Desapego. Essa é uma palavra que define a postura dos trabalhadores – principalmente, os mais jovens –, em relação ao emprego. Pesquisa da PUC-Rio aponta que a probabilidade de duas pessoas entrarem em uma empresa juntas e terminarem o ano na mesma empresa é de apenas 13%. É mais fácil as duas terem saído do que as duas terem permanecido nos empregos.
É uma informação muito reveladora.
Lembrem-se de nossos pais e avós, que batalhavam para entrar em uma empresa em que “sonhavam” trabalhar e, depois, ficavam décadas, muitos aposentavam na empresa.
Não são incomuns histórias de trabalhadores que foram fiéis ao extremo, tendo trabalhado os 35 anos de “vida útil”, do primeiro emprego à aposentadoria, em apenas uma empresa.
O comportamento mudou e as empresas deixaram de ser “adoradas”. Começou pelos jovens – de 18 a 30 anos – e já atinge ou influencia a faixa seguinte, de 30 a 40 anos. A rotatividade é alta e planejada. Muitos trabalhadores, por um motivo ou outro, entram pensando em sair.
Para os que têm mais qualificação, a empresa é um intervalo do projeto profissional, uma passagem, e não o fim do projeto. Para muitos, a acomodação é o perigo. Além de um mercado com mais oportunidades se abrir para quem empreende e a opção de investir o tempo em capacitação, outro motivo assusta/influencia o “novo pensamento” do trabalhador: por décadas, gerações de trabalhadores envelheceram ou aposentarem criticando remuneração ou valorização profissional. É uma herança maldita da relação empresa-empregado.
E para os que têm menos qualificação, o caminho de forçar a demissão por justa causa, após seis meses de carteira assinada, para receber benefícios do INSS, também é uma demonstração do desapego à vaga “conquistada”.
Em nenhum dos dois casos, com e sem qualificação, não é mera indisposição consciente do trabalhador contra as empresas. Sem rusga, guerra ou revolução, assiste-se ao início ou desenrolar de uma nova fase da relação: a do equilíbrio do desapego. O trabalhador passa a tratar a empresa como acredita que esta o trata, com infidelidade, indiferença e pouco apego.
O empregador tem para se proteger um exército de reserva gigantesco, com milhares de currículos. Ao trabalhador, milhares de empresas ou até abrir a sua (em Goiás, abrem-se 5 mil micro e pequenas empresas por mês).
Mas o empresário já sente a “dor” da alta rotatividade, porque mesmo o exército de reserva, a reposição, segue a tendência de “não esquentar a cadeira”. Pede para sair com um tempo menor do que o ideal para compensar o investimento para capacitá-lo ao cargo.
Com isso, o produto é mal vendido nas lojas, pois parte da equipe está sempre em treinamento, ou mal fornecido no setor de serviços, onde, da instalação ao suprimento, apresentam defeitos infantis. Para melhorar, a relação terá de se tratar (por um longo prazo) e alcançar reconhecimento real, de ambas as partes.

(Artigo publicado no POPULAR da última terça-feira, 29)