Cidades

Região onde cabeça humana foi encontrada teve sete homicídios em intervalo de 50 dias

27/01/2019
Foto: André Costa
Muro ao lado de Paróquia no Urias Magalhães, com inscrição “TD2”, uma identificação do Comando Vermelho
Thalys Alcântara

Um episódio inusitado e bárbaro chocou os goianienses na manhã de domingo de 13 de janeiro. Uma cabeça humana foi encontrada por um pedestre na calçada, em frente ao maior shopping de Goiânia, na Região Norte. Não bastasse isso, na testa da vítima estava marcada, com cortes, a sigla que identifica a facção criminosa carioca Comando Vermelho (CV). Erivaldo Ferreira da Rocha, de 33 anos, tinha saído de casa na noite de sábado e nunca mais voltou. Ele é mais uma vítima dos setores Urias Magalhães e Vila Roriz, onde foram registrados uma série de assassinatos desde o mês passado.

A reportagem apurou que em um intervalo de 50 dias, sete pessoas foram mortas nas redondezas destes dois bairros. Desse total de mortos, seis eram moradores antigos dos setores, sendo que cinco tinham mais de 30 anos, dependência química e moravam com a mãe, incluindo Erivaldo. O aumento de mortes violentas no local chamou a atenção das autoridades. A Polícia Civil apura se existe relação entre os casos e um traficante ligado ao CV que está preso. Ele é suspeito da autoria de algumas destas mortes. Para se ter uma noção do impacto destes assassinatos na região, eles representam 11% de todos os homicídios em Goiânia nos últimos dois meses.

O Setor Urias Magalhães fica entre a Avenida Perimetral Norte, onde foi encontrada a cabeça, e o Ribeirão Anicuns, afluente do Rio Meia Ponte, em que mais tarde o corpo decapitado de Erivaldo seria localizado. Anexo ao Urias, na parte mais baixa do relevo, está a pequena Vila Roriz. Moradores dos dois bairros reconhecem que ondas de homicídios acontecem no local de tempos em tempos, relacionadas à disputa pelo tráfico de drogas. A diferença desta vez é que as vítimas têm sido moradores mais antigos, mais velhos e que tinham uma boa relação com a comunidade, mesmo sendo usuários de drogas. Quatro vítimas usavam crack, segundo familiares.

Ao lado da Paróquia Jesus de Nazaré, área movimentada do setor, há uma pichação em um muro com a inscrição “TD2”, que quer dizer “tudo dois”, uma forma de identificação do Comando Vermelho. A mesma sigla estava marcada na testa de Erivaldo, que teve a cabeça encontrada neste mês em frente ao shopping. Na noite da última sexta-feira (25), um jovem ainda não identificado até o fechamento desta matéria foi morto com vários tiros a uma quadra de distância da paróquia.

As primeiras mortes começaram na madrugada do dia 6 de dezembro. Foram três em apenas uma noite. Alessandro Alves da Silva, de 40 anos, conhecido como “Sapim”, descia a rua UM-8 do Urias, com o amigo Milton Trindade da Silva, de 44, o “Ti Miton”, quando começaram a ser perseguidos por um carro branco. Eles correram até a esquina e viraram na avenida Pampulha, mas não conseguiram escapar. Foram executados com tiros na cabeça. Na mesma madrugada, o corpo do pedreiro Cícero Revo de Paula, de 44 anos, foi encontrado com marcas de disparo de arma de fogo na Avenida Perimetral, próximo à ponte que passa sobre o Anicuns.

A morte de Ti Milton causou comoção entre os moradores do bairro. Ele era conhecido por realizar serviços para a vizinhança, como limpar lotes e carregar compras. Já seu amigo, Sapim, vinha sendo ameaçado por traficantes, segundo familiares. Um parente, que prefere não se identificar, conta que certa vez ele foi sequestrado em casa, colocado à força dentro de um carro e levado até a beira do Anicuns para ser executado, mas conseguiu fugir. “Ele chegou em casa todo molhado, sujo de barro e lama. Era por causa de uma dívida de 50 reais. Eu paguei a dívida”, relata. Ambos eram usuários de crack. Milton chegou a ficar internado sete meses em uma clínica de reabilitação.

