Atualizada às 23h59

Profissionais de Goiás têm tido protagonismo no desenvolvimento de pesquisas de relevância nacional e internacional no combate à pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Além dos trabalhos desempenhados em instituições de ensino do Estado, pesquisadores participam de iniciativas que reúnem laboratórios e universidades de diversas localidades e buscam causar impacto positivo no enfrentamento à Covid-19, doença causada pelo patógeno.

Em São Paulo, o médico hematologista goianiense Rodrigo Calado coordena a pesquisa de um tratamento de pacientes com quadros graves da doença a partir da transferência de anticorpos produzidos por aqueles que já foram curados. O trabalho é desenvolvido no Hemocentro de Ribeirão Preto (SP), ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) na cidade do interior, e consiste na transfusão de plasma sanguíneo.

Chamada de transferência passiva de imunidade, a técnica já foi utilizada para tratar outros tipos de infecções virais, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), também causadas por outros tipos de coronavírus, em 2002 e 2008, respectivamente. Atualmente, é testada contra a Covid-19 também por outros países, como Estados Unidos e China, e é vista como uma alternativa diante da ausência de vacinas específicas contra o SARS-CoV-2.

Com o tratamento, que ainda está em desenvolvimento, espera-se reduzir a mortalidade causada pela Covid-19, além de diminuir o período de internação em unidades de terapia intensiva (UTI) e o tempo de dependência de respiradores, minorando assim o risco de complicações, de acordo com Calado. O paciente deverá receber a transfusão do plasma até o 10º dia da infecção, antes de produzir a própria defesa. “Depois que o vírus invade o organismo, leva alguns dias até que passe a se defender. A ideia é dar esses anticorpos precocemente”, diz. “A fonte abundante desses anticorpos está justamente no sangue de pessoas que já tiveram a doença e se curaram.”

Os cientistas buscam garantir que o procedimento seja seguro tanto para o paciente quanto para o doador do plasma. Por isso, alguns pontos são observados. Segundo o coordenador do estudo, Rodrigo Calado, a pessoa que já possui a imunidade tem de estar completamente recuperada para não sofrer prejuízos com a doação. É preciso garantir também que o receptor não terá reações. “Apesar de a transfusão de sangue ser bastante segura e raramente ter uma complicação maior, pode haver reações alérgicas ou anafiláticas quando se transfunde o plasma”, diz ele.

Além disso, há preocupação também com uma possível sobrecarga dos órgãos do receptor, como os pulmões e o coração, em razão do volume de líquido, e é preciso evitar que o procedimento cause ainda mais inflamações ao organismo. Por fim, é necessário assegurar que o tratamento seja eficaz para o paciente. “Não faz sentido fazer um procedimento caro para o doador e não ter o benefício que a gente gostaria. Por isso, é preciso passar por todas as etapas”, explica ele, reforçando a importância da fase de testes a que o método está sendo submetido.

Atualmente, doadores de plasma estão sendo selecionados pelo Hemocentro de Ribeirão Preto (SP). Os voluntários passam por avaliação e os critérios são semelhantes aos definidos para a doação de sangue comum: ser homem ou mulher que nunca engravidou, ter entre 18 e 60 anos, pesar mais de 60 quilos, não ter doenças como hepatite, chagas e sífilis, dentre outros.

Objetivo

O estudo liderado pelo goianiense é realizado com 80 pacientes. A partir dos resultados obtidos, será possível ter noção da dimensão que o tratamento pode alcançar entre a população, conforme explica. Os testes devem apontar como ocorre a resposta ao tratamento e quais pacientes se beneficiam melhor dele.

Após a primeira fase, desenvolvida exclusivamente em laboratórios paulistas, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da USP, o trabalho pode acabar sendo expandido para outros serviços e unidades da federação. De acordo com Calado, profissionais de Goiás já entraram em contato com interesse em desenvolver um trabalho conjunto.

 

UFG desenvolve ventilador alternativo

Um grupo de pesquisa do laboratório de Mecânica Aplicada da Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação (EMC) da Universidade Federal de Goiás (UFG) busca atuar no combate à pandemia do novo coronavírus por meio da criação de ventiladores mecânicos para o atendimento a pacientes com a Covid-19. Docentes, técnicos e alunos de graduação e pós-graduação estão empenhados no desenvolvimento de protótipos que possam ser construídos em indústrias locais com materiais alternativos àqueles atualmente utilizados para a montagem dos equipamentos.

Coordenador das atividades, o professor Sigeo Katatani Júnior explica que o projeto visa o desenvolvimento de uma alternativa feita com materiais comerciais, que seja de rápida fabricação e confiável. “O foco do projeto é baseado no uso de equipamentos industriais que possuem robustez para funcionar em ambiente hospitalar sem causar ou sofrer danos. Os componentes escolhidos têm disponibilidade e estoque nacional e facilidade de montagem, critérios muito importantes para a construção rápida. Acima disso tudo, está a segurança”, explica.

Ao apostar em componentes mais acessíveis para ter maior sucesso na fabricação dos ventiladores, o grupo também precisa garantir que a adaptação do uso terá sucesso, uma vez que o procedimento é extremamente delicado. “Quando o paciente não tem condições clínicas de fazer a própria respiração, ela é feita por uma máquina, que insufla o ar para o pulmão. Isso deve ser feito com muito rigor, para que não haja pressão acima do limite, o que causaria traumas”, diz o pesquisador. “Além de ser preciso, o equipamento tem de ser confiável”, diz o pesquisador, que menciona também a preocupação de os materiais serem resistentes a impactos, por exemplo, e capazes de suportar o funcionamento ininterrupto.

