Um dos protocolos mais importantes, de acordo com especialistas em saúde, para o transporte coletivo na prevenção à proliferação do coronavírus (Sars-CoV-2), que é a manutenção das janelas abertas, não tem sido cumprido por alguns passageiros durante as chuvas. Motoristas afirmam orientá-los, mas ao mesmo tempo entendem a preocupação em impedir a entrada de água nos veículos.

Neste contexto, os profissionais do transporte coletivo demonstram maior preocupação com a saúde de cada um. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindicoletivo), Sério Reis diz que além das janelas fechadas, os motoristas estão preocupados com outras atitudes de usuários que colocam a saúde dos profissionais em risco, como pagar a passagem durante a viagem. “A gente pega em nota, em moeda. Não sabemos quem está ou não infectado. É muito complicado nos dias de chuva. A gente pede para manterem as janelas abertas, mas eles fecham. A gente até entende, mas ficamos com medo.”

Por conta disso, os motoristas informaram que suspenderiam parte dos trabalhos a partir desta sexta-feira. “A gente precisa ser prioridade na vacinação. Temos colegas morrendo, pessoas adoecendo. Não estamos na linha de frente dos hospitais, mas somos nós quem levamos os profissionais para continuarem trabalhando. Nem todo mundo tem sintoma e gente com a doença entra nos nossos ônibus. Estamos tão expostos quanto outros profissionais que já foram vacinados e sequer temos uma previsão.”

No dia 3 de abril, depois da assembleia da categoria que decidiu pela paralisação, a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) informou que não há previsão para que estes profissionais sejam incluídos na lista de prioridades da vacina contra Covid-19.

O médico infectologista Alexandre Costa diz que concorda com o pleito dos motoristas. “Qualquer pessoa que trabalha em aglomeração por motivo de força maior, que não tem como se proteger, que está exposto, deve ser prioridade.”

O infectologista Alexandre Costa diz que a ventilação impede a concentração do vírus, o que é necessário para a continuidade do serviço. “Mas como eu vou falar para esse usuário que ele tem que pegar chuva durante a viagem? Se tivesse que radicalizar, esse tipo de transporte nem poderia ocorrer, especialmente nestas situações, mas não sei como isso poderia acontecer. Digo do ponto de vista epidemiológico.”

O médico acrescenta que além das janelas, todos os usuários ainda precisam manter os outros protocolos. “Todos já sabem quais são, mas ainda tem gente que se recusa. Tem que usar o álcool em gel, a máscara.” Ele comenta que cidades de São Paulo já utilizam revestimentos para a área interna dos veículos com substâncias que neutralizam vírus e bactérias. “Se for para manter esse tipo de serviço público, é preciso buscar alternativa ao que se vê hoje.”

O médico ainda entende que a aceitação de dinheiro pelos motoristas deveria ser suspensa durante a pandemia. “Esse é mais um meio que pode facilitar a contaminação.” As empresas recomendam que os passageiros priorizem uso dos cartões, mas não há exigência de exclusividade desta modalidade.

A infectologista Marianna Tassara afirma que o risco de infecção é maior com as janelas fechadas, especialmente quando tem mais pessoas do que o limite para garantir a distância entre os passageiros. Ela entende que seria necessário manter espaçamento, além das janelas sempre abertas. A médica se preocupa, ainda, com o motorista do ônibus. Para ela, era necessário que ele tivesse algum tipo de cabine que pudesse separá-la dos passageiros.