Cícero também é citado por moradores como uma pessoa de boa convivência, que “só fazia mal a ele mesmo”, por conta do uso de crack e bebida alcoólica. Um familiar, que pediu para não ser identificado, diz que horas antes de ser encontrado morto, Cícero saiu de casa a convite de um colega, que também é dependente químico. “Esse colega dele nunca mais teve coragem de olhar no meu olho”, descreve o parente.

Dias depois da noite violenta com três homicídios, na manhã do dia 21 de dezembro, um canoeiro encontrou um homem de 47 anos, conhecido como “Zezinho” ou “Tché”, ferido por tiros, dentro do Ribeirão Anicuns, na Vila Roriz. A vítima chegou a pedir socorro, mas morreu. Zezinho também morava com os pais e era dependente químico. Dias depois foi a vez de um jovem, conhecido como Jorge, morto a tiros na Rua Rio de Janeiro, no Urias Magalhães.

Investigação

No dia 27 de dezembro, um traficante foi preso no Urias Magalhães em flagrante por tentativa de homicídio. Ele chegou a acertar um homem com três tiros, mas a vítima sobreviveu e acionou a Polícia Militar. Na casa deste traficante foram apreendidos um colete à prova de balas, um revólver, um carro roubado e porções de crack. Ligado à facção carioca Comando Vermelho, este traficante passou a ser investigado pelos homicídios da região. Exames periciais foram solicitados para apurar se os tiros que mataram Ti Milton, Zezinho, Sapim e Cícero teriam partido da arma apreendida.

Responsável pela investigação da morte de Erivaldo, a delegada Myrian Vidal, da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH), diz que ainda não é possível dizer se a morte e decapitação dele tem relação com os outros assassinatos da região. “Sempre que acontece um caso, a gente olha a situação dos outros homicídios que estão acontecendo no local, para ver se têm ou não relação. Sempre é feito assim”, declara.

Segundo a delegada titular da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH), Silvana Nunes, a possível relação do caso com facções criminosas só poderá ser confirmada ou não, após o fim das investigações.

Irmão de decapitado sofria ameaças

Vila Roriz

O portão da casa de Erivaldo Ferreira da Rocha, de 33 anos, na Vila Roriz, Região Norte de Goiânia, ainda exibe as marcas de tiros. Ele foi morto e decapitado entre os dias 12 e 13 de janeiro. Sua cabeça foi deixada na calçada do shopping Passeio das Águas, na Avenida Perimetral. Antes do assassinato, sua família já vivia dias turbulentos, por conta das ameaças e tentativas de homicídio contra seu irmão, que seria traficante de drogas e fugiu.
 
Um familiar da vítima, que prefere não se identificar, relata que alguns dias antes do Natal, durante a noite, um grupo de homens ficou de tocaia em frente à casa dos irmãos. Quando o irmão de Erivaldo foi para fora, começaram a disparar vários tiros na direção dele, mas o homem conseguiu correr e se esconder. As balas acertaram o portão, mas não conseguiram atravessá-lo. Semanas antes, o irmão de Erivaldo já havia sido vítima de outro atentado a tiros, na escadaria que dá acesso do Setor Urias Magalhães à Vila Roriz, mas ele também conseguiu escapar. Depois dois episódios, o irmão de Erivaldo fugiu e parentes dizem não saber do seu paradeiro, nem dos motivos da perseguição. 

Em uma ameaça por telefone ao irmão de Erivaldo, pouco antes de fugir, uma voz no telefone teria dito que “se não pegasse ele, pegava qualquer um da família”. Por conta disso, desde a morte de Erivaldo, familiares decidiram se mudar do bairro por temerem novos atentados ou homicídios. 
As ameaças teriam continuado mesmo depois da morte de Erivaldo, que era usuário de crack e realizava serviços braçais para ter recursos e consumir a droga, segundo familiares. No dia anterior à morte, ele havia passado o dia limpando um lote e saiu de casa à noite sem dizer para onde ia. Seus pais eram catadores de materiais recicláveis e hoje, mais velhos, vivem apenas com uma aposentadoria em uma casa de poucos recursos. 

