A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia apresentou nesta sexta-feira (9) um plano de contingência para a prevenção de sarampo após a possibilidade de confirmação do primeiro caso na capital. Desde 1999 Goiás não tem registros do tipo. Apenas em 2019, oito notificações de possíveis casos da doença foram repassadas ao Ministério da Saúde (MS), seis deles acabaram descartados, mas dois ainda estão em investigação.

Segundo a SMS, um dos dois registros possui forte suspeita de confirmação. Trata-se de um homem de 45 anos que mora em Goiânia, mas que esteve em São Paulo, onde já foram confirmados 965 casos neste ano.

O plano elaborado pela SMS conta com estratégias para a melhoria de coberturas vacinais, notificação, bloqueio e identificação de novos casos. Superintendente de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim explica que as crianças de 1 a 5 anos são prioritárias devido à chance de agravamento, bem como os jovens de 15 a 29 anos, devido à baixa cobertura. Segundo a secretária da pasta, Fátima Mrue, haverá monitoramento de cada caso suspeito e reforço para imunização.

“O ideal é que a conscientização em Goiás aumente de modo que o índice da cobertura vacinal seja de 100%. Afinal, a baixa abrangência das campanhas pode levar ao surgimento de novos casos de doenças que eram consideradas erradicas e eliminadas no Brasil. O sarampo pode resultar em complicações neurológicas, como a encefalite, que é uma doença que pode matar. Já a rubéola, oferece perigo às gestantes e seus bebês”, completa Ana Carolina Portes, coordenadora do Departamento de Infectologia da Sociedade Goiana de Pediatria.

O Brasil possuía o certificado de país livre do sarampo desde 2016. Acontece que as coberturas vacinais caíram em mais de 20% (veja quadro) e houve aumento na imigração de países como Venezuela onde o vírus circulava. Em 2018 foram registrados mais de 10 mil contaminados e apenas neste ano, os casos confirmados já somam 1.045, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde nesta semana. Em Goiás, os últimos 11 casos de sarampo aconteceram em 1999. A última morte ocorreu em 1991.

Rubéola

Em Goiás, as notificações de casos suspeitos de sarampo somaram 12 e os de rubéola, 19. Para rubéola, os exames laboratoriais descartaram as possibilidades. Para sarampo, dois casos ainda estão sendo analisados. Em um deles, o primeiro exame foi positivo, mas é preciso fazer o segundo exame após 15 dias para a confirmação definitiva.

O que preocupa os especialistas em ambos os casos é que as vacinas que previnem as doenças são as mesmas: tríplice (sarampo, caxumba e rubéola) e tetraviral (que além das três doenças, imuniza contra a catapora).

As baixas coberturas vacinais podem estar diretamente ligadas ao surgimento de novos casos. São consideradas vacinadas e imunizadas, pessoas de 1 a 29 anos que tiverem registradas no cartão duas doses de vacina tríplice/ou tetra viral e pessoas de 30 a 49 anos uma dose de tríplice viral. A tríplice é aplicada aos 12 meses e a tetraviral aos 15 meses de vida. Apesar disto, o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim), Juarez Cunha, afirma que a vacina é oferecida para pessoas de até 49 anos e faz parte do Calendário Nacional de Imunização.

“Para adultos, a tríplice está disponível até os 49 anos de idade. Até 29 anos são duas doses e dos 30 aos 49 anos, apenas uma. As vacinas não podem ser negadas porque fazem parte da rotina e para profissionais de saúde devem ser aplicadas em duas doses, sempre. Na visão dos especialistas, uma série de fatores podem justificar as baixas coberturas e um deles é a falsa segurança devido às doenças que não são mais vistas. (As pessoas) acreditam que como (os vírus) não circulam mais, não precisam se vacinar. No ano passado, 12 pessoas morreram por sarampo”, completa Juarez.

A cobertura vacinal recomendável é acima de 95%. Neste ano, a tríplice em Goiás alcançou 75,91% e a tetraviral 66,27%. Na capital, entre as faixas etárias com menores coberturas estão as crianças de um a cinco anos com 85% e adolescentes e adultos de 15 a 29 anos com 36% de cobertura. “Um país que volta a ter morte com doenças infecciosas passa por um retrocesso. E esta não é uma realidade isolada de Goiás”, completa o secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino.

 

Rubéola e síndrome da doença são ameaças

A baixa cobertura e os surtos de sarampo, aliados aos estoques de vacinas limitados, levaram o Brasil a um novo alerta: a possibilidade de retorno da rubéola e da síndrome da rubéola congênita (SRC). Apesar de não serem consideradas graves para a maioria da população, as doenças podem ser perigosas em caso de gestantes porque existe a possibilidade de aborto ou mesmo de nascer uma criança com síndrome da rubéola congênita. Entre as consequências da síndrome estão: deficiência auditiva e/ou visual, lesão no coração, malformações no cérebro e deficiência mental. As chances deste quadro são de 80%, dependendo da fase da gravidez em que a doença ocorre.

No último mês de junho, a Organização Pan-americana da Saúde (Opas) emitiu um alerta sobre a rubéola depois que três casos da doença foram confirmados na Argentina e mais um no Chile. Todos vieram da China ou da Índia, que assim como a África, sofrem com a Rubéola. 

Caxumba
A Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirma que por não se tratar de doença de notificação compulsória – no caso da caxumba, não existem dados de Goiás quanto ao número de casos. A informação é a mesma do Ministério da Saúde. Apesar disto, a SBim alerta para o alto poder de contágio da doença que também é prevenida pela tríplice e pela tetraviral. 


Faixa etária de vacina pode ser ampliada

Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou que começou uma busca no mercado internacional para a compra de vacinas tríplice e tetraviral devido ao alto número de casos registrados no Brasil. Pelo calendário do Sistema Único de Saúde (SUS), as proteções são aplicadas aos 12 e 15 meses, respectivamente. Apesar disto, a recomendação do Ministério é que vacinas sejam ampliadas a bebês, a partir de 6 meses, que viajarem para áreas consideradas de risco para sarampo. 

Em Goiás, os estoques da vacina tetraviral estão reduzidos, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-GO). Mensalmente, 9,6 mil doses são consumidas, mas o envio é de 10 mil doses para garantir uma margem extra. O último recebimento do Estado ocorreu em junho. . De acordo com a secretaria, o Ministério aguarda a liberação do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde. Apesar disto, a pasta afirma que ninguém está deixando de ser vacinado.
 
Evento
A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim) realiza, entre os dias 4 e 7 de setembro, a XXI Jornada Nacional de Imunizações, em Fortaleza. O tema desta edição é “Promovendo o valor das imunizações” e o evento é considerado o maior científico do seguimento no País. O objetivo, segundo a organização, é discutir o controle do sarampo nas Américas, bem como a busca de estratégias para melhorar a adesão da população à vacinação, entre outros assuntos. Mais informações estão disponíveis pelo </CW>site www.jornadasbim.com.br.