Aos 71 anos e convivendo com as sequelas de um câncer nas cordas vocais, o acreano Antônio Guilhermino de Deus recebeu diagnóstico da doença no pâncreas. Em Goiânia para o tratamento e sem chance de recuperação, recebeu orientação médica para retornar à sua casa, em Epitaciolândia (Acre), a mais de 3 mil quilômetros da capital goiana, para cuidados paliativos. Impedido de embarcar pela companhia aérea, o idoso e seus familiares viveram dez dias de angústia e incertezas até que uma decisão judicial, por interferência da Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO), obrigou a companhia aérea Latam a aceitar o aposentado em um de seus voos. O embarque, na noite de ontem, foi realizado na presença do defensor público Tiago Ordones Rêgo Bicalho.

“A gente recebe muitos casos na DPE-GO, mas este comoveu toda a equipe”, contou o defensor público ao POPULAR. Tudo começou no dia 25 de fevereiro quando Antônio Guilhermino e seu filho Elison Brito de Deus, 40 anos, chegaram a Goiânia em busca de socorro médico. O idoso ficou internado até 3 de maio no Hospital Geral de Goiânia (HGG) com indicação de cirurgia, mas a equipe médica chegou à conclusão de que nada poderia ser feito. Com um relatório emitido pela médica que atendeu o pai, Elison foi orientado a preparar a viagem para o Acre o mais rápido possível. No dia 7 de maio, no momento do embarque, Elison ouviu de um atendente no balcão do check-in da Latam que o relatório não atendia as exigências da empresa, por isso o pai não poderia embarcar.

“Eu voltei com meu pai para esta quitinete que aluguei e somente ontem (16) tive uma resposta positiva”, disse Elison chorando, visivelmente cansado. A Latam não aceitou o detalhado relatório assinado pela médica Lara Ribeiro Vilela, do HGG, sobre a condição clínica do aposentado, alegando possuir o Medif, ficha própria de informações médicas encontrada no site da empresa. Elison teve de preencher a ficha, buscar uma lan house para digitalizar e encaminhar pela internet. A Latam acusou o recebimento, mas a família não obteve resposta. “Liguei em vários números, foram me passando para muitos lugares, ninguém sabia de nada. Tive de repetir a operação e nada”.

A decisão

Exaurido e sem esperanças, na segunda-feira (13) Elison decidiu procurar o Ministério Público do Estado de Goiás. Lá foi orientado a buscar a DPE-GO. “Ele chegou às 15 horas e o caso nos comoveu tanto que a ação foi feita no mesmo dia e distribuída às 21h40. Às 21h47 o juiz de Direito no plantão disse que não enxergava urgência no caso e o processo foi redistribuído. “Isso atrasou mais três dias o retorno dele”. Somente nesta quinta-feira (16), o juiz William Costa Mello, da 30ª Vara Cível de Goiânia, deferiu o pedido do defensor público Tiago Bicalho de tutela de urgência. O magistrado exigiu que a Latam embarcasse o idoso e seu acompanhante sem custo adicional num prazo de 24 horas sob pena de multa diária de R$ 5 mil.

O próprio Elison levou a decisão judicial ao balcão da Latam, por orientação da DPE-GO. “Eles providenciaram as passagens, mas o atendente disse que no momento do embarque iria “checar” o meu pai”. Foi por este motivo que o defensor público Tiago Bicalho decidiu acompanhar a família ao Aeroporto Santa Genoveva. “Enquanto o pai dele não chegar em casa não vou acalmar meu coração. Existe uma decisão judicial, não cabe a um funcionário da companhia aérea sem conhecimento médico “checar” o passageiro nas condições do sr. Antônio”, comentou o defensor público.

Magro, pálido e debilitado, mas feliz por voltar para casa onde o espera a mulher Benvinda, Antônio Guilhermino viajou na companhia do sobrinho Ariston Guilhermino, que chegou a Goiânia no final de abril para dar um suporte aos parentes. “Nem as pessoas que moram no interior e nem os hospitais têm conhecimento desse documento, o Medif. Se a gente soubesse dessa exigência poderia ter evitado todo este transtorno”, comentou Ariston.

O tempo de viagem seria longo. Antônio e Ariston Guilhermino deixaram Goiânia no início da noite e foram para Brasília. Depois de uma escala de quase quatro horas eles embarcariam para Rio Branco. Após três horas, contando com o fuso horário de duas horas de diferença, os dois desembarcariam por volta de 1h30 da madrugada na capital acreana. A chegada em casa, em Epitaciolândia, a 230 quilômetros de Rio Branco, ainda dependeria de uma viagem de carro.