O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Leonardo Reis, participou de uma live do jornal O POPULAR na noite desta terça-feira (19) e falou sobre o posicionamento da entidade, que defende o isolamento vertical como medida de enfrentamento ao novo coronavírus e o uso da hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com Covid-19. Diferentemente do que foi publicado na edição de ontem do jornal O POPULAR, ele esclareceu que o Cremego não é contrário ao distanciamento social e sim ao isolamento horizontal. Disse que a população precisará aprender a conviver com o vírus, que deve continuar circulando no País pelo menos até o fim deste ano, e afirmou: “A única saída é fazermos uma reabertura responsável, gradual e com distanciamento social”. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

O que o Cremego defende como medida para o combate ao coronavírus?

O conselho defende um distanciamento na medida em que as pessoas vão retornando aos poucos às suas atividades. Nós estamos há dois meses com decretos de isolamento, de fechamento do comércio e dos serviços, e aos poucos agora, esperamos aí com ansiedade o novo decreto do governo do Estado, que os serviços retornem gradualmente. Quando a gente fala do distanciamento é vislumbrando uma abertura gradual dos serviços, mas mantendo os cuidados de distância entre as pessoas, no mínimo dois metros, com o uso de máscara. Isso é eficaz, porque se você não tem o contato físico com a pessoa contaminada, não tem o contato nem com respiração e com gotículas, nem está num ambiente contaminado, como uma UTI cheia de pacientes com Covid-19, então a chance de você se contaminar é muito pequena. Se nós formos esperar em casa até o desaparecimento total do vírus, nós vamos ficar sem sair para comprar pão até o final do ano. O vírus não vai parar de circular pelo menos este ano. A minha previsão é que nós vamos conviver com o vírus durante ainda seis meses, oito meses, durante praticamente o resto do ano. E é óbvio que as atividades precisam retornar nesse período. As atividades de saúde, os serviços médicos em primeiro lugar, depois em um escala progressiva até o último, que eu imagino devem ser as escolas. As escolas devem ser o último serviço a ser reaberto, principalmente na educação infantil, porque criança não tem muita a noção de higiene que a gente tem e são potenciais disseminadores do vírus.

O senhor defende o isolamento vertical?

É. Nesse momento e para a nossa realidade no Estado de Goiás. Veja que não há fórmula mágica, não há tratamento universal. Você precisa analisar a realidade do nosso Estado. No atual momento, nós não precisamos, pelo menos por enquanto, de um novo decreto de isolamento absoluto horizontal. Depois de dois meses de isolamento horizontal, teoricamente, porque infelizmente muitos não respeitaram coisa nenhuma, nós precisamos colocar o nariz para fora. Quem vai começar a colocar o nariz para fora e quem colocar por último é uma decisão que precisa ser acertada entre os poderes municipal, estadual e a sociedade, o setor produtivo. O que nós defendemos no presente momento é um distanciamento social absoluto, de todas as pessoas, e um isolamento seletivo. As pessoas que trabalham, na medida em que os serviços forem voltando, precisam sair para a rua. Aqueles que estão em uma condição de vulnerabilidade - as crianças, idosos, aposentados - ou quem puder ficar em casa, ajudaria muito se o fizesse. Agora, na medida em que o governo for autorizando, precisa retornar às atividades. Porque não dá para uma pessoa que trabalha com o comércio, as galerias, as indústrias, o setor de serviços, barbearia, salão de beleza, academias, não dá para ficar fechado até o final do ano.

Se liberar as academias e todos esses serviços que o senhor está falando, não corre-se o risco de sobrecarregar o sistema de saúde?

Aí nós estamos falando num outro momento. Corre o risco de sobrecarregar e, se nós estivermos na iminência de um colapso no serviço de saúde, aí sim é lockdown, é fechamento com trancafiamento da sociedade em casa. Isso aí seria uma situação extrema que, na minha previsão, não vai acontecer em Goiás, em Goiânia e muito menos nas cidades do interior.

Mas se o senhor mesmo está falando que muita gente não obedece ao distanciamento, o que garante que a gente não vai chegar nessa situação?

