Já disse aqui que tenho a sorte de ter a melhor família e os melhores amigos do mundo. Com eles minhas bochechas e barriga doem de tanto rir, meu coração derrama de tanto se abrir e posso até mesmo me fechar na concha quando sinto necessidade, que dá tudo certo. A Silvana (Bittencourt, editora executiva do POPULAR) está nesta lista. Sua presença sempre doce (gostava tanto quando às 15h55 ouvia sua voz no rádio anunciando o jornal do dia seguinte, não importava a notícia, se boa ou ruim). Quando ela me convidou para falar por 15 dias da minha quarentena na Itália, já que vivo na região com mais casos do Covid-19, o Brasil estava com cerca de 200 casos confirmados, com uma manifestação convocada para fechar instituições fundamentais do regime democrático e um governante sob suspeita de estar contaminado e que, desconsiderando as recomendações das autoridades científicas de todo o globo, saiu na multidão.

Era um tempo esquisito para mim e para o mundo. No meu curto período aqui eu já tinha passado por um turbilhão de sentimentos, e achei que seria interessante pensar um pouco a respeito do meu momento e de como uma pandemia me conectava com a apreensão, dúvidas e medos de várias pessoas, muitas delas em contato, me sondando sobre sentimentos, prevenção, quarentena e etc. Para mim foi uma experiência muito rica, me fez mais atenta tanto aos meus sentimentos, quanto às dinâmicas sociais, cá, ali e acolá.

Depois de um Burnout e uma crise profissional, foi muito bom exercer a sociologia com o coração. A pessoa que estuda sociologia está sob a mesma desconfiança que técnico de futebol. Poucas pessoas se atreveriam a discutir a cura do câncer, um experimento físico, mas a maioria tem certeza de que escalaria um time melhor que um técnico e que compreenderia melhor um problema social que um sociólogo. Todos têm a solução perfeita para a segurança pública educação, saúde etc. Independentemente do que os dados estejam a dizer. Ainda mais em tempos em que a avaliação da sociedade se dá a partir de idealizações morais (muitas provenientes de falsos moralismos) descoladas do que o agora combalido IBGE nos conta. Além disso, quando falo que sou socióloga, tenho a impressão de que enxergam uma foice e um martelo em minha testa, que dirá agora em época que até um vírus tem ideologia, como o comunavírus.

Quero agradecer a todas as pessoas que estiveram juntas comigo neste exercício, as que partilharam seus sentimentos e concepções a respeito do complexo momento que temos de enfrentar. Eu disse à Silvana que gostaria de contar a vocês que mundo eu encontrei quando puder voltar a sair. Hoje está decidido que as nossas restrições seguem firmes no mínimo até 18 de abril. Espero em breve trazer boas notícias, para que todos tenhamos a certeza de que andrà tutto bene!