Há um ano, assim que conheceu Renata, resolveu largar o vício e se dedicar à futura esposa. “Tinha fé que iria conseguir uma família e uma casa.”

Davi Lucas, para quem Caio olha sempre como uma grande motivação para permanecer sem vício, completa um mês no próximo dia 25. Renata diz que nunca imaginou que encontraria o amor de sua vida nas ruas, muito menos logo no primeiro dia em que saiu de casa. Ainda sem estabelecer relacionamento com a irmã, é na nova família, além de Emanuele, sua filha de 5 anos, que Renata se ampara. “Não estava preocupada, porque sabia que tudo ia ficar no lugar. Tinha fé.”

Mesmo que tenha passado só três meses efetivamente nas ruas, e sempre ao lado do atual marido, ela guarda péssimas lembranças do que viu e viveu como moradora de rua. “A vida na rua não é fácil. Estou muito feliz de tudo isso ter acabado.”

Durante a cerimônia, Renata por vezes limpava o canto do olho, onde escorria lágrima, enquanto Caio sorria. O compromisso de cuidar um do outro foi firmado perante uma juíza, mas já havia sido estabelecido há um ano, quando se conheceram na calçada da Igreja Matriz de Campinas e dividiram um cobertor.