É inconcebível olhar para uma obra da artista plástica Ana Maria Pacheco e ficar impassível. Suas esculturas e suas telas são poderosas demais para que passemos incólumes por elas. Em cada uma delas há, como a própria autora diz, “a condição humana, suas tragédias, seus sofrimentos, seus mistérios e epifanias”. Sentimentos que movem todos nós e que esta goiana, há décadas radicada em Londres, sabe traduzir em expressões que se gravam na memória, que podem até perturbar o sono, mas que trazem reflexões profundas sobre nossa própria existência.

“Eu iniciei meus estudos de Artes Visuais na então Escola de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás”, relata Ana Maria. “A escola tinha um caráter muito especial. A memória que tenho deste período é sempre prazerosa. Dois nomes sempre estarão comigo: Maria de Castro e o professor Luiz Curado, pela dedicação e interesse que eles sempre demonstraram.” Ela também investiu em outras artes, formando-se em Música na Universidade Federal de Goiás, área em que posteriormente, em meados dos anos 1960, se pós-graduou no Rio de Janeiro, tornado-se professora logo em seguida.

Depois de lecionar na Faculdade de Arquitetura da UCG, em 1973 ela tomou a decisão que mudaria os rumos de sua vida e, consequentemente, de sua arte. “Fui para a Inglaterra como bolsista do British Council da Slade School of Fine Arte. Tinha a ambição de morar no exterior. Perceber a visão de mundo do colonizador, uma relação dialeticamente oposto à nossa”, declarou Ana Maria, em entrevista concedida a O Popular em 2012, quando fez uma grande exposição de seus trabalhos na Pinacoteca de São Paulo, um dos templos maiores das artes plásticas no Brasil.

Hoje, seis anos depois, Ana Maria tem uma visão consolidada sobre esses 45 anos residindo no Velho Continente. “A condição de trabalho na Europa não é fácil, sobretudo para estrangeiros. Mas acredito que as dificuldades existem em qualquer lugar, se há um desejo de criar algo que tenha um significado além do modismo ou ganho financeiro”, avalia. Nessas quatro décadas e meia, Ana Maria se naturalizou cidadã inglesa – há quem até que se esqueça, ao apresentá-la, que ela nasceu no Brasil. Mas ela enfatiza que quando se mudou, já tinha uma formação acadêmica consolidada.

Seus trabalhos não passaram despercebidos no circuito das artes plásticas da Europa, simplesmente o maior, mais tradicional e mais seletivo do mundo. Baseada na Inglaterra, fez com que suas obras rompessem fronteiras. Alemanha, Estados Unidos, Japão, Noruega. São muitos os países em que instituições, como museus e centros culturais, adquiriram suas esculturas, quadros, gravuras. Nesses trabalhos, ela mescla elementos variados, resultando em peças que às vezes são de um realismo espantoso, às vezes de uma simbologia intrigante, sem que um caminho exclua o outro.

Com mais de 40 exposições individuais e quase 80 participações em mostras coletivas em quatro continentes, Ana Maria Pacheco compôs um currículo impressionante. O crítico de arte Julian Bell, no livro Uma Nova História da Arte, elenca o nome da goiana entre os mais relevantes da área nos últimos séculos. Ao lado dela, só mais um brasileiro: ninguém menos que Aleijadinho, nome que teria ecos no imaginário da artista. Falando da instalação Terra Sem Retorno, Bell disse que “a obra provocou no público uma aguda e avassaladora emoção religiosa”.

Ao falar com O Popular no último mês, Ana Maria Pacheco estava em Paris, trabalhando no ateliê de um amigo. Com familiares em Goiânia, ela retorna regularmente à sua terra natal. “Manter viva a fonte de origem é fundamental em qualquer processo criativo”, argumenta. “Minha infância e juventude são embutidas de imagens, experiências que são únicas. É como um rio profundo onde mergulho e sempre descubro tesouros infindáveis. Portanto, sou goiana e Goiás vive dentro de mim.” Goiana que ganhou o mundo, e que o mundo ganhou.