Depois de um ano do anúncio de que o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) iria começar a ofertar cirurgias cardiopediátricas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em Goiás, os trabalhos começaram finalmente a sair do papel. Em de agosto, o hospital passou a ofertar atendimento ambulatorial e exames de ecodopplercardiografia. Até o dia 1º de setembro, foram 44 consultas e 7 exames. Agora, as unidades de terapia intensiva (UTIs) estão em construção e a previsão é de que sejam finalizadas ainda este mês para, em seguida, dar início às cirurgias.

Há anos o Hospital da Criança é o único a ofertar cirurgias cardiopediátricas pelo SUS em Goiás e oferece seis vagas de UTI neonatal e outras seis pediátricas. Agora, o Hugol afirma que se estrutura para realizar, a curto e médio prazos, complexos procedimentos, exames e cirurgias cardíacas, como angiotomografia, abordagem híbrida de pacientes, ECMO e tratar doenças como a Síndrome do Coração Esquerdo Hipoplásico (SHCE).

“Procedimentos dessa natureza são realizados em poucos hospitais no Brasil e o Hugol é atualmente o único hospital do Centro-Oeste a realizar procedimentos dessa complexidade 100% SUS. O Hugol reúne todas as características tecnológicas e de recursos humanos para se tornar uma das referências nacionais no tratamento cardíaco adulto e pediátrico”, afirma Maurício Prudente, médico cardiologista na unidade.

No dia 21 de agosto, um procedimento inédito de alta complexidade foi realizado na unidade: o fechamento de fenestração por prótese na paciente Maria Luiza, de 13 anos de idade. Ela nasceu com ventrículo único e já passou por várias cirurgias. Duas delas em Curitiba, pelo SUS, e uma no Hospital da Criança, em Goiânia. A família é de Itapuranga, mas realiza o acompanhamento na capital.

Vida limitada

No final do ano passado, a história de Maria Luiza foi retratada pelo O POPULAR. Na época, a mãe falou que ela estava com uma vida limitada, sem poder correr e sentindo muito cansaço. O procedimento era estimado em R$ 50 mil. Agora, a menina foi para casa e a mãe não poupa elogios. “A Maria Luiza já passou por muitos procedimentos cirúrgicos e é uma criança que necessita de muitos cuidados, só tenho a agradecer a Deus e a todos do Hugol pelo excelente atendimento que ela recebeu”.

Semanalmente são ofertadasdez vagas para consultas ambulatoriais de cardiologia pediátrica e dez vagas para realização de exame de ecodopplercardiografia pediátrico, ofertados através da Central de Regulação Municipal de Goiânia.

 

Estrutura em Goiás ainda carece de melhorias

Mirna de Sousa é coordenadora do Departamento de Cardiologia da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP) e explica que, no Brasil, existem poucos centros de tratamento para doenças cardíacas em crianças porque demandam uma estrutura complexa. A Beneficência Portuguesa não é a única e ela explica ainda que, mas, apesar de alguns centros prestarem assistência às crianças, possuem limitações estruturais. “Atualmente são realizados em Goiás todos os procedimentos cirúrgicos, mas nem todos com bons resultados. O procedimentos mais complexos necessitam de uma estrutura mais robusta e complexa, que é cara. Sabemos que é histórica a falta de investimento em saúde no país, na rede pública e privada também”, completa. 

A cardiopediatra da SGP diz que Goiás carece de UTI pediátrica cardiológica, angiotomografia e ressonância para diagnóstico em crianças. Além disso, pontua que não há no Estado a chamada “estrutura para abordagem híbrida de pacientes”’, que é quando cirurgião e hemodimamicista trabalham ao mesmo tempo. Por fim, não há um aparelho conhecido como ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), que funciona como um coração artificial. 

Coordenadora da Associação Amigos do Coração, Martha Camargo afirma que outro bebê com o mesmo caso do Emanuel, de SHCE, morreu em Goiás na mesma semana em que ele foi para São Paulo. “Se hoje uma mãe com uma cardiopatia complexa me procurar, eu direi: aqui não fazemos com sucesso! Em Goiás, precisamos melhorar os resultados, porque em tese faz de tudo, mas os resultados nas condições mais complexas é ruim”, finaliza. 

A opinião é compartilhada pela cardiopediatra e Mirna acredita que é necessário avançar e montar uma estrutura mais eficiente no Estado. 

“Os poucos pacientes que conseguem tratamento fora custam caro aos cofres do Estado e dos planos de saúde, mas muitos não conseguem sair para buscar esse tratamento. Temos que ter essa estrutura aqui, para atender a todos que necessitem. Temos profissionais capazes”, acrescenta Mirna. 

 

Ipasgo pagou mais de R$ 2 mi desde 2019

Entre os anos de 2019 e 2020, o Instituto de Assistência ao Servidor do Estado de Goiás (Ipasgo) cumpriu oito decisões judiciais referentes a pacientes cardiopatas infantis. Os valores repassados são iniciais e ultrapassam R$ 2 milhões. Apesar disso, o instituto explica que não refletem a totalidade dos valores despendidos com cada paciente. No ano passado, foram cinco casos. Em 2020, além de Emanuel, outras duas crianças já receberam os repasses. 

Além da Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo (SHCE), também foram registrados casos de transplante de células tronco, corretivo de defeito de septo atrioventricular total (DSAVT), correção da anomalia de Ebstein da VT, cirurgia torácica e Tetralogia de Fallot. A última é a pequena Nala, que está com cirurgia marcada para o próximo dia 24 de setembro. 

A professora Jéssica Cristtinny Sousa, de 30 anos, teve quatro gestações e tem dois filhos vivos. Benjamin, de 3 anos, e 2 meses e Nala, de 9 meses, que é cardiopata. Ela conta que descobriu a Tetralogia de Fallot na 32° semana de gestação. “Foi uma luta. Entramos com processo administrativo e não tivemos resposta. Então, acionamos um advogado e entramos com processo judicial. Demorou mais de dois meses, porque o Ipasgo alegou que possuía hospitais credenciados e com médicos capacitados para o procedimento, mas a Justiça determinou o pagamento. Depois de duas semanas, acataram a decisão”, diz. 

Em nota, o Ipasgo afirmou que o Hospital da Criança de Goiânia é credenciado e possui equipe capacitada para realizar os procedimentos. “Além disso, o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF) também foi credenciado pelo Ipasgo, via Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), para realizar esse procedimento”, finaliza o documento.