A conscientização e a volta escalonada, gradual, dos serviços. Infelizmente muitos não obedecem, saem para correr sem máscara, saem para os parques sem máscara, e isso aí é inadmissível. Eu posso dizer que é um crime contra a saúde pública. Agora, eu acredito que as pessoas, à medida que a doença vai chegando perto, atinge uma pessoa próxima, elas vão começar a se conscientizar pelo uso da máscara, pelo distanciamento, lavagem e higienização das mãos o tempo todo. Nós temos que ter em mente que todos nós somos infectados em potencial. Eu não sei o que aconteceu ontem em você e você não sabe o que aconteceu ontem comigo. Se nós tivermos essa conscientização e a fiscalização do poder público, para verificar se o comércio e os serviços estão trabalhando dentro das regras de proteção, eu acredito que nós não vamos chegar num momento de iminência de colapso. Mas se eventualmente as pessoas não tiverem esse discernimento, se chegarmos a esse momento, aí sim seria o lockdown, o que seria desastroso do ponto de vista sanitário e uma catástrofe econômica.

O senhor esteve com o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, na tarde desta terça-feira (19), para discutir o escalonamento que restringiu o horário dos consultórios. Como foi a conversa?

Eu disse ao prefeito que é uma medida importante, primeiro para aliviar a aglomeração no transporte público. Não adianta a pessoa usar máscara e estar dentro do ônibus como em uma lata de sardinha, sem o distanciamento correto e sem a higienização devida. É importante esse escalonamento de horário de abertura dos serviços. Apenas fomos levar para ele que o serviço de saúde precisa abrir mais cedo, porque às vezes nós recebemos pacientes do interior, paciente que está em jejum, e aí não dá para abrir o serviço às 11h30. Me estranhou inclusive, e eu comentei, que as clínicas veterinárias abrem mais cedo que as clínicas humanas. Eu sugeri que isso aí poderia ser invertido. Os consultórios precisam abrir mais cedo para atender a população.

O prefeito se comprometeu a fazer uma alteração?

Sim. Imediatamente ele chamou a secretária de Saúde (Fátima Mrue) e eu até coloquei que isso poderia ser relativizado, de acordo com as especialidades e a demanda. Hospitais, por exemplo, não podem ter horário fixo de funcionamento. Alguns serviços de saúde não podem ter hora marcada, e alguns outros você pode escalonar. Essa foi a minha sugestão. O importante foi que o prefeito se mostrou sensível e entendeu as demandas da classe médica.

Mesmo sem comprovação científica da hidroxicloroquina para Covid-19, o Cremego tem defendido o uso do medicamento. Por que vocês estão encampando essa ideia?

Não é só o Cremego. Foi o Conselho Federal de Medicina (CFM) que liberou para o uso na Covid. Se o CFM, que é quem regulamenta aquilo que é experimental e aquilo que é tratamento consolidado no Brasil, o médico está à vontade para fazer. Se o paciente quiser tomar ele toma, se não quiser ele não toma. Aí vai de cada médico, e cada um vai ter uma opinião diferente. Vai ter médico que vai prescrever, vai ter aquele que não vai. Eu posso falar, com absoluta certeza, que a maioria vai prescrever. Não sei se 80%, 90%, 70%, mas a maioria vai. Sabe por quê? Porque a maioria dos médicos que teve Covid fez o uso da hidroxicloroquina neles mesmos. Pelo menos uns 200 médicos já tiveram a doença aqui em Goiás. Agora, se ele tomou, se deu bem, não teve efeito colateral, sobreviveu, é bem provável que ele indique o tratamento para um paciente.

O Cremego não tinha muito esse perfil de atuar politicamente, como estamos vendo na última semana. Por que houve essa mudança na postura do conselho? É uma questão econômica ou política?

Isso não é questão política. O posicionamento do Cremego é mais reativo, é mais pela provocação do que por uma posição pessoal ou alguma deliberação do colegiado. Isso aí nós fomos provocados e, na medida que somos provocados, a gente acaba tendo que levar algumas opiniões, algumas respostas. Do ponto de vista da abertura, nós temos a absoluta certeza que o vírus não vai parar de circular daqui um mês, daqui dois, daqui três. Do ponto de vista das atividades econômicas, e aí eu não posso defender só o setor saúde, porque os outros setores também precisam trabalhar, nós precisamos ter um equilíbrio econômico e sanitário. O governo não tem a condição de dar sustento para todos por seis meses. E também não podemos ser tão liberais, porque a nossa população não tem a disciplina dos países nórdicos e orientais. Nós temos que impor algumas regras, através do poder público, e equilibrar a questão econômica. De forma que a única saída é fazermos uma reabertura responsável, gradual e com distanciamento social. O uso de máscara com o distanciamento social é até o ano que vem, até a descoberta da vacina.