Sorridente, o empresário aposentado Luiz Antônio Ribeiro abre a porta de seu apartamento com um sorriso. “Sejam bem-vindos”. Ele parece bem disposto, apesar ter realizado uma cirurgia apenas três dias antes. Entramos em um imóvel decorado com bom gosto e cheio de obras de arte. Logo na entrada, um quadro de Antônio Poteiro e outro de Siron Franco. Em outra parede, uma tela de Juca de Lima. São mais de dez em toda a sala. “A arte nos ensina a viver, a compreender e a amar a vida”, afirma esse político diferente. “Olha, sou um candidato incomum”, reconhece.

Além de ser muito mais raro do que gostaríamos um político apreciar, de fato, manifestações artísticas e saber lhes conferir o devido valor, Luiz Antônio foge de outros estereótipos. Para começar, ele foi um patrão que ajudou a fundar em Goiás o Partido dos Trabalhadores. “Foi logo nas primeiras eleições que o PT disputou por aqui. E foi por meio do deputado Rubens Ottoni”, relembra. “Ele disputava uma eleição para prefeito de Anápolis e eu o chamei para conversar na minha empresa, cuja sede era na cidade. Gostei das ideias que ele defendia.”

Além do apoio de uma figura proeminente no meio empresarial anapolino – Luiz Antônio foi dono de empresas de consórcios, seguros, de concessionárias de veículos e de usinas de álcool e açúcar –, o PT viu ali uma outra possibilidade. Seria uma chance de ouro de o partido ingressar em meios em que era hostilizado. “Logo eles me chamaram para ser candidato a deputado e eu aceitei.” E não parou mais. Ele conta que disputou três eleições para deputado, uma para prefeito de Anápolis e, em 1998, tentou eleger-se para o Palácio das Esmeraldas. “Perdi todas. Mas sou teimoso”, avisa.

Quanto a estabelecer pontes entre o PT e o empresariado, seu sucesso foi relativo e ele precisou ter paciência. “No início foi bem esquisito”, recorda. Seus colegas de círculos empresariais olhavam para Luiz Antônio com estranheza e não compreendiam muito bem sua opção política. “E não é difícil entender”, considera. “Eu não vejo essa separação entre trabalho e capital. Acho que quando os trabalhadores crescem, o empresário também cresce. É por isso que os empregadores devem ter um carinho especial com seus funcionários”, afirma o candidato a deputado estadual.

A crítica de Luiz Antônio – “chego a ficar revoltado” – volta-se contra aqueles que acham que o único objetivo é acumular riqueza. “Meu pai era industrial. Passei minha vida nesse ambiente e sei quais são as necessidades e as dificuldades dos trabalhadores e dos empreendedores, que são desestimulados no Brasil. São muitos obstáculos.” Em sua opinião, o maior deles situa-se no sistema financeiro vigente. “Os juros do cartão de crédito para o consumo são de 300%. Os juros para empréstimos para empresários são altíssimos. Nada gera mais lucro que o sistema financeiro.”

Ele, por exemplo, é totalmente contrário à reforma das leis trabalhistas, que foi implantada pelo governo Temer. “Disseram que iriam modernizar as leis, que isso geraria emprego. Cadê? O desemprego fez foi aumentar.” E olha que é um empresário quem está falando. “Estamos diante de uma política cruel com a população mais pobre. Nós precisamos ser mais justos. Por exemplo, ouvi empresários acharem um absurdo as cotas para os negros nas universidades. Eu respondia sempre que deveríamos ter apoiado essa inserção desde a abolição da escravatura. Temos essa dívida sim.”

Luiz Antônio não acha seu discurso incoerente com a posição econômica que sempre ocupou e traz a neurociência como argumento. “Desde Decartes, nós enfatizamos muito um dos lados de nosso cérebro, a parte racional. Isso foi válido. Nós tivemos muitos avanços com essa racionalidade. Mas não é só isso. É preciso trazer a inteligência emocional, a outra metade do cérebro. Precisamos levar mais humanidade para essa equação. E, com nossa terceira parte, que é a central, unir as duas outras e dar aplicabilidade, partir para a ação. Assim o empresário deve agir”, aconselha.

