Ele empresta o nome ao centro cultural localizado no Edifício Parthenon Center, no Centro de Goiânia, onde antes ficava o Museu de Arte Contemporânea. Apesar desta homenagem, o artista plástico Octo Maques não goza do destaque que mereceria, caindo num injusto ostracismo, dado o nível de qualidade de seu trabalho. “A obra dele está desaparecendo”, alerta o também artista plástico Elder Rocha Lima, que mesmo não tendo sido um amigo próximo de seu conterrâneo da cidade de Goiás, tornou-se uma das poucas vozes a se levantar em defesa do legado do pintor.

Nascido na cidade de Goiás em 1915, Octo foi um homem entristecido no decorrer de uma vida cheia de criações, mas passada no quase total anonimato. Habitante do Largo do Moreira, era uma figura conhecida na antiga capital goiana, mas sua forma simples de se vestir e agir, além do vício no álcool, não o levaram a frequentar altas rodas, a ser paparicado pelos mais abastados, a ser incensado na sociedade. Isso tudo colaborou para que portas fossem fechadas e o devido valor aos seus quadros igualmente singelos, mas de técnica apurada, não fosse dado.

“Infelizmente o alcoolismo o prejudicou muito”, reconhece Elder Rocha Lima. “Apesar de parecer muito simplório, essa imagem não correspondia à verdade. Ele publicou livros, era um erudito. Foi um homem que pintou a ingenuidade que nos traz um gosto muito especial. Flertou com o naïf, mas também não era exatamente isso”, descreve. Elder se lembra de uma vez quando, ainda criança, entrou na casa de Octo Marques e se encantou com suas telas. “Talvez aquele episódio tenha sido definidor para que eu seguisse o caminho que segui. Fiquei maravilhado com seus quadros.”

Trabalhos que falavam muito intimamente ao imaginário que a antiga Vila Boa fornecia. Octo Marques sabia como ninguém pintar seu casario, suas cenas bucólicas, as pedras seculares de suas ruas, as igrejas de tanta fé e incontáveis histórias. “Ele tinha essa ligação muito estreita com a cidade. Seu pai era compositor e sua mãe, dona Santinha Marques, era cantora”, conta Elder, que escreveu um livro sobre seu colega de ofício, chamado Octo Marques: Trajetória de Um Artista. “Escrevi o livro porque precisava fazer algo por sua obra. Tinha esse débito com ele.”

Parte da tristeza que Octo Marques demonstrava no semblante – e isso fica visível quando vemos suas imagens – pode ser creditada à ausência de reconhecimento que teve em vida. Ainda que seus quadros remetessem a um encantamento raro, havia a certeza de que não era aceito em certos círculos a que um talento como o dele deveria dar ingresso imediato. Modesto, não procurava se mostrar na mídia. Isso reforçou o estereótipo de que era um homem extremamente recluso, de poucos amigos, que preferia submergir em sua própria criação. Isso não parece ter sido uma opção.

Se Octo Marques preferia se enraizar em sua cidade natal, isso não quer dizer que padecesse de bairrismo. Seu habitat eram os caminhos tortuosos que tão soube pintar, mesmo que esse mesmo lugar lhe fosse tantas vezes hostil. Emblematizando um tipo de vida que respeita certa toada vagarosa, em que as pessoas ainda se cumprimentam nas portas das residências, em que o homem do campo e seus animais integram a paisagem urbana de um espaço que tantos vestígios guarda do passado, ele produziu telas que se revelam, hoje, registros de uma Goiás que não pode se perder.

Octo Marques morreu em 1988 e só depois de sua partida, algumas das obras que deixou começaram a se valorizar um pouco, mas ainda não o quanto merecem. Mergulhado no vício, passou seus últimos dias solitário, convivendo com as debilidades de um corpo que por décadas fora castigado. Sua única salvação ainda era a arte, seu talento em estado bruto que conseguia, a duras penas, comercializar esporadicamente, garantindo-lhe a sobrevivência. “Esses trabalhos estão nas mãos de alguns colecionadores. É um patrimônio que precisava ser recuperado”, pondera Elder.