O protótipo já passou por testes e laboratório e, atualmente, está em fase de finalização. Com isso, ele deve ser avaliado e aprovado por profissionais da saúde, o que possibilita que seja colocado em funcionamento. Para a obtenção de peças e a montagem, o grupo conta com parcerias com empresas e indústrias locais de diversos ramos, que forneceram material e conhecimento técnico para treinamento. A exceção são os materiais clínicos, como mangueiras e válvulas, por exemplo, cujos fornecedores têm voltado o atendimento para a produção em larga escala, segundo o coordenador.

Para ampliar a escala de produção, ainda há obstáculos. Katatani diz que o laboratório tem condições de fabricar entre 50 e 80 equipamentos com os recursos que tem em caixa. Com apoio local, ele estima que este número possa aumentar para algo entre 300 e 500 ventiladores. “Estamos tentando todos os tipos de fomento. Replicar este projeto depende de conseguir fechar parcerias”, afirma.

O desenvolvimento do protótipo não é a única iniciativa do laboratório. Em matéria publicada na edição de 11 de abril, outras pesquisas desenvolvidas em instituições goianas para o combate à Covid-19 foram apresentadas, o POPULAR mostrou outra frente de trabalho que busca recuperar respiradores que já não possuíam condições para funcionar. Sob a coordenação do professor Rodrigo Lemos, cerca de 70 aparelhos serão analisados para a recuperação.

 

Estudo busca criar teste mais ágil para detectar vírus

Também na Universidade Federal de Goiás (UFG), um grupo de pesquisadores busca desenvolver um teste molecular mais rápido para o diagnóstico da infecção pelo novo coronavírus, capaz de apresentar um resultado já no primeiro dia dos sintomas. O trabalho se diferencia dos testes rápidos sorológicos existentes atualmente, pois é voltado para detectar a presença do vírus no organismo, e não os anticorpos produzidos, conforme explica a professora Gabriela Duarte, do Instituto de Química da UFG. A análise é feita a partir de amostras de secreções das vias respiratórias, como nariz e garganta.

Segundo a pesquisadora, o princípio utilizado é o mesmo do exame PCR, cuja metodologia é considerada padrão ouro. Ambos detectam material genético do patógeno, mas, a partir do uso de reagentes diferentes, busca-se obter o resultado de forma mais ágil e barata. “O PCR é uma técnica cara, laboriosa e os testes demoram. O mundo inteiro está atrás dos reagentes utilizados nele”, diz ela, explicando o que levou à escolha de outras substâncias. “Os reagentes que utilizamos não concorrem com o do PCR. Têm princípios de funcionamento diferentes.”

O trabalho desenvolvido por Gabriela juntamente à professora Elisangela Lacerda, do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, e quatro estudantes de pós-graduação, parte de outros estudos sobre vírus, como os causadores da dengue, da zika e da chikungunya. Diante da pandemia do novo coronavírus, a docente fez a adaptação. Com isso, o grupo partiu para os testes em laboratório, com o vírus cultivado, para assim poder aplicar a metodologia a amostras reais de pacientes. Antes, contudo, deve haver a validação, com a utilização do método desenvolvido em amostras já confirmadas por outros exames, como o PCR.

 

Grupo atua com produção de conteúdo objetivo nas redes sociais

Além das pesquisas desenvolvidas na própria instituição, o Laboratório de Imunidade Natural do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal de Goiás (UFG) dedica espaço para divulgar estudos científicos feitos em outros países. Com o intuito de divulgar conhecimento de forma rápida e mais acessível, foi criado o projeto Ciência em Gotas, que publica em redes sociais vídeos curtos e objetivos com informações sobre pesquisas relacionadas ao novo coronavírus e à Covid-19.

A primeira publicação foi feita em 30 de março e, atualmente, há 11 participantes envolvidos, entre docentes, profissionais da saúde e alunos de pós-graduação, segundo conta a professora Fátima Ribeiro Dias, que coordena a ação. 

“A ideia surgiu da necessidade de divulgar os estudos. [...]Hoje em dia, as pessoas não querem ler algo muito comprido. Querem ir direto ao ponto principal”, diz ela, que acredita que o formato também favorece a interação e a divulgação.

A escolha dos artigos é feita pela docente em revistas internacionais. A prioridade são estudos que já foram revisados por outros cientistas antes da publicação, conforme explica. Para alcançar um público mais amplo, as áreas escolhidas variam entre imunologia, virologia, infectologia, pediatria, dentre outras. “Há uma grande preocupação com a rapidez das publicações, pois estudos não conduzidos dentro dos protocolos científicos pré-estabelecidos podem induzir a conclusões ainda não definitivas”, explica. “Seleciono os artigos e envio para os participantes. Se eles concordam, preparam os vídeos.”

Ainda assim, sintetizar o conteúdo de um estudo científico em menos de um minuto não é tarefa fácil. Segundo Fátima, o principal desafio é extrair os dados essenciais do artigo e apresentá-los de forma didática e clara. 

“Esperamos divulgar os dados científicos de acordo com as conclusões dos autores e não com opiniões nossas. Mostrá-los contribui para a informação adequada sobre a doença e para despertar sobre a importância da ciência”, diz.
Na rede social Instagram, o conteúdo pode ser encontrado no perfil @lin_ufg.