Atualizada às 22h42

A enfermeira M., de 48 anos, voltou ao trabalho esta semana em duas unidades públicas de saúde de Goiânia. O que ela mais temia aconteceu: no dia 15 deste mês ela descobriu estar infectada pelo novo coronavírus. Depois de saber que pacientes que ela tinha cuidado e colegas profissionais apresentavam sintomas, decidiu, por conta própria, fazer o teste. “Entrei em pânico. É angustiante saber que você está positivo e poder contaminar outras pessoas.” A enfermeira não está sozinha. Desde o início da pandemia o medo ronda os profissionais de saúde.

Em Goiás, a morte da técnica em enfermagem e de laboratório Adelita Ribeiro da Silva, de 38 anos, no último dia 4, acendeu o alerta. Ela atuava em duas unidades, uma pública e outra privada. Também vieram a público as internações dos médicos Almerita Rizério Borges, pediatra, e Alexander Dobriansky, cardiologista, e a morte do servidor da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Javier Martins de Oliveira, da área administrativa. São situações distintas, mas revelam que todos estão vulneráveis, em especial quem se preparou para cuidar da saúde do restante da população.

M. acredita que sua contaminação está ligada à fase inicial da pandemia, quando eram escassos os equipamentos de proteção individual (EPIs). “Máscaras N95 e PFF2 só foram liberadas depois da morte da Adelita, viseiras só chegaram agora. Teve um período que precisei colocar duas máscaras cirúrgicas. Não é o ideal para o momento que estamos vivendo.” A enfermeira, que trabalha em unidades das Secretarias Estadual de Saúde (SES) e Municipal de Goiânia (SMS), também reclama da falta de testes para profissionais na ativa.

“Eu trabalho numa UTI infantil. Um bebê tinha piorado muito e uma fisioterapeuta testou positivo. Pedi para fazer o teste e disseram na minha unidade que não estão liberando testes para funcionários. Tentei também no Cais, ouvi que os testes eram apenas para pacientes graves. Nem voltei para casa. Fui fazer o exame na rede privada”, detalha ela. Ao ter certeza da contaminação, a enfermeira avisou aos superiores e se afastou do trabalho por 14 dias. “Meu maior medo era ter problema respiratório grave, mas não aconteceu. Nos primeiros dias minha boca ficou seca, depois a garganta inflamou e tive dores no olho, na cabeça e diarreia.” As duas filhas que vivem com ela fizeram o teste, mas não foram infectadas.

 

Quase mil servidores estão no grupo de risco

 

O Sindsaúde também tem solicitado o afastamento da linha de frente dos atendimentos de servidores com mais de 60 anos e portadores de comorbidades. Diretora de Recursos Humanos da SMS de Goiânia, Camila Lucas de Souza explica que 10% dos servidores de saúde estão acima de 60 anos, quase mil pessoas. “Estamos fazendo a relocação desses profissionais de forma gradativa para não deixar a população desassistida”. Além do edital aberto para contratação de médicos, a pasta vai publicar nos próximos dias dois novos editais, um para credenciamento de profissionais para a área de saúde mental e outro para contratos determinados para as áreas de urgência e atenção primária.

A SMS de Goiânia não sabe quantos servidores estão no grupo de risco para Covid-19 por serem portadores de comorbidades, mas segundo Camila Souza, eles também estão sendo alvos de atenção. “Criamos um fluxograma, eles estão enviando um email explicando os problemas que possuem, e um médico está fazendo avaliação para saber se estão enquadrados nos critérios do Ministério da Saúde. Em caso positivo, o servidor será realocado.”