A pequena Esther Vellasco Dal’Col, nascida em Goiânia em 25 de maio, apresentou anticorpos contra o coronavírus. A mãe da bebê, Caroline Vellasco Dal’Col, de 36 anos, é médica e atua como clínica geral. Ainda na gravidez recebeu a primeira dose da vacina Pfizer contra a Covid-19 e por curiosidade decidiu realizar o exame aos sete dias de vida de Esther. O caso não é isolado e se repete em outras partes do País com mães vacinadas ou que foram infectadas com a doença. Apesar disso, especialistas afirmam que ainda não é possível dizer se estes bebês estão imunes, nem por quanto tempo.

Caroline atende no Posto de Saúde da Família (PSF) Recanto das Minas Gerais, em Goiânia, e também em um consultório particular. No dia 7 de maio, com 34 semanas de gestação, ela recebeu a primeira dose da Pfizer, por estar no grupo prioritário dos profissional de saúde. O pai, Kaio Cesar Dal’Col Oliveira, de 30 anos, também é medico.

Esther passou por uma exame chamado anticorpos IgG neutralizantes anti SARS-CoV-2. A princípio, a mãe fez por curiosidade, para saber de que forma a vacina havia se comportado no organismo da filha. O valor de referência do exame era 33,8 e a recém-nascida apresentou 114.

“Quando saiu o resultado pareceu um sonho e eu só chorava e agradecia a Deus. A única esperança de voltarmos a ter uma vida normal novamente é a vacina e continuarmos seguindo os protocolos recomendados. Se cada um fizer a sua parte, esse pesadelo passará logo. Temos que ter fé e esperança. E como conselho: não subestimem a vacina, apesar da manifestação em cada paciente ser diferente, é a única e mais eficaz alternativa que temos eu e minha filha somos prova viva dessa benção!”, disse a mãe, emocionada.

Pesquisador do laboratório do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de pesquisa e desenvolvimento da maior empresa Diagnósticos da América, a Dasa, José Eduardo Levi explica que é natural que anticorpos passem pela placenta da mãe para o filho, mas que no caso do coronavírus ainda não é possível afirmar que esta neutralização, resultado do exame, garante proteção.

“No geral, as vacinas resultam em índices mais altos de anticorpos que os infectados. Desta forma, esperamos que filhos de mães vacinadas apresentem valores mais altos que de infectadas. Esses anticorpos conferem imunidade? Provavelmente sim, mas não podemos afirmar isso. A gente não sabe qual é o valor que no nosso corpo, de fato, confere proteção”, completa.

Levi afirma que os testes neutralizantes foram muito utilizados durante os estudos de vacinas e que agora caíram no mercado. No modo clássico, esse ensaio testa o sangue de um paciente contra a capacidade de um vírus que o laboratório possui. No geral, o vírus se replica e mata a célula. Se o paciente possui neutralizantes, o corpo não deixa isso acontecer.

“É um exame caro, demorado e não pode ser feito em qualquer laboratório. As empresas desenvolveram um teste que procura imitar o que acontece no corpo, de forma simplificada. Ao invés de um vírus, tenho um pedaço do vírus e a proteína S do nosso corpo, que é a que o vírus usa para entrar na nossa célula. O sangue do vacinado impede que ele grude e a premissa é que quanto maior o valor dos anticorpos, melhor, mas ainda precisamos de mais estudos”, finaliza o pesquisador.

No próximo mês, Caroline vai tomar a segunda dose da vacina e com a filha amamentando, pretende repetir o exame da Esther. “Durante a gestação senti muito medo até porque continuei trabalhando na saúde, mas sempre seguindo os protocolos e com muita oração. Meus pais tiveram Covid-19, minha mãe ficou 10 dias em uma UTI, mas se recuperou. Irmãos, avós, tios e primos tiveram, mas com sintomas leves. Apenas eu e meu marido não nos contaminamos”, completa a mãe.

Risco de infecção ainda existe

Pediatra e Infectologista, Marcelo Otsuka que coordena o Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) afirma que, para outras vacinas, a produção de anticorpos nas crianças é observada quando a mãe se imuniza durante a gestação. No caso do coronavírus, ainda não há estudos satisfatórios que comprovem a mesma situação, mas que os casos podem acabar trazendo certa tranquilidade.

“Esses anticorpos que a mãe passa pra criança podem, de alguma forma, conferir uma proteção nesse início da vida. O que deve acontecer é que a criança vai perdendo estes anticorpos. Além disso, é preciso ressaltar que eles pode pegar a infecção mesmo assim. No geral, o que temos observado desde o início da pandemia, é que não costumam ter um quadro grave”, acrescenta.

Como exemplo, Otsuka cita a vacina tríplice bacteriana (dTpa) aplicada em gestantes que imuniza contra difteria, tétano e coqueluche. “Uma das grandes causas de mortalidade infantil era coqueluche e o objetivo da vacina foi aumentar os anticorpos maternos e da criança até que ela receba a vacina, o que ocorre aos 2 e 4 meses. Esta é uma maneira de evitar, protegendo a mãe e os filhos. É o mesmo raciocínio, mas no caso da Covid-19, infelizmente, ainda não podemos afirmar se essa proteção existe ou quanto tempo ela dura”, acrescenta.

Outros casos espalhados pelo Brasil 

O caso não é o único já tornado público e pelo país outras crianças se transformaram em notícia. No mês passado, um bebê chamado Enrico nasceu em Tubarão, Santa Catarina (SC) e também apresentou anticorpos contra o coronavírus. A mãe, também médica, foi vacinada com a CoronaVac e até o momento é o primeiro caso no país confirmado de transferência de anticorpos de mãe para filho após aplicação deste imunizante. Outro caso aconteceu no Acre na cidade Cruzeiro do Sul, mas a mãe, que é empreendedora, teve sintomas de Covid-19 no 8º mês de gestação.

Neste mês outros casos ganharam o noticiário com casos similares confirmados em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro; Maranhão e Recife (PE). Em Pernambuco, Ana Carolina nasceu com anticorpos após a mãe Anna Carla Calazans, que é cirurgiã dentista, ter se vacinado com as duas doses da CoronaVac. No Rio de Janeiro, a mãe, de 42 anos, teve a doença no primeiro trimestre do ano e os médicos do Hospital Beneficência Portuguesa, onde ocorreu o parto, decidiram pedir o exame que apontou positivo. Já no Maranhão, a bebê Ayla Sophia Bogéa Araújo adquiriu anticorpos com a mãe, Arleidiane Cabral Bogéa, de 34 anos, que testou positivo para doença no 8º mês de gestação.