“Escreverei enquanto tiver vivência”, avisava Carmo Bernardes na edição de 1º de outubro de 1972. E cumpriu a promessa. Quando morreu em 1996, o escritor deixou um legado literário, sociológico e antropológico que foi construído até os limites de suas forças. Herança preciosa, que só alguém com muita, mas muita vivência seria capaz de amealhar. “Ele não media esforços para fazer o que queria”, define sua neta, a veterinária Ana Flávia Bernardes de Oliveira. “Com ele, aprendi a falar o que penso e a correr atrás do que desejo. Ele era assim e fazia isso defendendo a natureza e a vida.”

Em outra entrevista concedida a O Popular, Carmo, que foi cronista do jornal por muitos anos e teve em suas páginas espaço para exercitar sua prosa internacionalmente premiada, fazia um alerta sobre o destino do Rio Araguaia e seus afluentes, paisagem tão caras ao seu imaginário. “Da matança dos animais, a consequência primeira pode ser a extinção imediata de animais como a anta, o pirarucu e outras espécies que não têm proteção nenhuma”, denunciava ele em 26 de setembro de 1971. E naquela época ele já abordava a diminuição das águas do grande rio.

Carmo era assim. Falava do passado comunicando-se com o presente e com os olhos postos no futuro. Sua ficção traz esse traço de vanguarda que se apoia em tradições seculares de homens valentes, criados entre as hostilidades do sertão. Profundo conhecedor da fauna e da flora do Cerrado, o autor era capaz de dar verdadeiras aulas sobre esses temas, incluindo toda essa sabedoria em histórias deliciosas, que podiam ter desfechos engraçados ou trágicos. Contista de mão cheia, romancista de elevado talento e cronista acima da média, ele funda uma criação singular.

Os 24 contos de A Ressurreição do Caçador de Gatos compõem um daqueles primores da literatura de temática regional, mesclando referências populares com eruditas e elaborando enredos envolventes, com personagens bem construídos em histórias que denotam um respeito genuíno pela natureza e por quem sabe com ela lidar. Já o romance Jurubatuba é uma obra que se achega à dimensão psicológica sem tirar os pés de uma realidade feita de roças e estradas, em que amores e aversões, desejos proibidos e ambições desmedidas acompanham a vida de cada criatura.

Carmo, de alguma forma, transferia o refinado traçado de sua personalidade para as páginas que escrevia. “Meu avô era um sujeito muito humano e complexo. Era um roceiro muito estudado e inteligente. E quando publicava seus textos, seus livros e suas crônicas no jornal, não se importava se os outros gostariam ou não, mas adorava receber essa resposta, ainda que fossem críticas. Muitas delas, ele respondia”, sublinha a neta Ana Flávia. Bom de briga ele era. Sincero, não escondia seus inconformismos e suas queixas. Gostava de ouvir histórias, mas também de narrá-las.

Esse lado mais polemista de Carmo Bernardes lhe rendeu perseguições durante a ditadura militar. Em certa ocasião, precisou se refugiar em locais mais longínquos para evitar problemas. Isso aconteceu também porque o escritor nunca escondeu suas preocupações sociais e as críticas severas que fazia a respeito de certos sistemas de mando. O homem da roça, o trabalhador braçal era muitas vezes retratado como alguém explorado, que precisa superar adversidades e preconceitos para provar a solidez de seu caráter. Carmo sabia valorizar essa gente simples e tantas vezes desprezada.

“Ele andava arrastando um chinelinho e adorava contar histórias. Muitas vezes eu viajei com ele e sempre conversávamos bastante”, orgulha-se Ana Flávia. Histórias que romperam fronteiras. A Ressurreição de Um Caçador de Gatos, por exemplo, conquistou o prêmio literário Casa de Las Américas, em Cuba, um dos mais relevantes do continente. Isso não afetou em nada o modo de vida de Carmo e dona Maria, sua companheira de toda uma vida. Com ela teve cinco filhas. Com ela, ia pescar no rio Cristalino. Com ela, construiu uma vida cercada de memórias, criação e sabedoria.