Enterro

Mesmo já reconhecido, o corpo de Erivaldo ainda permanece no Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia para a realização de exames complementares. A demora para o sepultamento aumenta a angústia da família. “O que eu mais quero é enterrar ele. Saber onde ele vai ficar. Porque aí vou saber que ele vai estar quieto”, relata um parente, que diz estar com dificuldade de se alimentar desde que reconheceu a foto da cabeça no IML. A Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) entrou com uma ação na Justiça para que o corpo possa ser retirado pela família de Erivaldo, mas a ação ainda não foi julgada. Outra angústia da família são os detalhes da morte. “Quero saber se mataram com facada, com tiro, se demorou para morrer”, desabafa um familiar. O caso está sendo investigado pela Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH). 

Barbárie também foi vista em Aparecida e Hidrolândia

Entre os dias 13 e 23 de janeiro, três corpos decapitados e três cabeças humanas foram encontrados na Região Metropolitana de Goiânia (RMG). O último caso, no Jardim Primavera, Região Noroeste da capital, teve a autoria apontada pela polícia. Dois irmãos confessaram o crime. Já os dois primeiros casos ainda estão sendo apurados, mas as investigações indicam, até agora, que não existe relação entre eles. 
A cabeça de Erivaldo Ferreira da Rocha, de 33 anos, foi encontrada na Avenida Perimetral e seu corpo no Rio Meia Ponte. Já o corpo de William de Oliveira estava em Hidrolândia e sua cabeça em Aparecida de Goiânia. A delegada responsável pelo caso de Erivaldo, Myrian Vidal, da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH), diz que “nada aponta que tenha conexão” entre os dois casos. A reportagem tentou entrar em contato com o delegado Rogério Bicalho, do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH) de Aparecida, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. Ele é responsável pela apuração da morte de William. 

Hidrolândia

Na semana passada, dois irmãos confessaram ter participado do homicídio e decapitação de Adenílio Alves de Faria Junior, de 36 anos, no Jardim Primavera. O corpo dele foi encontrado na última quarta-feira, em um terreno baldio do bairro, parcialmente enterrado. A motivação para o assassinato teria sido uma briga em um bar no mês passado.
 
A dupla afirmou que tentou matar Adenílio com facadas e com enforcamento. Como ele não morreu, decidiram decapitá-lo. Segundo a Polícia Militar, eles afirmaram que tomaram a decisão porque haviam visto notícias na televisão de casos semelhantes.

Sigla de grupo criminoso apareceu em outros crimes na região metropolitana

Não é a primeira vez que a sigla “TD2”, que significa “tudo dois” e identifica a facção carioca Comando Vermelho (CV), foi usada como “assinatura” em homicídios na capital. No último dia 13, uma cabeça humana foi encontrada na Avenida Perimetral, em frente a um shoppingo shopping Passeio das Águas, com cortes na testa formando a abreviação. Já entre os meses de setembro e outubro do ano passado, um homem, conhecido pelo apelido de “Trindade”, foi morto no Setor Vila Morais, Região Leste de Goiânia. Os criminosos deceparam uma mão da vítima e escreveram “TD2” na parede próxima ao corpo.
 
O crime aconteceu em um imóvel abandonado, na esquina entre a Rua 9 e a Avenida Independência. Uma testemunha contou à reportagem que três homens entraram no local, que era utilizado como “mocó” por usuários de drogas à tarde. Alguns minutos depois, dois deles saíram correndo. De acordo com moradores, Trindade estava sendo visto no setor fazia pouco tempo, mas era conhecido por perambular pelas ruas. Ele seria usuário de crack. 

Desde o ano passado, fontes das polícias e do sistema prisional dizem que o CV domina o tráfico de drogas na Região Metropolitana de Goiânia (RMG). 

Vítima já ficou presa em ala ligada ao Comando Vermelho

Parque Santa Cruz

Sarah Teófilo

Três pessoas foram mortas em uma distribuidora de bebidas, no Parque Santa Cruz, em Goiânia, na última quarta-feira (23). Marcas de tiros efetuadas pelo grupo, que estava dividido em dois carros, podem ser vistas em casas próximas ao local. Os bandidos, após cometerem o triplo homicídio, deixando ainda uma pessoa ferida, passaram por uma rua próxima e fizeram marcas de projéteis de arma de fogo nos muros.

O tráfico de drogas no Parque Santa Cruz é dominado pela facção criminosa Comando Vermelho (CV). Uma das vítimas, Rogério Bezerra Teixeira, de 34 anos, já foi condenado por roubo qualificado, tendo ficado na Ala B da Penitenciária Odenir Guimarães (POG), setor ocupado por detentos ligados ao CV. A tia de Rogério, Rosimar Pinheiro Bezerra, de 60 anos, disse que ele também já foi preso por tráfico de drogas.

