São Paulo - O ‘Rei’ Roberto Carlos não vende produto. Não a carne da Friboi, pelo menos. As pessoas disseram que ele não é confiável e não acreditaram no comercial em que um suculento bife lhe é servido. Isso foi o que argumentou o JBS, a empresa dona da marca Friboi, na Justiça. Sim, na Justiça, porque o Rei estava dizendo para o juiz que o JBS é caloteiro. O calote é porque a empresa tinha rescindido o contrato de uma hora para outra, sem pagar a multa prevista. Sim, o contrato acabou. Aliás, eram dois contratos. Um de R$ 22,5 milhões que seriam pagos no Brasil, e outro de US$ 9,3 milhões, ou cerca de R$ 20 milhões ao dólar da época, a serem pagos no exterior.

No jornalismo, o primeiro parágrafo de uma matéria é destinado a dizer qual é a notícia principal. Qual é a grande novidade. Talvez fosse o caso de ter escrito logo no início desta reportagem que o rei e o JBS chegaram a um acordo nesta semana e não estão mais brigando. Mas ninguém sequer sabia que eles estavam trocando algumas farpas na Justiça. Então, ficou difícil escolher o que era a informação mais nova desta briga que deve marcar a história da propaganda brasileira.

Pesquisa

Há aqueles que teriam dado destaque para o valor do contrato. Afinal, muito tinha se especulado sobre quanto o JBS teria acertado com o Rei, no início deste ano, quando estreou o comercial com a música O Portão e ficou-se sabendo em rede nacional que depois de 40 anos o Rei não era mais vegetariano. Mesmo aqueles que arriscaram dizer valores altos não chegaram nem perto dos cerca de R$ 45 milhões acertados, e que estão listados nos documentos anexados ao processo judicial movido pelas empresas ligadas a Roberto Carlos.

Tampouco se sabia que o Rei usava uma empresa no exterior para receber parte do dinheiro. Na parte brasileira, o contrato era firmado com a JBS S. A. e as empresas ligadas a Roberto. No exterior, foi usada a JBS USA Holding e a empresa de nome Chaterella Investors Limited, que é a mesma que era usada pela Federação Portuguesa de Futebol para pagar o técnico Luiz Felipe Scolari.

Outros teriam escolhido destacar o fato de o Rei, recordista absoluto de venda de discos, não ser um bom garoto-propaganda. O JBS diz que encomendou uma pesquisa com uma renomada empresa de avaliação e mensuração de retorno de investimentos em comunicação, sem citar o nome de tal empresa, para medir a percepção do público sobre a imagem de Roberto Carlos. Teria ficado surpresa ao ver o resultado: as pessoas disseram não confiar no Rei. Por isso, o JBS diz que decidiu cancelar o contrato, que deveria durar até o fim de 2015, já em julho deste ano.

Pelos relatos dos documentos que estão nos processos que correm na Justiça paulista, as partes pareciam estar chegando a um acordo sobre o distrato antes mesmo de partirem para a briga. Mas uma notícia publicada por O Globo de que o contrato estaria sob ameaça, quando as partes concordaram em manter o sigilo da rescisão, e uma foto publicada no Instagram em agosto pelo Rei comendo carne em uma churrascaria, que segundo o JBS não serve a marca Friboi, azedaram as relações. Foi quando o caso foi parar na Justiça com a acusação de calote, que teria sido a escolha de muitos para o início deste texto.

Pelos contratos, os pagamentos seriam feitos de forma parcelada, em cinco vezes. Mas apenas a primeira das parcelas foi paga e então o JBS rescindiu o contrato. Na Justiça, os advogados das empresas Natureza, Amigo Produções, Atlântico Promoções, RDC Eventos e DC Set Shows, todas ligadas a Roberto Carlos, escolheram cobrar apenas pelo contrato que seria pago diretamente no Brasil. E por esse contrato a rescisão unilateral implicaria uma multa de R$ 7,2 milhões. O JBS alegava que não devia esse valor e aceitava pagar R$ 3,1 milhões. Mas isso parece agora pouco importar porque os advogados das empresas de Roberto Carlos, do escritório Trigueiro Fontes, informaram que se chegou a um acordo. O JBS informou que não vai se manifestar.