Um dos fundadores da Escola de Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, o diretor, teatrólogo e professor Hugo Zorzetti morreu na tarde desta terça-feira (5), em Goiânia. Zorzetti sofria de câncer no pâncreas e estava internado há cerca de um mês no Hospital Araújo Jorge. Ele faria 70 anos no dia 29. O velório estava previsto para se iniciar às 23 horas e o sepultamento para meio-dia desta quarta-feira (6).

Zorzetti conheceu a área cultural como poucos em Goiás. Amigo e parceiro de trabalho de figuras importantes das artes cênicas como Otavinho Arantes, Cici Pinheiro e João Bennio, Zorzetti começou no teatro por volta de 1964, quando estudava no Ateneu Dom Bosco.

“Aprendi a fazer teatro fazendo. Minha escola foi experimentar para saber até onde vai a linguagem teatral, quebrar a cara, acertar e errar, me penitenciar com os erros, ouvir muito. Fiz cursos, li muito, pesquisei, me aperfeiçoei. Teatro nunca foi uma escolha. Entrei no teatro como brincadeira. Sempre digo que não gosto de teatro. Não sou apaixonado pelo teatro. Sou um profissional do teatro. Ensino teatro porque aprendi, leio muito, tenho uma das maiores bibliotecas sobre o tema, me sinto com capacidade para transmitir meus conhecimentos. Minha área de atuação é a linguística, a literatura, a gramática, bem próximas do teatro. Acabei me envolvendo”, explicou, em sua última entrevista ao POPULAR, em 2009. Na época, ele lançava o livro Memória do Teatro Goiano, iniciativa do autor para resgatar a trajetória das companhias de teatro de Goiás.

Nascido em Goiânia, Zorzetti montou na adolescência a Companhia Teatral de Goiânia (CGT), junto com Phaulo Gonçalves, Wander Arantes e Pedro Afonso. O Teatro Universitário Galpão foi a primeira aventura dentro da UFG, na década de 1960. Tratava-se de uma dissidência do Teatro Universitário oficial, que era dirigido por um professor de São Paulo. “Ele seguia, mais ou menos, as notas do clima político da época. Nada podia ser muito ousado politicamente. O teatro tinha de ser comportado. Isso acabou criando divergências, e o DCE resolveu criar um teatro próprio. Estava em casa, quando chegaram os estudantes me convidando para dirigir. Eu estudava na UCG. Foi uma época terrível. Éramos demasiadamente perseguidos, foiceados”, contou.

Nos anos 1970, Zorzetti fundou o Teatro Exercício. Professor de língua portuguesa em várias instituições de ensino, autor de diversos livros e peças e responsável por dezenas de cursos de dramaturgia, Hugo Zorzetti se confunde com a própria história do teatro goiano. Um dos seus trabalhos mais recentes, a peça Todo Brilho do Entardecer, de 2016, tinha como tema a terceira idade. A inspiração, segundo ele, veio da primeira vez que foi chamado de senhor. Para o diretor, o teatro era uma arte coletiva, que só se concretiza por meio da união de pessoas e de ideias.

Zorzetti foi reconhecido nacionalmente por utilizar a comédia como meio de reflexão, além de ser um dos árduos defensores do resgate da cultura popular goiana. Em suas peças, sempre há temas que remetem o espectador a temas ligados à política, à economia e a problemas sociais de uma forma engraçada. Uma de suas peças mais famosas, Etâ! Goiás, lançada na década de 1980, ficou em cartaz por mais de três meses, sempre com lotação máxima a cada sessão. Zorzetti recebeu vários prêmios nacionais e, com tanto reconhecimento, foi o professor convidado para fundar o curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, em 2000, onde lecionou até se aposentar.