Mas, e o político? Ele deve agir como? Para Luiz Antônio, a política é uma área primordial para os avanços sociais. “O empresário pode fazer muito, fazer a economia andar, mas o político pode muito mais. Ele pode dar as condições para o empresário trabalhar e pode, com sua atuação, melhorar a sociedade como um todo, fazer coisas muito boas para a população.” Ainda que pareça utopia, o candidato mais experiente das eleições goianas não perdeu a fé. Com outro sorriso ele deixa claro que ainda acredita.

O companheiro Lula

Em 1994, em sua segunda campanha presidencial e na primeira que perderia para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, após a campanha virulenta que tivera contra Fernando Collor em 1989, tentava amenizar um pouco sua imagem de radical de esquerda. Na eleição anterior, o então presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Mário Amato, chegou a declarar que se Lula ganhasse, milhares de empresários sairiam do Brasil. O líder petista sabia que precisaria trabalhar a mudança desta imagem. E achou em Goiás um aliado e tanto.

“Eu não era o único empresário que andava com Lula naquela campanha. Havia outros”, disfarça Luiz Antônio Ribeiro, que mais de 20 anos atrás tentava convencer seus amigos patrões que o candidato à Presidência da República pelo PT não era uma ameaça. Em uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo na época, Lula afirmava que Luiz era a prova de que ele não era contra o empresariado, que era possível conciliar as coisas. “Eu acompanhei bastante o Lula. A Caravana da Cidadania, que ele fez nos anos 1990, eu fiz com ele por todo Goiás e Tocantins.”

Desde que Lula chegou à Presidência, em 2003, Luiz e o antigo companheiro não se viram mais. “Aquele cargo sempre separa as pessoas, nunca as une”, avalia o empresário goiano. “Nunca mais o vi. A própria assessoria dele, quando era presidente, não permitia esses contatos.” Mesmo distantes, Luiz acredita que a prisão do ex-presidente serve a um único objetivo: “Tudo foi planejado para que ele não pudesse ser candidato. Isso fica muito claro.” Ele crê, porém, que o candidato petista à Presidência, Fernando Haddad, vencerá as eleições deste ano. “Lula está transferindo os votos.”

Advogado e empresário, Luiz convive com muitos simpatizantes e eleitores de outras candidaturas, incluindo a de Jair Bolsonaro, que lidera as pesquisas até agora. “O discurso dele conseguiu entusiasmar a classe média, mas as pessoas que foram beneficiadas pelas políticas de inclusão e combate à pobreza dos governos de Lula não se esquecem do que o PT fez. Há uma gratidão. Essas pessoas são eleitoras do Haddad agora.” Aos 87 anos e tendo vivido tantas campanhas, Luiz Antônio percebe o ódio que existe nestas eleições. “A política, infelizmente, é assim.”

Família e apreço pela arte

“As pessoas querem envelhecer você. Acham que você tem que ficar quieto, em casa. Isso não é correto.” A opinião é de Luiz Antônio Ribeiro, que aos 87 anos de idade revela ter muita disposição para continuar a jornada. “Eu já não saio mais às ruas para pedir votos como antes, mas faço questão de continuar na política.”

Nascido em Cuiabá, Luiz Antônio formou-se na antiga Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, e tornou-se funcionário do Banco do Brasil. “Depois fui transferido para Anápolis e lá me estabeleci, criando a empresa com dois outros colegas do banco.” Ao mesmo tempo, levou adiante sua carreira de advogado. Do primeiro casamento, teve três filhos – dois médicos e um músico que toca no conjunto carioca Villa Lobos in Jazz. Do segundo casamento, teve uma filha, hoje empresária. Também tem seis netos e dois bisnetos.

Filho de pianista, o gosto pela arte o levou a financiar a produção do filme Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia, de 1990. “O diretor Roberto Pires me procurou e eu o ajudei a fazer o filme. Não teve sucesso comercial, mas ficou como um documento importante daquela tragédia.”