A polêmica no Big Brother Brasil 19 virou caso de polícia. “Humor negro”, “cabelo crespo é ruim”, “não seja como eles” foram algumas das expressões utilizadas dentro da casa e que ganharam muita repercussão nas redes sociais. Supostos atos de racismo no reality show da Globo estão sendo investigados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Rio de Janeiro. As recentes declarações no confinamento levantaram o debate sobre intolerância racial.

“Isso para quem é negro no Brasil não chega a ser estranho. A gente escuta esses tipos de comentários o tempo inteiro. É uma linguagem que coisifica, que torna exótico e estranho, que coloca o negro num lugar que não é do humano, é muito forte e faz parte da nossa luta”, reflete a professora de história da África Janira Sodré. “A marca é de inferiorização, às vezes é uma marca de ódio, de zombaria, às vezes do fetiche, mas é sempre a marca do estranhamento ao outro”, complementa ela.

Em menos de um mês, várias polêmicas surgiram dentro do confinamento. E a mineira Paula é a campeã das declarações mais controversas desde o início do jogo. Ela já contou uma história de uma mulher que havia sido esfaqueada pelo marido e que ela, ao saber como era a aparência do homem, disse que pensou que seria um “favelado”, mas quando viu era um branco. Em outra ocasião, ela falou que cabelo cacheado é “ruim”. Mas o pico da discussão na internet foi na festa do último sábado.

O mineiro Maycon disse para Paula e para a goiana Hariany que viu algo diferente quando olhava para a paulista Gabriela ao lado do carioca Rodrigo (que são negros). Eles estavam de costas e de mãos dadas curtindo a faixa Identidade, de Jorge Aragão. “Uma vez, vi dois urubus em pé, um de costas pro outro. Eram dois espíritos ruins, que estavam comendo umas macumbas. Daí o Rodrigo e a Gabriela chegaram, ficaram um de costas pro outro. Ouvi várias vozes falando comigo: ‘Não seja como eles’.”

Em outra ocasião, com Diego e Hariany, Paula disse que tem medo de Rodrigo por ele ter contato “com esse negócio de Oxum”. A mineira também falou que já teve medo da modelo de Senador Canedo sair no paredão por causa disso. “Pela força deles, dessas coisas.” No Twitter, o assunto “Basta de Racismo no BBB” entrou nos trending topics na manhã de domingo. “Há pessoas que não têm um nível de criticidade, mas tem o racismo enrustido dentro do imaginário”, comenta Janira Sodré.

Manoela Augusta da Silva, publicitária e integrante da Rede Goiana de Mulheres Negras, conta que não vem se assustando com os comentários dentro do BBB. “Para mim, é normal, mas não deveria ser. Sempre convivi desde criança com o racismo por ser negra. O que está acontecendo no programa eu vejo o tempo inteiro na escola, na rua, no trabalho e em outros lugares. É um retrato do Brasil. As pessoas sabem que são racistas e essas atitudes são tomadas de forma racional”, analisa ela.

Manoela assistiu a um comentário da participante Paula quando ela usou a expressão “cabelo ruim” e foi criticada por Gabriela. “Ruim é preconceito, cabelo não”, respondeu a percussionista. Paula insistiu, tentando explicar que, quando os fios “já têm uma dobrinha”, as pessoas usam esse termo. A sister mais uma vez não deixou barato. “A gente precisa mudar isso.” “Fico sempre pensando que nós negros não devemos ser didáticos com racistas. Eles falam isso o tempo inteiro como se fosse normal.”