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Trinta anos atrás, 'Vale Tudo' revelava um retrato sem maquiagem do Brasil

Em três décadas, brasileiros vivem às voltas com questões parecidas

Rede Globo
Glória Pires e Regina Duarte como Maria de Fátima e Raquel: filha e mãe antagonistas e com diferentes valores

Todas as noites, de segunda a sábado, entre maio de 1988 e janeiro de 1989, a voz poderosa e singular de Gal Costa perguntava a milhões de telespectadores sintonizados na TV Globo: “Brasil, qual o teu negócio, o nome do teu sócio?” A canção de Cazuza era uma espécie de hino de uma terra em transe. Três anos antes, a ditadura militar havia acabado e vivíamos o primeiro governo civil em mais de 20 anos. Mas era um governo turbulento, não eleito pelo povo, em que o presidente que representava a esperança morrera antes de tomar posse e seu substituto mergulhava sua gestão em um mar de denúncias de corrupção e uma crise econômica que parecia um pesadelo.

A música marcava a abertura, seis noites por semana, de um folhetim icônico em muitos sentidos. Ela foi feita sob encomenda para uma novela que queria debater se valia a pena ser honesto no Brasil. Vale Tudo estreou 30 anos atrás com a proposta de fazer o País falar sobre si mesmo sem freios, revelando mazelas e hipocrisias, acordos escusos e preconceitos, cutucando feridas mal cicatrizadas. Na parceria de dois dos principais autores da TV – Gilberto Braga e Aguinaldo Silva – e um elenco de estrelas em algumas de suas melhores atuações, a novela literalmente parou o Brasil – quase 90 pontos no Ibope em certos capítulos –, fazendo a nação se olhar num espelho doloroso.

Foi uma catarse, uma autocrítica impiedosa, mas também uma maneira de enxergar melhor os desafios que a população tinha pela frente se quisesse melhorar algo em suas vidas. A democracia brasileira engatinhava e aquele ano de 1988 foi o da promulgação da nova Constituição, carta magna da nação que vinha sendo debatida há dois anos e que se transformara em principal palco da disputa de interesses que moviam a sociedade. Era, portanto, um momento de transformações intensas e diagnósticos incômodos. A novela captou essa atmosfera, com personagens e tramas que representavam esses embates, essas dificuldades e um misto de expectativa e desalento.

Três décadas depois, Vale Tudo, que já fez sucesso em suas reprises na própria Globo e no canal pago Viva, mantém-se atual. Mérito de uma obra de TV muito bem realizada, mas também a constatação de que vários daqueles problemas permanecem insolúveis. O Brasil que mostrou sua cara com vilãs do porte de Odete Roitman e Maria de Fátima, com heroínas como a lutadora Raquel e com personagens que ficaram gravados no imaginário, como a alcoólatra Heleninha, continua a ter feições vergonhosas. Crises econômicas, governantes corruptos, empresários predadores, preconceitos de toda ordem ainda ditam os rumos desse País; ainda fazem do Brasil um Vale Tudo.

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