A outra vítima foi Diogo Marques de Souza, de 29 anos. Conforme informações de moradores, os dois eram amigos e moravam na região desde crianças. Diogo também já foi preso, tendo passado pela Casa de Prisão Provisória (CPP). Em maio de 2015, ele foi detido pela Polícia Civil após ter sido identificado em um vídeo dando tiros para cima no Parque Santa Cruz, a duas ruas de sua casa. Ele e outros homens comemoravam a passagem do ano. Na época, a Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc) afirmou que Diogo confessou os disparos. Em sua casa foi encontrado um revólver calibre 38. A Polícia Civil informou após a sua prisão que ele já tinha histórico por tráfico de drogas e por porte ilegal de arma. 

Inocente

A terceira vítima foi Ricardo Portela dos Santos, de 18 anos, morte que gerou mais sentimento de tristeza na região. “Era um inocente, no lugar errado e na hora errada”, disse um homem que mora no local há mais de 30 anos, e que preferiu não se identificar. O sentimento é compartilhado por outros moradores, que definem o jovem só com bons adjetivos.

Ricardo havia ido à distribuidora para comprar refrigerante, mas resolveu ficar para assistir um jogo de futebol na televisão do estabelecimento com um colega. Conforme a prima do jovem, Daiane de Almeida Portela, de 25 anos, Portelinha, como era também chamado, não costumava sair de casa. “Aí acontece isso. Ele não bebia, não fumava, nada. O (homicídio) dele foi engano mesmo”, disse.

O irmão mais novo do rapaz, de 13 anos, também estava na distribuidora. Ele contou à família que Ricardo correu quando o tiroteio teve início, mas voltou imediatamente para ver como estava o irmão, e teria sido nesse momento que foi baleado na cabeça. A prima conta que os tios, pais de Ricardo, ainda não conseguiram voltar para a casa e estão na residência de um familiar. O jovem foi enterrado na última quinta-feira. O caixão foi fechado.

Uma rua abaixo da distribuidora, a casa de um morador de 45 anos ficou toda marcada de tiros. Ele, que preferiu não se identificar, conta que estava fazendo jantar para o filho e a mulher quando ouviu uma série de estampidos. “Achei que era foguete. Quando saí, percebi que era tiro, voltei e fiquei no chão com meu menino e minha esposa”, relata. Na parte externa do quarto onde a família ficou deitada, é possível ver a marca de um projétil, que atravessou o portão da casa. A motocicleta do homem, que estava na calçada, também tem uma série de buracos. 

A rua onde ele mora com a família foi por onde o grupo passou após cometer o triplo homicídio. Outro morador, que também não quis se identificar, diz acreditar que os disparos feitos contra as casas foram para intimidar a população. Ele conta que seu sobrinho estava em casa com a tia no momento do crime, e saiu para ver o que estava acontecendo. “Na hora que ele saiu um dos caras que estavam no carro gritou: ‘volta pra dentro, senão eu mato você também’”.
 
Este morador estava na igreja no momento do crime, e diz que acreditou que se tratava de foguete. Os fiéis chegaram a abrir a porta da igreja, mas quando perceberam que era um tiroteio a fecharam. Depois que tudo parou, ele foi à distribuidora e disse que viu Portelinha caído no chão. Segundo ele, os pais do jovem chegaram em seguida e tiveram dificuldade de reconhecer o rapaz. “Pegou no olho dele. Ficou difícil de reconhecer”, disse.

A titular da Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH), Silvana Nunes, afirmou que a investigação está no início, em fase de levantamento de informações. Com a mudança de gestão no Estado, o delegado que cuida da região do Parque Santa Cruz saiu na última semana e o outro ainda não assumiu, mas deve começar a atuar na DIH nesta semana. A equipe de policiais, no entanto, se mantém a mesma. (Sarah Teófilo)

Foto: André Costa
Marca de tiroteio que deixou três mortos em distribuidora de bebidas. Quarto ficava do outro lado da parede
Marca de tiroteio que deixou três mortos em distribuidora de bebidas. Quarto ficava do outro lado da parede